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Bear market rally do Bitcoin: o que dizem os dados

Bitcoin se mantém acima dos US$ 80 mil, mas dados on-chain indicam que detentores antigos estão realizando lucro. Entenda o que isso significa.

Bear market rally do Bitcoin: o que dizem os dados
Foto: Tugay Kocatürk / Unsplash

O Bitcoin opera acima de US$ 80 mil pelo terceiro dia consecutivo, acumulando alta de 12% nas últimas duas semanas. A recuperação animou parte do mercado, com altcoins subindo em bloco e o Fear & Greed Index voltando à zona de “ganância”. Mas um alerta da CryptoQuant levanta uma pergunta incômoda: isso é rali de verdade ou apenas um repique dentro de uma tendência de baixa?

Em relatório publicado nesta sexta-feira, a plataforma de análise on-chain classificou o movimento atual como um “bear market rally”, ou seja, uma alta temporária dentro de um ciclo de correção mais amplo. O argumento se apoia em três métricas que merecem atenção.

O que os dados on-chain mostram sobre o Bitcoin

A primeira métrica é o Spent Output Profit Ratio (SOPR), que mede a proporção de moedas vendidas com lucro em relação às vendidas com prejuízo. O SOPR de detentores de longo prazo (aqueles que mantêm Bitcoin há mais de 155 dias) subiu para 1,08. Traduzindo: para cada US$ 1 gasto na compra original, esses investidores estão vendendo por US$ 1,08.

Esse nível não é alarmante por si só. Em topos de ciclo, como novembro de 2024, o SOPR de longo prazo chegou a 3,5. Mas a tendência importa: o indicador vinha de 0,96 (prejuízo líquido) há apenas três semanas. A reversão rápida sugere que detentores antigos estão aproveitando a recuperação para desfazer posições.

A segunda métrica é a Realized Profit, que mede o volume total de lucro realizado na rede Bitcoin. Segundo a CryptoQuant, o indicador saltou para US$ 1,2 bilhão por dia, o maior nível desde março. Em ciclos anteriores, picos de realização de lucro durante recuperações costumaram preceder novas quedas.

Por que faz diferença saber quem está vendendo

Nem toda venda é igual no mercado de Bitcoin. Quando investidores de curto prazo vendem, o impacto costuma ser limitado. Eles operam com volumes menores e suas decisões refletem movimentos de preço recentes. Quando detentores de longo prazo vendem, o sinal é mais relevante: são investidores que atravessaram ciclos inteiros e tendem a agir com base em convicção, não em emoção.

Os dados da CryptoQuant mostram que o volume de Bitcoin movimentado por carteiras com idade superior a um ano aumentou 34% na última semana. Esse comportamento é consistente com o que análises anteriores sobre ciclos de mercado já documentaram: veteranos distribuem posições durante repiques, enquanto novatos compram com atraso.

A terceira métrica que sustenta a tese de bear market rally é o Exchange Netflow. O fluxo líquido de Bitcoin para exchanges voltou a ficar positivo em US$ 4.200 BTC na última semana. Quando investidores enviam moedas para exchanges, a interpretação padrão é que estão se preparando para vender.

Mas o cenário macro não está favorável ao Bitcoin?

Sim, e esse é o ponto que torna a análise mais complexa. O payroll forte nos EUA, a expectativa de cortes de juros e o rali de Wall Street deveriam, em tese, beneficiar ativos de risco. E beneficiam: as altcoins subiram entre 5% e 15% nas últimas 48 horas, com destaque para Ethereum (+8,4%) e Solana (+11,2%).

O próprio Bitcoin respondeu ao ambiente macro. A correlação de 30 dias entre BTC e o Nasdaq está em 0,72, uma das mais altas do ano. Isso significa que o Bitcoin está surfando a mesma onda de otimismo que levou as bolsas americanas a recordes.

O problema é que correlação alta funciona nos dois sentidos. Se o humor em Wall Street mudar por causa de um dado de inflação ruim ou um evento geopolítico, o Bitcoin tende a corrigir junto. E os dados on-chain sugerem que os investidores mais experientes estão usando justamente esse momento de otimismo para reduzir exposição.

O que diferencia um bear market rally de uma retomada real

Em ciclos anteriores, retomadas sustentáveis do Bitcoin compartilharam características específicas. A mais importante é a acumulação consistente por detentores de longo prazo, e não a distribuição. No fundo do bear market de 2022, por exemplo, o indicador de acumulação ficou positivo por quatro meses consecutivos antes da reversão de tendência.

Outra marca de retomadas reais é a contração do supply nas exchanges. Em 2023, o saldo de Bitcoin em exchanges caiu de 2,4 milhões para 2,1 milhões de BTC nos seis meses que antecederam a alta. Agora, o saldo está estável em 2,3 milhões, com leve tendência de alta.

Como o mercado financeiro tradicional também demonstra, dados de sentimento podem mudar rapidamente. O Fear & Greed Index em “ganância” é um indicador contrário clássico: quando todos estão otimistas, geralmente é hora de cautela.

O que o investidor deveria observar agora

A análise da CryptoQuant não é uma previsão de queda. É um mapeamento de risco. Os dados apontam que o rali atual tem características mais compatíveis com um repique técnico do que com o início de uma nova pernada de alta.

Para quem já tem posição em Bitcoin, o momento pede monitoramento das métricas on-chain, especialmente SOPR e Exchange Netflow. Se a realização de lucro desacelerar e o fluxo para exchanges reverter, o cenário melhora. Se ambos continuarem subindo enquanto o preço estagna, a probabilidade de nova correção aumenta.

Vale lembrar que mesmo bear market rallies podem durar semanas e gerar retornos expressivos. Em julho de 2022, o Bitcoin subiu 28% em três semanas antes de devolver toda a alta. O padrão histórico não determina o futuro, mas oferece um mapa de probabilidades que investidores quantitativos como a Jane Street usam diariamente para calibrar risco.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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