Finanças

Raízen vende operação argentina e fecha acordo com 75% dos credores

Maior processadora de cana do mundo fecha venda da operação argentina por US$ 1,4 bilhão e obtém quórum para a maior recuperação extrajudicial da história do Brasil.

Raízen vende operação argentina e fecha acordo com 75% dos credores
Foto: L. Lum / Unsplash

A Raízen está executando uma das reestruturações mais ambiciosas da história corporativa brasileira, e os últimos dias mostraram que a estratégia está funcionando. A empresa, joint venture entre Cosan e Shell, vendeu sua operação na Argentina por US$ 1,4 bilhão e, quase simultaneamente, garantiu a adesão de 75% dos credores ao plano de recuperação extrajudicial. São dois movimentos que, juntos, redesenham o perfil financeiro de uma companhia que chegou a valer mais de R$ 40 bilhões na B3.

A venda da operação argentina, que inclui refino de combustíveis e distribuição no mercado local, segue a lógica de desinvestimento que a Raízen adotou nos últimos meses: enxugar o portfólio internacional, gerar caixa e concentrar esforços no core business de etanol e energia renovável no Brasil.

A maior recuperação extrajudicial do Brasil

A adesão de 75% dos credores é o dado mais relevante da semana para quem acompanha o mercado de crédito corporativo brasileiro. O plano de recuperação extrajudicial da Raízen envolve a renegociação de cerca de R$ 12 bilhões em dívidas, tornando-se o maior processo do tipo já registrado no país.

Para efeito de comparação, a recuperação judicial da Americanas, que dominou manchetes em 2023 e 2024, lidou com um passivo de R$ 42 bilhões, mas seguiu o rito judicial, com supervisão de um administrador nomeado pelo tribunal. A via extrajudicial da Raízen é diferente: exige negociação direta com credores e aprovação voluntária de pelo menos 60% deles, segundo a legislação brasileira. Atingir 75% indica que os credores consideram o plano viável e preferem a renegociação à alternativa de uma eventual recuperação judicial.

Bancos como Bradesco, Itaú e Santander estão entre os maiores credores da Raízen. O fato de terem aderido ao plano sugere que o sistema financeiro brasileiro está confiante na capacidade de execução da empresa. Os termos incluem extensão de prazos de pagamento, redução de juros em parte das dívidas e conversão parcial de crédito em instrumentos de longo prazo.

O que a venda da Argentina muda na equação

Os US$ 1,4 bilhão da venda da operação argentina entram diretamente no caixa da Raízen e serão usados para amortizar dívidas de curto prazo. A operação foi comprada por um consórcio liderado pela Trafigura, gigante suíça de trading de commodities, que já tem presença significativa no mercado de energia da América Latina.

O timing é estratégico. A Argentina de Milei, com sua agenda de desregulamentação e abertura econômica, tornou ativos de energia no país mais atrativos para compradores internacionais. A Raízen soube aproveitar essa janela para vender em condições favoráveis, obtendo um múltiplo de cerca de 6x o EBITDA da operação, considerado justo por analistas do setor.

Com a venda, a Raízen abandona seu último mercado relevante fora do Brasil. A empresa já havia se desfeito de operações menores no Paraguai e na Bolívia ao longo de 2024. A concentração geográfica no mercado brasileiro reduz complexidade operacional, mas também aumenta a exposição da companhia a riscos domésticos, como oscilações na política de preços de combustíveis e safras de cana impactadas por clima.

O que os investidores devem observar agora

As ações da Raízen (RAIZ4) acumulam queda de mais de 60% desde o pico histórico em 2022. A pergunta que o mercado faz é se a reestruturação em curso é suficiente para reverter essa trajetória ou se a empresa precisa de medidas mais drásticas.

Os próximos passos incluem a homologação judicial do plano de recuperação extrajudicial, esperada para as próximas semanas, e a divulgação do plano estratégico atualizado, que deve detalhar como a Raízen pretende competir no mercado de biocombustíveis e energia renovável nos próximos cinco anos.

O contexto setorial joga a favor. O etanol brasileiro é um dos biocombustíveis mais competitivos do mundo, e a transição energética global aumenta a demanda por alternativas ao petróleo. A Shell, que detém 50% da Raízen, tem reafirmado seu compromisso com a joint venture, o que dá credibilidade à tese de recuperação.

O precedente para o mercado de crédito brasileiro

Além do impacto direto na Raízen, o caso abre um precedente importante para o mercado de crédito corporativo no Brasil. A recuperação extrajudicial ainda é pouco utilizada por grandes empresas no país, que historicamente preferem o rito judicial por conta da proteção automática contra credores (o chamado “stay period”).

O sucesso da Raízen em obter adesão de 75% dos credores na via extrajudicial pode incentivar outras empresas endividadas a tentarem o mesmo caminho. Isso seria positivo para o ecossistema de crédito como um todo, já que processos extrajudiciais são mais rápidos, menos custosos e geram menos incerteza do que recuperações judiciais tradicionais.

Para o investidor que acompanha o mercado de renda fixa, as debêntures da Raízen passaram de papéis sob forte estresse de crédito para instrumentos com perspectiva de recuperação. Os spreads já começaram a recuar nas últimas semanas, antecipando o desfecho favorável das negociações com credores. É um caso que ilustra como reestruturações corporativas podem criar oportunidades assimétricas no mercado de dívida.

Compartilhar
Marina Alves

Sobre o autor

Marina Alves

Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.

Continue scrollando para a próxima matéria…