Finanças

Moody’s dá nota máxima a fundos tokenizados de BlackRock e Fidelity

Agência de risco equiparou fundos tokenizados a equivalentes tradicionais, sinalizando que Wall Street já trata blockchain como infraestrutura, não como aposta.

Moody’s dá nota máxima a fundos tokenizados de BlackRock e Fidelity
Foto: Gupta Sahil / Unsplash

A Moody’s concedeu a classificação de crédito mais alta possível aos fundos de mercado monetário tokenizados da BlackRock e da Fidelity. É a primeira vez que uma das três grandes agências de risco globais trata um produto financeiro emitido em blockchain com o mesmo rigor e resultado que aplica aos equivalentes tradicionais.

O BUIDL, fundo tokenizado da BlackRock emitido na rede Ethereum, e o equivalente da Fidelity receberam nota Aaa-mf, o topo da escala para fundos de money market. A decisão não foi simbólica. A Moody’s aplicou a mesma metodologia usada para avaliar fundos tradicionais com trilhões de dólares sob gestão.

O que muda com o rating da Moody’s para fundos tokenizados

Até agora, o principal entrave para a adoção institucional de ativos tokenizados não era tecnológico. Era regulatório e reputacional. Gestores de fundos de pensão, seguradoras e tesourarias corporativas operam sob mandatos rígidos que exigem ratings mínimos de agências reconhecidas. Sem esse selo, o dinheiro grande simplesmente não entra.

Com a classificação Aaa-mf, a Moody’s removeu essa barreira para pelo menos dois produtos. Fundos de pensão que antes não podiam alocar em nada “cripto” agora podem, tecnicamente, comprar cotas tokenizadas do BUIDL com a mesma justificativa regulatória que usam para adquirir cotas de fundos tradicionais da BlackRock.

Isso representa uma mudança estrutural. Como já abordamos em nossa cobertura de finanças, a tokenização de ativos do mundo real (RWA) vem crescendo de forma consistente. O mercado de títulos do Tesouro americano tokenizados ultrapassou US$ 6 bilhões em 2025, e a projeção para 2026 aponta para algo próximo de US$ 15 bilhões.

Por que BlackRock e Fidelity lideram a corrida da tokenização

A escolha dessas duas gestoras pela Moody’s não é coincidência. A BlackRock administra mais de US$ 11 trilhões em ativos globais. A Fidelity, cerca de US$ 5 trilhões. Juntas, representam o núcleo do establishment financeiro americano.

O BUIDL da BlackRock, lançado em março de 2024, acumulou mais de US$ 2,5 bilhões em ativos sob gestão. O fundo investe em títulos do Tesouro dos EUA de curto prazo e distribui rendimentos diários aos detentores de tokens na Ethereum. Na prática, funciona como um fundo de money market tradicional, mas liquidado em blockchain com settlement quase instantâneo.

A Fidelity seguiu caminho semelhante, tokenizando seu fundo de mercado monetário em parceria com redes blockchain de nível institucional. O movimento faz parte de uma estratégia mais ampla que inclui custódia de criptoativos e ETFs de bitcoin e ethereum já listados nos Estados Unidos.

O diferencial competitivo dessas gestoras está na infraestrutura de compliance já existente. Elas não precisam construir processos de KYC, auditoria e governança do zero. Apenas adaptam estruturas que já operam há décadas para um novo trilho de liquidação.

O impacto para o investidor brasileiro

Para quem investe no Brasil, a decisão da Moody’s tem efeitos indiretos, mas relevantes. A CVM já sinalizou interesse em regulamentar a tokenização de valores mobiliários, e a evolução regulatória no mercado brasileiro tende a se acelerar quando referências internacionais validam o modelo.

Gestoras brasileiras como Liqi, Vórtx QR e MB estão posicionadas nesse segmento, mas operam em escala muito menor. A validação da Moody’s cria um precedente que pode acelerar a adoção local, especialmente entre investidores institucionais que seguem de perto o que acontece em Nova York.

Outro ponto: fundos tokenizados com rating Aaa-mf podem se tornar a base de colateral para operações de DeFi institucional. Se um protocolo aceita BUIDL como garantia, a ponte entre finanças tradicionais e descentralizadas fica mais curta. O settlement em blockchain reduz custos operacionais em até 80%, segundo estimativas da própria BlackRock.

O que vem depois do selo de qualidade

A grande questão agora é velocidade de adoção. O rating da Moody’s resolve o problema de percepção de risco, mas não elimina fricções operacionais. Custódia de tokens, integração com sistemas legados de back-office e treinamento de equipes de compliance ainda são gargalos reais.

A expectativa do mercado é que outras agências, como S&P e Fitch, sigam o mesmo caminho nos próximos trimestres. Quando isso acontecer, o universo de capital elegível para produtos tokenizados pode saltar de centenas de bilhões para trilhões de dólares.

O movimento da Moody’s não é sobre cripto. É sobre infraestrutura financeira. A blockchain deixou de ser uma tecnologia em busca de problema. Agora é um trilho de liquidação que as maiores instituições do planeta estão adotando, com o aval das mesmas agências que definem como o dinheiro institucional se move.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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