Como a STRC da Strategy perdeu o lastro e o que isso revela
A ação preferencial da Strategy, desenhada para valer US$ 100, caiu abaixo de US$ 83. A cronologia da derrocada expõe os riscos da engenharia financeira atrelada ao bitcoin.
A Strategy, antiga MicroStrategy, construiu nos últimos anos uma das estruturas de capital mais ousadas do mercado financeiro global. A empresa funciona, na prática, como um veículo de exposição alavancada ao bitcoin. Parte dessa engenharia passa pela STRC, uma ação preferencial com dividendos projetada para negociar próxima ao seu valor de par: US$ 100.
Nas últimas semanas, essa âncora se soltou. A STRC caiu abaixo de US$ 83, uma desvalorização de 17% em relação ao valor de referência e o menor patamar desde a estreia do papel, em julho de 2025. Para um ativo que deveria ser de baixa volatilidade e alto rendimento, o movimento acende sinais de alerta.
Por que o valor de par de US$ 100 importa tanto
A lógica da STRC depende de um ciclo virtuoso. A Strategy emite o papel a US$ 100, capta recursos no mercado via ofertas do tipo at-the-market (ATM) e usa o dinheiro para comprar bitcoin, ao mesmo tempo em que remunera os detentores com um dividendo anualizado de 11,5%.
Quando o preço fica próximo de US$ 100, a emissão de novas ações acontece sem diluição relevante. Quando o preço cai significativamente abaixo do par, o mecanismo trava: emitir ações a US$ 83 para pagar dividendos sobre um valor de face de US$ 100 é matematicamente destrutivo. A empresa precisa vender mais papéis para levantar menos capital.
É o tipo de espiral que investidores de criptoativos conhecem bem de outros contextos: funciona enquanto o ativo subjacente sobe, mas se torna tóxica na reversão.
A cronologia do colapso: de US$ 100 para US$ 83
No dia 14 de maio, a STRC ainda fechava em US$ 100, coincidindo com sua data ex-dividendo mensal. O bitcoin negociava acima de US$ 80 mil. Na superfície, tudo parecia sob controle. Por baixo, já havia fissuras: o bitcoin já acumulava queda expressiva em relação ao recorde de US$ 126 mil registrado em outubro, e a STRC só conseguia sustentar o par nos dias próximos ao pagamento de dividendos.
Naquele mesmo dia, a Strive Asset Management anunciou dividendos diários para seu papel concorrente, o SATA, que oferece rendimento de 13%. A Strategy, por sua vez, buscava aprovação dos acionistas para migrar de dividendos mensais para quinzenais, uma tentativa de reduzir a volatilidade ao redor das datas de pagamento.
No dia seguinte, 15 de maio, a Strategy recomprou US$ 1,5 bilhão em notas conversíveis de 2029 com desconto de 8%. A operação consumiu parte de uma reserva em dólares criada no fim de 2025 para honrar dividendos e dívidas. Esse detalhe, no entanto, só veio a público dias depois.
Em 18 de maio, a empresa comprou 24.869 BTC enquanto a criptomoeda deslizava para US$ 76 mil. Uma semana depois, em 26 de maio, confirmou que a recompra de notas havia reduzido a reserva de caixa para US$ 871 milhões, o equivalente a cerca de seis meses de cobertura de dividendos. O plano original previa manter 24 meses de cobertura.
A primeira venda de bitcoin desde 2022
Em 1º de junho, a Strategy vendeu 32 BTC, sua primeira venda do ativo desde 2022. Em termos absolutos, representou apenas 0,0038% das suas reservas. Mas o gesto simbólico foi pesado: a empresa que se definia como compradora perpétua de bitcoin demonstrou que estava disposta a vender para honrar obrigações.
O mercado reagiu com força. A ação ordinária da empresa (MSTR) caiu 5,9%. O bitcoin recuou para US$ 70,5 mil antes de fechar em US$ 71.286. A STRC encerrou o dia em US$ 98,07, já abaixo do par, como detalhamos em análises anteriores sobre pressão vendedora no mercado.
No dia 5 de junho, o bitcoin rompeu os US$ 60 mil pela primeira vez desde outubro de 2024. A STRC chegou a US$ 90 no intraday e fechou em US$ 93,40. A espiral descendente estava consolidada.
A posição atual: prejuízo não realizado de US$ 11 bilhões
Até a aprovação dos dividendos quinzenais pelos acionistas, em 8 de junho, a reserva de caixa da Strategy havia se recuperado para US$ 1,1 bilhão com novas captações. A empresa comprou mais 3.137 BTC em duas operações subsequentes.
No dia 18 de junho, a STRC atingiu a mínima de US$ 83 no intraday, fechando em US$ 88,59. O bitcoin havia apagado uma breve recuperação e recuou 2,4%, para US$ 62.880. O CEO da Strive, Matt Coles, cujo papel concorrente também caiu, atribuiu o movimento a liquidações alavancadas, descartando deterioração nos fundamentos de crédito.
A Strategy acumula 846.842 BTC, adquiridos a um preço médio de US$ 75.656. Com o bitcoin próximo de US$ 62.500, a empresa carrega um prejuízo não realizado estimado em US$ 11,14 bilhões. A ação ordinária MSTR negocia ao redor de US$ 112, uma queda de cerca de 80% em relação ao topo histórico de novembro de 2024. As duas captações mais recentes foram vistas pelo mercado como dilutivas, gerando resistência significativa entre investidores.
O que isso significa para quem acompanha o mercado cripto
A derrocada da STRC é um estudo de caso sobre os limites da engenharia financeira construída sobre um ativo volátil. A tese da Strategy sempre foi clara: usar o mercado de capitais tradicional para comprar bitcoin, apostando na valorização de longo prazo. O problema é que instrumentos como a STRC prometem previsibilidade, algo que o bitcoin não oferece.
Quando o bitcoin subia, a estrutura parecia genial. A empresa captava a custo baixo, comprava mais bitcoin, o preço subia, e o ciclo se realimentava. Agora, com o bear market, cada peça do quebra-cabeça trabalha contra a Strategy: o ativo desvaloriza, a reserva de caixa encolhe, a confiança cai e o custo de capital sobe.
A pergunta central agora é se a STRC consegue retornar ao par. Isso depende essencialmente de uma recuperação do bitcoin, algo que a própria empresa não controla. Enquanto o ativo permanecer abaixo do preço médio de aquisição da Strategy, a pressão sobre toda a estrutura de capital da empresa só tende a aumentar, como discutimos em nossa cobertura de finanças.
Para investidores de cripto, a lição é direta: instrumentos que prometem estabilidade em cima de um ativo instável carregam riscos que nem sempre são óbvios nos prospectos. Quando a maré baixa, a engenharia financeira não substitui o fundamento.
Tags