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Amaggi paga US$ 1 bi pela FS e aposta no etanol

Gigante do agronegócio desembolsa US$ 1 bilhão por fatia na FS. Movimento sinaliza consolidação acelerada no setor de biocombustíveis brasileiro.

Amaggi paga US$ 1 bi pela FS e aposta no etanol
Foto: saaymee .. / Unsplash

A Amaggi, uma das maiores tradings de grãos do Brasil, acaba de desembolsar US$ 1 bilhão por 40% da FS, maior produtora de etanol de milho do país. O negócio marca a entrada definitiva do grupo da família Maggi no setor de biocombustíveis e sinaliza uma nova fase de consolidação em uma indústria que cresce a passos largos no Centro-Oeste brasileiro.

A transação não é trivial em nenhum sentido. O valuation implícito de US$ 2,5 bilhões para a FS coloca a empresa entre as maiores do setor de energia renovável no Brasil. Para a Amaggi, é uma diversificação estratégica que conecta sua operação de originação de milho com a ponta industrial de maior valor agregado da cadeia.

Por que etanol de milho virou uma aposta bilionária

O etanol de milho é a vertical de biocombustíveis que mais cresce no Brasil. Enquanto o etanol de cana-de-açúcar domina o mercado há décadas, a produção a partir do milho saltou de praticamente zero em 2017 para mais de 7 bilhões de litros em 2025, segundo dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem).

A lógica econômica é poderosa. O Centro-Oeste produz milho em excesso. O custo de frete para exportar esse grão via portos do Norte ou Sudeste é altíssimo. Converter o milho em etanol localmente reduz custo logístico e captura uma margem que antes ficava com intermediários e armadores. A FS, com plantas em Mato Grosso e Goiás, está no epicentro dessa equação.

Além do etanol, as usinas de milho produzem DDG (ração animal de alto valor proteico), óleo de milho e, cada vez mais, biogás e créditos de carbono. A FS reportou receita superior a R$ 10 bilhões no último exercício, com margens operacionais robustas. Como destacamos na cobertura de finanças, o agronegócio brasileiro segue atraindo volumes expressivos de capital em meio à transição energética global.

O que a Amaggi ganha com o negócio

Para a Amaggi, o investimento resolve um problema estratégico de longo prazo: a commoditização. Tradings de grãos operam com margens finas e alta exposição a ciclos de preço. Ao entrar na industrialização do milho, o grupo sobe na cadeia de valor e cria uma fonte de receita mais estável e com maior barreira de entrada.

Há também a sinergia operacional. A Amaggi origina milhões de toneladas de milho por safra. Direcionar parte desse volume para as usinas da FS, a custos competitivos, cria uma vantagem estrutural que poucos concorrentes conseguem replicar. É verticalização no sentido mais clássico do termo.

Blairo Maggi, fundador do grupo, construiu a Amaggi sobre a tese de que o Centro-Oeste seria o celeiro do mundo. Essa aposta se provou correta. Agora, a segunda geração da família parece querer provar que a mesma região será também o posto de combustível do planeta.

Consolidação acelerada no setor de biocombustíveis

O movimento da Amaggi não acontece isolado. O setor de biocombustíveis no Brasil vive uma onda de consolidação. A Raízen, joint venture de Shell e Cosan, tem expandido sua capacidade. A BP adquiriu a Bunge Bioenergia. E fundos de private equity globais, como Brookfield e Apollo, aumentaram exposição ao setor nos últimos 18 meses.

O pano de fundo regulatório favorece. O programa RenovaBio, que atribui valor econômico à descarbonização de combustíveis, criou um mercado de créditos (CBios) que adiciona receita às usinas. O mandato de mistura de etanol na gasolina segue entre os mais altos do mundo. E a demanda por combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) abre uma nova fronteira de crescimento, como analisamos em matérias sobre transição energética.

Com a entrada da Amaggi, a FS ganha musculatura financeira para acelerar sua expansão. A empresa já anunciou planos para duas novas usinas, o que elevaria sua capacidade de produção em cerca de 40% até 2028.

Riscos no radar do investidor

Nem tudo é entusiasmo. O setor de etanol de milho enfrenta desafios reais. O preço do milho é volátil e uma safra ruim pode comprimir margens rapidamente. A concorrência com etanol de cana gera pressão de preço no mercado doméstico. E a eletrificação da frota de veículos leves, embora lenta no Brasil, é uma ameaça estrutural de longo prazo.

Há também o risco de execução. Construir e operar usinas de biocombustíveis exige capital intensivo e gestão operacional sofisticada. A FS tem histórico positivo, mas a velocidade de expansão planejada aumenta a complexidade. Como discutimos em nossa análise sobre investimentos em commodities, apostar em cadeias de valor agroindustriais exige visão de ciclo longo.

Para o mercado financeiro, o negócio é um termômetro. Quando uma trading de grãos com décadas de disciplina financeira coloca US$ 1 bilhão em uma única aposta, é porque a tese de investimento está madura. O etanol de milho deixou de ser uma promessa. A questão agora é quem captura mais valor nessa cadeia, e a Amaggi está se posicionando para ser resposta.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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