Finanças

Endividamento recorde das famílias pode ser a bomba-relógio do Brasil

Comprometimento de renda no Brasil é o maior do mundo e cresceu 6,2 p.p. desde 2019. Gestora cita Minsky e reduz exposição a varejo e bancos digitais.

Endividamento recorde das famílias pode ser a bomba-relógio do Brasil
Foto: Daniel Dan / Unsplash

O Brasil ostenta um título que ninguém deveria querer: o maior comprometimento de renda das famílias entre todas as economias comparáveis no mundo. Segundo dados até dezembro, o serviço da dívida das famílias brasileiras, que inclui amortização e pagamento de juros, consumia 29% da renda média disponível. Não existe paralelo em nenhum outro país pesquisado.

A conclusão vem de uma carta recente de uma das gestoras mais respeitadas do mercado brasileiro, que classificou a situação como um “equilíbrio instável”. O diagnóstico é direto: o crédito ao consumidor no país está num ponto que, em qualquer outra economia com condições semelhantes, já teria gerado sinais explícitos de estresse financeiro.

E o que torna o cenário ainda mais preocupante é que esse não é um problema setorial. O risco é transversal. Ele tem potencial de contaminar desde o varejo até os bancos digitais, passando por locadoras de veículos e praticamente qualquer empresa que dependa do bolso do consumidor brasileiro.

O maior comprometimento de renda do mundo, e ainda crescendo

Os números impressionam pela magnitude e pela velocidade. De 2019 até o fim do ano passado, o comprometimento da renda das famílias brasileiras subiu 6,2 pontos percentuais. É a maior variação entre todos os países analisados.

Para colocar em perspectiva: a Noruega, que aparece em segundo lugar nesse ranking de piora, registrou alta de 5,4 pontos percentuais no mesmo período. Mas o caso norueguês é explicado quase inteiramente pela alta de juros incidindo sobre financiamentos imobiliários com taxas variáveis. Depois da Noruega, nenhum outro país superou 1 ponto percentual de aumento: Austrália cresceu 0,9 ponto, Finlândia 0,6 e Canadá apenas 0,3.

E o ritmo não desacelerou. Nos últimos 12 meses, o Brasil também liderou com folga, com alta de 1,7 ponto percentual. Os Estados Unidos aparecem em segundo com 0,2 ponto. Todos os demais países da amostra tiveram retração, incluindo a Noruega, com queda de 0,2 ponto. Como analisamos em nossa cobertura de finanças, o diferencial brasileiro é que o endividamento cresce mesmo com renda em expansão.

Por que a bomba ainda não explodiu

A pergunta mais incômoda do cenário é justamente essa: se os indicadores são tão ruins, por que ainda não vimos uma deterioração severa nas carteiras de crédito, no consumo ou na originação de empréstimos?

A resposta mais provável está nos últimos anos de expansão da renda e queda do desemprego. Com mais gente empregada e ganhando mais, o impacto do endividamento crescente foi mitigado, ou ao menos adiado. Mas essa dinâmica positiva mascara uma fragilidade estrutural que se acumula silenciosamente.

É aqui que entra a teoria da instabilidade financeira de Hyman Minsky, citada na análise da gestora. O conceito central é que “estabilidade produz instabilidade”. Períodos prolongados de calmaria levam agentes econômicos a assumirem riscos cada vez maiores, justamente porque a ausência de crises gera uma falsa sensação de segurança. Minsky nunca disse quando algo vai dar errado. Apenas que, quanto mais tempo a estabilidade se prolonga, maior o custo quando a fragilidade finalmente se revela.

A frase da carta é precisa: “Estabilidade prolongada gera fragilidade acumulada; a fragilidade não se manifesta em todo ciclo, mas quando se manifesta costuma surpreender quem se acostumou à estabilidade que a precedeu.” É um alerta que, como discutimos em análises sobre o impacto dos juros altos no Brasil, merece atenção redobrada no ciclo atual.

A diferença entre o Brasil e os países ricos endividados

Um detalhe importante: países como Noruega, Canadá e Austrália também aparecem com níveis elevados de comprometimento de renda. Mas a composição da dívida é completamente diferente.

Nesses países desenvolvidos, boa parte do endividamento vem de crédito imobiliário. E o crédito imobiliário tem duas características que atenuam o risco: conta com colateral de alta qualidade (o próprio imóvel) e, na prática, substitui o aluguel por uma prestação de financiamento. Ou seja, não representa um comprometimento de renda inteiramente novo para a família.

No Brasil, a situação é diferente. O endividamento é pulverizado entre cartão de crédito, crédito pessoal, consignado e financiamentos diversos, muitos deles com juros significativamente mais altos do que em qualquer país desenvolvido. A estrutura do crédito brasileiro é intrinsecamente mais arriscada.

As saídas possíveis, e por que nenhuma é simples

A análise aponta que a resolução desse desequilíbrio dificilmente será suave. Existem basicamente três caminhos, e todos têm limitações sérias.

O primeiro seria via aumento de renda. Em tese, famílias ganhando mais poderiam absorver o comprometimento elevado. O problema é que os últimos anos já mostraram expansão de renda e, mesmo assim, o endividamento subiu. Existem incentivos estruturais ao endividamento no Brasil que anulam o efeito positivo do crescimento da renda.

O segundo caminho seria uma restrição do crédito pelos bancos. Mas apertar a torneira do crédito pode gerar um ciclo vicioso: menos crédito leva a menos consumo, que leva a mais inadimplência, que leva a mais restrição de crédito. É o tipo de espiral que se retroalimenta e pode causar danos amplos à economia.

O terceiro seria uma queda dos juros. Taxas menores reduziriam o custo do serviço da dívida e aliviariam o orçamento das famílias. Mas as projeções atuais indicam cortes modestos até o próximo ano, insuficientes para alterar materialmente o cenário.

O que os gestores estão fazendo na prática

A reação do mercado já começou, ainda que de forma seletiva. A gestora que produziu a análise zerou ou reduziu de forma relevante posições em ativos sensíveis ao crédito ao consumidor. Ações de bancos digitais e varejistas como redes de moda e locadoras de veículos foram vendidas.

A lógica não é montar uma carteira completamente imune ao consumidor endividado, o que seria praticamente impossível no Brasil. A estratégia é avaliar caso a caso. Empresas com operação relevante fora do país, por exemplo, seguem no portfólio. A gestora manteve posição em uma rede de academias que tem presença internacional significativa.

Para quem acompanha o mercado brasileiro, o recado é claro: se e quando a gestora voltar a investir nesses papéis, vai exigir descontos significativamente maiores do que os praticados hoje. O prêmio de risco do crédito ao consumidor no Brasil, na visão desses gestores, está subprecificado.

O endividamento das famílias brasileiras é, nas palavras dos analistas, “o maior risco micro do país”. E o mais preocupante é que ele pode continuar invisível até o momento em que deixa de ser.

Compartilhar
Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
Continue scrollando para a próxima matéria…