Stablecoins no Brasil: quais existem e como funcionam
O Brasil já conta com mais de dez stablecoins pareadas ao real. Entenda quais são os principais projetos, como funcionam e por que esse mercado cresce rápido.
O mercado de stablecoins no Brasil saiu do nicho e virou tendência. Em menos de dois anos, o país passou de ter dois ou três projetos relevantes para mais de dez stablecoins pareadas ao real brasileiro circulando em diferentes blockchains. O fenômeno acompanha um movimento global: as stablecoins movimentaram mais de US$ 30 trilhões em volume nos últimos 12 meses, segundo dados da Visa Onchain Analytics, superando o volume combinado da Visa e da Mastercard.
Mas o que diferencia uma stablecoin de real da outra? Quais realmente têm lastro verificável? E por que isso importa para quem investe em cripto ou acompanha a evolução do sistema financeiro brasileiro? Este guia responde essas perguntas.
O que são stablecoins pareadas ao real e por que existem
Uma stablecoin é um token digital projetado para manter paridade com um ativo de referência. No caso das stablecoins de real, cada token deveria valer R$ 1,00. O lastro pode ser garantido de diferentes formas: depósitos em conta bancária, títulos do Tesouro, mecanismos algorítmicos ou uma combinação de todos.
A razão de existência é prática. Stablecoins de real permitem que brasileiros movimentem valores em blockchains sem exposição à volatilidade do dólar ou do Bitcoin. Servem como ponte entre o sistema financeiro tradicional e o universo cripto, facilitando pagamentos, remessas internacionais e operações em protocolos de finanças descentralizadas (DeFi).
Para empresas, a proposta de valor é ainda mais clara. Pagamentos B2B usando stablecoins de real eliminam a necessidade de intermediários bancários, reduzem custos de transferência e aceleram a liquidação. É um mercado que, como mostrou o lançamento recente de stablecoins de iene no Japão, está ganhando tração em várias economias ao mesmo tempo.
Os principais projetos de stablecoin de real no Brasil
O ecossistema de stablecoins brasileiras pode ser dividido em três categorias: projetos de instituições financeiras reguladas, iniciativas de fintechs cripto-nativas e tokens emitidos por exchanges.
Entre os mais conhecidos está o BRZ, emitido pela Transfero, que circula em blockchains como Ethereum, Solana e BNB Chain. É um dos mais antigos do mercado e tem parceria com grandes exchanges globais. O lastro é garantido por depósitos em contas bancárias brasileiras, com auditorias periódicas publicadas pela empresa.
O MBRL, da Mercado Bitcoin, opera de forma semelhante. Emitido por uma das maiores exchanges da América Latina, conta com a infraestrutura regulatória do grupo 2TM e é utilizado principalmente dentro do próprio ecossistema da plataforma.
A Foxbit lançou sua própria versão, e players como Bitso e Transfero expandiram opções ao longo dos últimos meses. No segmento institucional, o Itaú e o BTG Pactual desenvolveram projetos internos de tokenização que, embora não sejam stablecoins no sentido estrito, cumprem funções similares em ambientes permissionados.
Mais recentemente, projetos DeFi-nativos começaram a surgir. São stablecoins criadas em protocolos descentralizados, com mecanismos de colateralização on-chain. Embora menores em volume, representam a evolução do conceito para uma camada mais desintermediada.
Como verificar se uma stablecoin tem lastro real
Este é o ponto mais importante para qualquer investidor. Nem toda stablecoin é igual, e a história recente do mercado cripto tem exemplos dolorosos de projetos que perderam a paridade. O colapso do UST/Terra em 2022 eliminou mais de US$ 40 bilhões em valor e serviu como alerta sobre os riscos de stablecoins algorítmicas sem lastro adequado.
Os critérios para avaliar a confiabilidade de uma stablecoin incluem: prova de reservas auditada por terceiro independente, transparência sobre onde os ativos estão custodiados, histórico de manutenção da paridade e volume de negociação. Stablecoins com auditorias regulares e publicadas tendem a ser mais confiáveis do que aquelas que apenas declaram ter lastro sem comprovação verificável.
No caso das stablecoins brasileiras, o arcabouço regulatório em construção pelo Banco Central deve trazer mais clareza. O Drex, projeto de moeda digital do BC, não é uma stablecoin no sentido convencional, mas sua implementação está forçando o mercado a se profissionalizar e atender padrões mais rigorosos de governança.
Stablecoins de real versus stablecoins de dólar: quando usar cada uma
A grande maioria do volume global de stablecoins é denominada em dólar. USDT (Tether) e USDC (Circle) concentram mais de 90% do mercado. Para o brasileiro, isso cria uma decisão estratégica: manter valor em stablecoin de real ou de dólar?
Se o objetivo é proteger poder de compra em reais e usar os tokens para pagamentos domésticos, stablecoins de BRL fazem mais sentido. Evitam a exposição cambial e simplificam a contabilidade fiscal.
Se o objetivo é dolarizar parte do patrimônio ou acessar protocolos DeFi globais, stablecoins de dólar oferecem mais liquidez e mais opções. A maioria dos pools de liquidez em DeFi é denominada em USDC ou USDT, o que limita a utilidade de stablecoins de real nesses ambientes.
A tendência, porém, é de convergência. Protocolos como Aave e Curve já começam a aceitar tokens de moedas locais, e a expansão dos mercados de câmbio on-chain pode criar pares BRL/USD diretamente em blockchains, eliminando a necessidade de escolher um lado.
O que esperar desse mercado nos próximos meses
O crescimento das stablecoins de real está diretamente ligado a três fatores: regulação, adoção corporativa e infraestrutura. A regulação avança com o marco legal cripto e as diretrizes do Banco Central. A adoção corporativa cresce à medida que empresas descobrem que transferências via blockchain são mais rápidas e baratas que TEDs e DOCs. E a infraestrutura melhora com novas blockchains de alta performance reduzindo custos de transação.
O caso da Venezuela, onde stablecoins se tornaram a principal ferramenta para contornar sanções e preservar valor em uma economia destruída pela hiperinflação, é um lembrete de que essa tecnologia resolve problemas reais. No Brasil, o contexto é diferente, mas a utilidade prática é igualmente concreta: qualquer negócio que faça pagamentos internacionais, receba de clientes no exterior ou queira operar em DeFi precisa entender como stablecoins funcionam.
Com mais de dez opções disponíveis, o desafio do investidor brasileiro não é mais encontrar uma stablecoin de real. É escolher a certa.