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Pump.fun cai 80%: o que aconteceu com Solana

Plataforma de memecoins perdeu 80% de atividade em três meses. Queda expõe fragilidade do modelo de taxas de Solana e a rotação dos traders.

Pump.fun cai 80%: o que aconteceu com Solana
Foto: Bastian Riccardi / Unsplash

A Pump.fun, plataforma que se tornou sinônimo da febre de memecoins em Solana, perdeu 80% de sua atividade nos últimos três meses. O dado, reportado pelo The Block, não é apenas um problema para a plataforma. É um sinal de alerta para toda a rede Solana, cuja receita de taxas dependeu fortemente desse tipo de especulação.

No auge, entre o final de 2024 e o início de 2025, a Pump.fun gerava milhões de dólares em taxas diárias e era responsável por uma parcela significativa de todas as transações na rede. Agora, os traders migraram. O destino preferido: plataformas de derivativos perpétuos, como a Hyperliquid, e protocolos de DeFi com narrativas mais sustentáveis.

Como a Pump.fun inflou as métricas de Solana

Para entender o impacto, é preciso voltar ao modelo. A Pump.fun permitia que qualquer pessoa criasse um token em segundos, sem código, sem auditoria, sem qualquer barreira. O resultado foi uma explosão de memecoins, a maioria sem utilidade, que gerava volume de negociação altíssimo.

Esse volume se traduzia diretamente em taxas para a rede Solana. Como analisamos na cobertura de criptomoedas do portal, as métricas de atividade on-chain de Solana em 2024 foram infladas por esse ciclo especulativo. Transações por segundo, receita de taxas, endereços ativos: todos os indicadores subiam. Mas a qualidade dessa atividade era questionável.

A queda de 80% expõe exatamente isso. Quando a atividade especulativa seca, a rede perde receita. É como um shopping que encheu de lojas temporárias durante o Natal e agora vê os corredores vazios.

Para onde os traders foram

A rotação é visível nos dados. A Hyperliquid, exchange descentralizada de derivativos perpétuos, registrou volumes recordes nas últimas semanas. O protocolo opera em sua própria chain (L1) e oferece uma experiência de trading mais próxima de exchanges centralizadas, com orderbook e latência baixa.

A Uniswap também se beneficiou, com aumento de volume em pares de tokens ligados a narrativas de inteligência artificial. E a Worldcoin, projeto de identidade digital de Sam Altman, viu seu token valorizar à medida que traders buscam exposição ao tema de IA no universo cripto.

O padrão é clássico nos mercados de criptomoedas: capital especulativo migra de narrativa em narrativa. Memecoins dominaram de outubro de 2024 a fevereiro de 2025. Agora, a vez é de protocolos ligados a IA e infraestrutura DeFi. A questão é se a próxima rotação trará algo mais duradouro.

O problema estrutural das taxas de Solana

Solana tem uma característica de design que amplifica esse problema: taxas muito baixas. Em redes como Ethereum, as taxas altas funcionam como um filtro natural contra spam e atividade de baixo valor. Em Solana, o custo por transação é centavos de dólar, o que facilita a criação massiva de tokens inúteis, mas também significa que a rede precisa de volume imenso para gerar receita comparável.

Segundo dados do DeFiLlama, a receita diária de taxas de Solana caiu de uma média de US$ 8 milhões no pico de janeiro para menos de US$ 2 milhões nas últimas semanas. Uma queda de 75% que espelha quase perfeitamente o declínio da Pump.fun.

Isso levanta uma pergunta incômoda: a receita de Solana é estruturalmente sustentável sem ondas especulativas? Como discutimos em análises anteriores sobre o ecossistema, a rede precisa atrair aplicações de maior valor agregado, como pagamentos, stablecoins e tokenização de ativos reais, para diversificar sua base de receita.

O que o investidor de Solana precisa observar

Para quem tem exposição a SOL, o token nativo da rede, o dado da Pump.fun não é motivo para pânico, mas exige atenção. O preço de SOL já corrigiu cerca de 40% desde as máximas do início do ano, refletindo em parte essa desaceleração.

Os indicadores a monitorar são: volume de stablecoins na rede (que tem crescido, parcialmente compensando a queda de memecoins), número de desenvolvedores ativos (que permanece robusto segundo dados da Electric Capital) e a evolução do ecossistema de DeFi institucional, com projetos como o Jupiter Exchange ganhando tração.

A tese de longo prazo para Solana nunca foi memecoins. Era velocidade, custo baixo e experiência de usuário superior para aplicações de escala. O problema é que, no curto prazo, foram as memecoins que pagaram as contas. Agora, a rede precisa provar que tem outras fontes de demanda.

Lição para o mercado cripto como um todo

O ciclo Pump.fun ilustra um padrão recorrente em cripto: plataformas que crescem explosivamente com base em especulação pura tendem a ter vida curta. O desafio para qualquer blockchain é construir utilidade real que sobreviva ao fim da euforia.

Ethereum enfrentou o mesmo teste após a bolha de ICOs em 2017 e a febre de NFTs em 2021. Em ambos os casos, a rede encontrou novos casos de uso. Solana terá que fazer o mesmo. A boa notícia é que o ecossistema tem capital, desenvolvedores e infraestrutura para isso. A má notícia é que os números de curto prazo vão ficar feios enquanto essa transição acontece.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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