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BC adia regras para corretoras cripto: o que muda na prática

BC publicou resolução 574/2026 adiando para novembro o envio obrigatório de relatórios cambiais por exchanges. Entenda o impacto para o setor cripto brasileiro.

BC adia regras para corretoras cripto: o que muda na prática
Foto: Melvin Silva / Unsplash

O Banco Central publicou na quinta-feira (18) a resolução 574/2026, adiando para novembro o prazo em que corretoras de criptomoedas precisam começar a enviar relatórios obrigatórios sobre operações cambiais. A decisão veio após pressão coordenada de pelo menos seis associações do setor, que alegaram dificuldades técnicas para se adequar ao cronograma original.

Na superfície, é um adiamento burocrático. Na prática, o episódio revela dois fatos importantes sobre o futuro da regulação cripto no país: o BC está disposto a negociar prazos com o mercado, mas não está recuando um centímetro na essência das regras.

O que a resolução 574/2026 muda para exchanges brasileiras

A norma não altera o conteúdo da regulação cambial que enquadra transferências de criptoativos ao exterior como operações de câmbio. O que muda é o calendário. Corretoras ganharam meses adicionais para adaptar sistemas internos ao formato de reporte exigido pelo BC.

O pedido partiu de um comitê que reúne a Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABcripto), a Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs), a Associação Brasileira de Câmbio (ABRACAM), a Associação Brasileira de Banking as a Service (ABBAAS), a Zetta, a ANCORD e o grupo Brasil Cripto. Em maio, esse consórcio enviou ofícios ao BC detalhando as barreiras operacionais para o cumprimento do prazo anterior.

O argumento central era simples: os bancos de dados das exchanges não estavam prontos para gerar os relatórios no formato exigido. Não se tratava de resistência à regulação, mas de uma questão de infraestrutura tecnológica. Quem acompanha a evolução regulatória do setor cripto no Brasil sabe que esse tipo de atrito entre prazos governamentais e capacidade operacional do mercado é recorrente.

Stablecoins e câmbio: a regra que ninguém pode ignorar

O ponto mais relevante da regulação que segue intacta, apesar do adiamento, é o tratamento dado às stablecoins. O BC classificou a compra e venda de ativos com paridade em moeda estrangeira, como USDT e USDC, dentro do escopo cambial. Isso significa que uma operação de compra de Tether em uma exchange brasileira, com envio para uma carteira no exterior, pode ser tratada como remessa internacional de divisas.

Essa definição tem consequências práticas enormes. As stablecoins representam a maior parcela do volume negociado em exchanges brasileiras. Segundo dados da Receita Federal, o volume mensal de transações com criptoativos no Brasil ultrapassou R$ 100 bilhões em meses recentes, e as stablecoins respondem por fatia significativa desse montante.

A regulação também estabelece tetos diferenciados para operações. Bancos com licença cambial podem processar até US$ 500 mil por operação individual de cliente. Já as plataformas cripto sem essa licença ficam limitadas a US$ 100 mil por transação com contrapartes estrangeiras. É uma assimetria que incentiva, na prática, a busca por licenças cambiais por parte das maiores exchanges, como já analisamos no contexto da regulação financeira brasileira.

Por que o adiamento importa mais do que parece

A leitura ingênua é que o BC cedeu ao lobby das exchanges. A leitura mais precisa é que o regulador está consolidando um padrão de governança baseado em consulta setorial, algo que não existia há dois anos no mercado cripto brasileiro.

Em 2024, quando o marco regulatório foi sancionado, o setor reclamava de falta de diálogo. Agora, existe um comitê formal com múltiplas associações que consegue negociar ajustes de prazo por meio de ofícios técnicos. Isso é maturidade institucional, não captura regulatória.

O ponto de atenção para investidores e operadores do mercado é que novembro chega rápido. As exchanges que não usarem esses meses extras para adequar seus sistemas de compliance e reporte vão enfrentar o mesmo problema em outubro, com ainda menos margem de manobra.

Para o investidor pessoa física, o impacto imediato é limitado. Mas a obrigação de informar a finalidade de cada remessa de criptoativos ao exterior adiciona uma camada de burocracia que pode encarecer ou desacelerar operações cross-border. Quem utiliza stablecoins para remessas internacionais precisa ficar atento às novas exigências que entrarão em vigor.

O que esperar do segundo semestre

O segundo semestre de 2026 será decisivo para a regulação cripto no Brasil. Além da entrada em vigor das regras de reporte cambial em novembro, o BC deve avançar na regulamentação de prestadores de serviços de ativos virtuais (VASPs), com exigências de capital mínimo e governança corporativa.

A tendência é de que o custo de compliance aumente significativamente para exchanges menores, acelerando um processo de consolidação que já está em curso no mercado brasileiro. As plataformas que não conseguirem investir em infraestrutura regulatória tendem a ser absorvidas ou a encerrar operações, como já discutimos ao abordar os impactos da regulação no ecossistema cripto nacional.

O adiamento do BC não é, portanto, uma vitória definitiva do mercado. É um intervalo negociado. A direção está clara: o Brasil quer tratar criptoativos como parte do sistema financeiro formal, com todas as obrigações que isso implica. Quem operar nesse mercado precisa se preparar para um ambiente regulatório cada vez mais parecido com o do mercado financeiro tradicional.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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