Finanças

Por que o Nubank já caiu quase 30% em 2026

BofA cortou Nubank para venda e Santander retirou o selo de top pick. Saída do CFO e compressão de múltiplos explicam a queda de quase 30% no ano.

Quem comprou ações do Nubank no início do ano e segurou até agora acumula um prejuízo próximo de 30%. A Nu Holdings, listada na Bolsa de Nova York, viu seu papel derreter em poucos meses, numa combinação de fatores que vai muito além do humor do mercado. A saída inesperada do CFO, rebaixamentos de grandes bancos de investimento e uma reavaliação global de múltiplos de fintechs formam o cenário que empurrou o roxinho ladeira abaixo.

O movimento mais recente veio do Bank of America, que cortou a recomendação de Nu Holdings para “venda”. No mesmo dia, o Santander retirou o selo de “top pick” que sustentava há meses. São dois sinais fortes de que o consenso de Wall Street sobre a tese de crescimento do Nubank está rachando.

O que motivou os rebaixamentos do Nubank

O gatilho imediato para o corte do BofA foi a saída do CFO da companhia. Em empresas de alto crescimento, o diretor financeiro é peça central na narrativa junto a investidores. Sua saída gera incerteza sobre disciplina de capital, governança e capacidade de entregar os números prometidos ao mercado.

Mas o problema é mais profundo. O Nubank negociava a múltiplos elevados, reflexo de anos de crescimento acelerado da base de clientes, que hoje supera 100 milhões de pessoas. O desafio, como já analisamos na editoria de finanças, é que crescimento de base sem rentabilidade proporcional corrói a tese de valuation premium.

Os números do primeiro trimestre de 2026 mostraram desaceleração na receita média por cliente ativo. A inadimplência, embora controlada, parou de cair. E o custo de funding subiu com a Selic ainda em patamares elevados. Esse tripé pressiona margens justamente no momento em que o mercado cobra resultados de fintechs que prometeram ser lucrativas “em escala”.

Compressão de múltiplos atinge fintechs globalmente

O Nubank não está sozinho. Fintechs listadas em Nova York enfrentam uma reprecificação global desde o segundo semestre de 2025. Com juros americanos ainda acima de 4%, o custo de oportunidade para investir em growth stocks permanece alto. Investidores institucionais estão migrando para ativos de valor e renda fixa, um movimento que penaliza desproporcionalmente empresas que negociam a múltiplos de 20x ou mais sobre lucro.

No caso do Nubank, o papel chegou a negociar acima de 30x o lucro projetado para 2026. Após a queda de quase 30%, esse múltiplo recuou, mas ainda é considerado esticado por analistas que comparam com bancos tradicionais brasileiros, como Itaú e Bradesco, que negociam entre 7x e 10x.

A pergunta que o mercado faz agora é direta: o Nubank merece um prêmio de 2x a 3x sobre bancos incumbentes? A resposta depende da capacidade de monetizar a base gigantesca de clientes com produtos de maior margem, como crédito consignado e seguros. Nesse sentido, é interessante observar que a corrida por eficiência via inteligência artificial pode ser um diferencial competitivo para fintechs que conseguirem reduzir custos operacionais mais rápido que bancos tradicionais.

O que a saída do CFO sinaliza para investidores

Mudanças no C-suite de fintechs listadas são sempre lidas com lupa por Wall Street. Quando o CFO sai, as primeiras perguntas são: ele discordava da estratégia? Há algo nos números que ainda não apareceu nos balanços? A companhia vai mudar a política de alocação de capital?

O Nubank não deu explicações detalhadas sobre a saída, o que alimentou especulações. Em teleconferências anteriores, a companhia vinha sinalizando investimentos pesados em expansão para México e Colômbia, mercados onde a rentabilidade é ainda mais incerta que no Brasil. Uma possível divergência sobre a velocidade dessa expansão internacional poderia justificar o desalinhamento.

Para quem acompanha o setor financeiro brasileiro, esse cenário lembra o que aconteceu com outras empresas de tecnologia financeira que cresceram rápido demais sem consolidar margens. A aposta de concorrentes como o PicPay no consignado privado mostra que o mercado está premiando quem entrega resultado concreto, não apenas promessa de escala.

Nubank vale a pena em 2026?

Responder essa pergunta exige separar o negócio da ação. O Nubank continua sendo uma empresa com execução operacional acima da média, base de clientes incomparável na América Latina e marca forte. Nada disso mudou.

O que mudou foi o preço que o mercado está disposto a pagar por essa história. Com a queda de 30%, o papel ficou mais barato em termos relativos, mas ainda carrega prêmio significativo sobre pares. O consenso de analistas está dividido: 8 recomendam compra, 6 sugerem manter e agora 4 indicam venda, segundo compilação da Bloomberg.

O próximo catalisador será o balanço do segundo trimestre, esperado para agosto. Se a companhia mostrar estabilização de margem e indicar um substituto sólido para o CFO, o papel pode encontrar um piso. Se os números decepcionarem novamente, a queda pode se aprofundar.

O que parece claro é que o Nubank entrou em uma nova fase. O período de euforia com crescimento de base ficou para trás. O mercado agora cobra rentabilidade sustentável, disciplina de capital e governança impecável. É o preço de ser uma fintech de US$ 30 bilhões.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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