Criptomoedas

Cuba dolariza na informalidade e vira caso de estudo cripto

Cuba vive uma dolarização de fato, sem política oficial. Entenda como stablecoins e o mercado paralelo estão substituindo o peso cubano no cotidiano da ilha.

Cuba dolariza na informalidade e vira caso de estudo cripto
Foto: Mike The Fabrica / Unsplash

Cuba não anunciou nenhuma reforma cambial. Não houve decreto, coletiva de imprensa ou pacote econômico. Ainda assim, o peso cubano está sendo abandonado na prática por boa parte da população. A dolarização que avança na ilha é orgânica, desordenada e profundamente reveladora sobre o futuro monetário de economias frágeis.

Reportagens recentes do NeoFeed e de veículos internacionais mostram que o dólar americano, tanto em espécie quanto em formato digital via stablecoins, se tornou a moeda de referência para transações cotidianas em Havana e outras cidades. O câmbio oficial, fixado pelo governo em 24 pesos por dólar, é ignorado. No mercado paralelo, a cotação ultrapassa 300 pesos por dólar, uma diferença de mais de 1.100%.

Por que o peso cubano perdeu a confiança da população

A chamada “tarefa de ordenamento”, reforma monetária de 2021 que unificou as duas moedas cubanas (CUP e CUC), gerou uma espiral inflacionária que o governo nunca conseguiu controlar. A inflação acumulada entre 2021 e 2025 superou 400%, segundo estimativas de economistas independentes da ilha.

Na prática, o peso cubano deixou de funcionar como reserva de valor. Comerciantes ajustam preços diariamente ao câmbio paralelo do dólar. Quem recebe remessas do exterior, estimadas em mais de US$ 3 bilhões por ano, prefere manter os dólares a convertê-los. O resultado é uma economia bimonetária onde o peso serve apenas para transações burocráticas com o Estado.

Esse fenômeno não é exclusivo de Cuba. Como analisamos em nossa cobertura de notícias internacionais, a Venezuela passou por processo semelhante a partir de 2019, quando o bolívar se tornou praticamente irrelevante no comércio de rua.

Stablecoins como infraestrutura monetária alternativa

O elemento novo no caso cubano é o papel das stablecoins. Com acesso limitado a bancos internacionais por conta do embargo americano, cubanos encontraram em tokens como USDT (Tether) uma via de transferência de valor que contorna o sistema financeiro tradicional.

Plataformas peer-to-peer de criptomoedas registram volumes crescentes na ilha. A dinâmica é simples: um cubano em Miami compra USDT, envia para um familiar em Havana via carteira digital, e este converte localmente em pesos ou, cada vez mais, usa diretamente o saldo digital para pagar comerciantes que aceitam cripto.

Segundo dados da Chainalysis, Cuba está entre os países caribenhos com maior crescimento percentual de adoção cripto entre 2023 e 2025, embora os volumes absolutos sejam modestos se comparados a mercados como Brasil ou Argentina. O ponto importante não é o tamanho, mas o motivo: as stablecoins não são investimento especulativo ali. São infraestrutura básica de pagamentos.

A análise da Blockworks sobre como as sanções à Venezuela validaram o modelo de stablecoins reforça essa tese. Quando o sistema financeiro convencional falha ou é bloqueado, ativos digitais atrelados ao dólar preenchem o vácuo.

O que Cuba ensina sobre dolarização espontânea

Economistas costumam debater dolarização como política deliberada, como fez o Equador em 2000 ou como a Argentina de Milei tentou implementar. Mas Cuba mostra que o processo pode acontecer sem nenhuma decisão estatal, simplesmente pela perda de confiança na moeda local.

Esse tipo de dolarização espontânea traz desafios específicos. O governo perde controle sobre política monetária, mas sem ganhar os benefícios de uma dolarização formal, como estabilidade regulatória e acesso a crédito internacional. É o pior dos dois mundos institucional: moeda descontrolada e nenhuma integração com o sistema financeiro global.

Para investidores e analistas de mercado, o caso cubano tem implicações mais amplas. Ele demonstra que stablecoins estão se consolidando como a “dolarização dos excluídos”, uma camada de acesso ao dólar para populações sem conta bancária internacional, sem passaporte aceito em exchanges reguladas e sem proteção estatal.

O mapa da dolarização informal na América Latina

Cuba se junta a uma lista crescente. Venezuela, com o bolívar destruído, já opera majoritariamente em dólares e stablecoins. A Argentina, apesar do câmbio oficial mais próximo do paralelo sob Milei, mantém um mercado robusto de USDT para remessas e poupança. O Brasil, embora com uma moeda mais estável, também viu o volume de stablecoins crescer consistentemente, especialmente para operações de comércio exterior de pequenas empresas.

Segundo relatório do Banco de Compensações Internacionais (BIS) de março de 2026, cerca de 15% das remessas para a América Latina já passam por algum trilho cripto antes de chegar ao destinatário final. Em 2021, esse número era inferior a 2%.

A tendência preocupa bancos centrais da região, incluindo o BCB. Se stablecoins substituem moedas locais em transações reais, a eficácia da política monetária diminui. É exatamente o alerta que o Banco da Inglaterra fez esta semana sobre riscos de corrida bancária ligados a stablecoins, mas com uma diferença crucial: na América Latina, o risco não é hipotético. Já está acontecendo.

E daí para quem investe?

O caso cubano reforça uma tese de investimento que ganha corpo em 2026: stablecoins são, possivelmente, o caso de uso mais concreto e escalável do ecossistema cripto. Não é DeFi sofisticado, não é NFT artístico, não é metaverso. É simplesmente acesso ao dólar digital para quem precisa.

Emissores de stablecoins como Tether e Circle se beneficiam diretamente. Protocolos de pagamento construídos sobre essas moedas, incluindo iniciativas de PayPal e Google discutidas esta semana no Consensus Miami, miram exatamente esse público. O mercado endereçável não são traders de Chicago. São 600 milhões de latino-americanos tentando preservar poder de compra.

Compartilhar
Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
Continue scrollando para a próxima matéria…