Bitcoin cai há 4 dias seguidos: o que pressiona o mercado cripto
Bitcoin recua para US$ 62.400 com queda generalizada em altcoins. Pressão vem da Strategy de Michael Saylor e de mineradores operando no prejuízo.
Quatro dias consecutivos de queda no mercado cripto
O bitcoin acumula quatro sessões seguidas de desvalorização e opera abaixo dos US$ 62.400, uma retração de 2,5% nas últimas 24 horas. Não se trata de um movimento isolado. O mercado mais amplo de criptomoedas acompanha a pressão vendedora, com índices de smart contracts caindo 4% e os segmentos de DeFi e altcoins de menor capitalização registrando perdas semelhantes.
Ether, XRP e Solana também recuam. Quando o bitcoin tosse, o resto do mercado pega gripe, diz o velho ditado cripto. Desta vez, porém, as razões por trás da tosse são mais estruturais do que um simples ajuste de curto prazo.
Dois fatores se destacam: a deterioração financeira da Strategy, a empresa de Michael Saylor que acumula bitcoin em tesouraria, e a capitulação silenciosa de mineradores que operam abaixo do custo de produção há cinco meses consecutivos. São dois vendedores potenciais que não estavam no radar do mercado até pouco tempo atrás.
O problema da Strategy e o risco de venda forçada
A Strategy, maior detentora pública de bitcoin do mundo, enfrenta um momento delicado. Sua ação preferencial com dividendos, a STRC, caiu abaixo do valor de par. Isso não é um detalhe técnico irrelevante. É um sinal de que o mercado já precifica o cenário em que a empresa precisaria vender parte de suas reservas de bitcoin para honrar compromissos financeiros.
Segundo analistas da corretora Marex, o mercado “agora precifica abertamente o risco de cauda de que a Strategy tenha que vender moedas para defender sua estrutura de capital”. Em termos práticos, isso significa que a estratégia agressiva de acumulação de Michael Saylor, que por anos foi celebrada como visão de longo prazo, pode se transformar em fonte de pressão vendedora justamente quando o mercado mais precisa de compradores.
Para quem acompanha a dinâmica do mercado cripto, o paralelo mais próximo é o da Celsius e da Three Arrows Capital em 2022. Empresas que acumularam posições enormes em cripto usando alavancagem e, quando o mercado virou, se tornaram vendedoras forçadas. A Strategy não opera com a mesma estrutura, mas o mecanismo de retroalimentação negativa é parecido: queda no preço do bitcoin deteriora o balanço, que força vendas, que pressiona mais o preço.
Mineradores operam no prejuízo há cinco meses
O segundo vetor de pressão vem de quem sustenta a infraestrutura da rede. Segundo dados de mercado, o bitcoin negocia abaixo do custo estimado de produção de US$ 78 mil há cinco meses consecutivos. Isso significa que, na média, mineradores estão pagando mais para produzir bitcoin do que recebem ao vendê-lo.
Essa matemática é insustentável por muito tempo. Os mineradores com balanço mais fraco já começam a capitular, vendendo reservas acumuladas para cobrir custos operacionais. Quando isso acontece em escala, cria-se uma pressão vendedora adicional que não existia semanas atrás.
Historicamente, a capitulação de mineradores costuma marcar fundos de ciclo, como detalhamos nesta análise sobre os ciclos do bitcoin. Mas essa fase pode durar semanas ou meses antes de uma reversão. O ponto importante é que, enquanto o custo de produção estiver acima do preço de mercado, haverá pressão contínua desse grupo.
Volume nas exchanges atinge menor nível desde setembro de 2024
Os dados de volume reforçam o cenário de apatia. Em maio, o volume combinado nas exchanges caiu 3,45%, totalizando US$ 4,41 trilhões. É o menor patamar registrado desde setembro de 2024, período que precedeu uma alta significativa no último trimestre daquele ano.
Volume baixo em tendência de queda é ambíguo. Pode indicar que a pressão vendedora está se esgotando, o que seria positivo. Ou pode significar que os compradores simplesmente desapareceram, o que é preocupante. O contexto atual sugere mais a segunda interpretação.
Há, porém, um dado contraintuitivo. Enquanto o mercado geral encolhe, os volumes de futuros perpétuos ligados a ativos do mundo real tokenizados (RWA) subiram 10,4%, atingindo um recorde histórico. Isso mostra que o capital institucional não abandonou o mercado cripto, mas está migrando para segmentos percebidos como mais fundamentados, como a tokenização de ativos reais.
O que esperar daqui para frente
O cenário de curto prazo para o bitcoin combina três ingredientes desconfortáveis: um grande detentor sob pressão financeira, mineradores capitulando e volume em queda. Nenhum desses fatores, isoladamente, é catastrófico. Juntos, criam um ambiente em que qualquer recuperação enfrenta resistência significativa.
Para o investidor que já está posicionado, o momento pede paciência e atenção ao comportamento da Strategy. Se Michael Saylor for obrigado a vender parte das reservas, o impacto psicológico no mercado pode ser tão relevante quanto o efeito prático da venda em si. A narrativa de “nunca vender bitcoin” é um dos pilares do otimismo institucional. Vê-la quebrar mudaria o tom do mercado.
O segmento DeFi, que lidera as perdas junto com tokens de smart contracts, sofre por ser o mais sensível a movimentos de aversão ao risco. Quando o capital institucional recua, são esses ativos de maior beta que sentem primeiro.
O dado positivo, se há um, é que capitulações de mineradores historicamente antecedem recuperações. Mas entre o fundo e a virada, o mercado pode testar a paciência de qualquer investidor. O momento não é de pânico, mas tampouco de complacência.