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Sequestros com cripto usam amadores recrutados online

Relatório da CertiK revela que grupos criminosos estão usando redes sociais para recrutar executores sem experiência em crimes envolvendo cripto.

Sequestros com cripto usam amadores recrutados online
Foto: Lucas Andrade / Unsplash

O aumento de sequestros e extorsões envolvendo detentores de criptomoedas ganhou um componente novo e perturbador. Segundo relatório publicado pela CertiK, empresa de segurança blockchain, grupos criminosos estão recrutando executores amadores diretamente pela internet, usando plataformas como Telegram e até anúncios em fóruns da dark web. A dinâmica transforma crimes violentos em operações quase terceirizadas.

O padrão identificado pela CertiK é simples e eficiente. Um grupo organizado identifica alvos com patrimônio relevante em criptomoedas, geralmente através de dados vazados de exchanges, atividade pública em redes sociais ou rastreamento de carteiras on-chain. Em seguida, recruta indivíduos sem ficha criminal para executar a abordagem física, oferecendo pagamento em cripto.

Como funciona o recrutamento de amadores para crimes com cripto

A lógica por trás do uso de amadores é operacional. Pessoas sem antecedentes criminais são mais difíceis de rastrear por forças policiais. Não aparecem em bancos de dados de inteligência. Não têm vínculos conhecidos com facções ou grupos organizados tradicionais. Para o mandante, isso reduz significativamente o risco de ser conectado ao crime.

O relatório da CertiK detalha casos em que anúncios buscando “trabalhadores para serviço presencial” foram postados em canais de Telegram com milhares de membros. Os valores oferecidos variam entre US$ 5.000 e US$ 20.000 em criptomoedas, pagos após a conclusão do “trabalho”. Em alguns casos, os recrutadores fornecem até roteiros de abordagem e instruções sobre como forçar a transferência de ativos digitais.

O fenômeno não se limita a um país específico. A CertiK identificou casos nos Estados Unidos, Reino Unido, França e Brasil. No caso brasileiro, o problema se agrava pela combinação de alta adoção de criptomoedas com índices elevados de criminalidade urbana. Como temos acompanhado na cobertura do setor cripto, o Brasil é um dos maiores mercados de ativos digitais do mundo, o que naturalmente atrai atenção criminal.

O STJ debate crimes com criptomoedas na França

A preocupação com a criminalidade associada a criptomoedas ganhou dimensão institucional. Na mesma semana em que o relatório da CertiK foi divulgado, representantes do Superior Tribunal de Justiça do Brasil participaram de um simpósio organizado pela Interpol em Lyon, na França, dedicado especificamente a crimes envolvendo ativos digitais.

O evento reuniu autoridades de mais de 40 países para discutir protocolos de cooperação internacional no rastreamento de fundos em blockchain, técnicas de investigação adaptadas a carteiras descentralizadas e a necessidade de harmonização legislativa entre jurisdições.

No Brasil, a tipificação de crimes envolvendo criptomoedas ainda é incipiente. O avanço regulatório em outros países pressiona o legislador brasileiro a acelerar a definição de marcos legais claros. Atualmente, sequestros com motivação cripto são enquadrados nos mesmos tipos penais de extorsão mediante sequestro, sem distinção quanto ao ativo envolvido.

Por que a transparência da blockchain não impede esses crimes

Um paradoxo central da segurança em criptomoedas é que a blockchain registra todas as transações de forma pública e imutável, mas isso não necessariamente protege as vítimas. Os criminosos utilizam mixers, bridges entre redes diferentes e conversão rápida para stablecoins que são trocadas por moeda fiduciária em exchanges com verificação de identidade frouxa.

A CertiK estima que menos de 15% dos fundos roubados em crimes físicos envolvendo criptomoedas são recuperados. A velocidade de movimentação dos ativos, muitas vezes concluída em minutos após a extorsão, torna o rastreamento extremamente difícil mesmo com ferramentas avançadas de análise on-chain.

Para especialistas em segurança do setor, a solução passa por uma combinação de educação dos detentores de cripto sobre práticas de segurança operacional, melhor cooperação entre exchanges e forças policiais, e desenvolvimento de ferramentas de monitoramento em tempo real que possam congelar fundos em trânsito.

O que detentores de cripto devem considerar

O relatório reforça uma lição que o mercado de criptomoedas ainda não internalizou completamente: segurança digital não substitui segurança física. Ter uma seed phrase bem protegida e usar carteiras frias não impede uma abordagem presencial. A gestão de patrimônio em ativos digitais precisa incorporar práticas de segurança pessoal que vão além da tecnologia.

Entre as recomendações da CertiK estão: não divulgar publicamente posições em criptomoedas, utilizar carteiras com mecanismos de atraso para transferências acima de determinado valor, manter apenas quantias operacionais em carteiras acessíveis rapidamente e considerar a contratação de consultoria de segurança pessoal para patrimônios significativos.

A profissionalização do crime contra detentores de cripto é um sinal de maturidade invertida do mercado. Quanto mais o setor cresce e gera riqueza, mais sofisticados se tornam os vetores de ataque, tanto digitais quanto físicos. Para quem opera nesse ecossistema, ignorar essa realidade não é mais uma opção.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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