Resumo
- 👉 O bitcoin superou momentaneamente os US$ 108.000 após o alívio nas tensões entre Irã, EUA e Israel;
- 👉 Durante o fim de semana do conflito, foi o único ativo com liquidez global em tempo real, absorvendo e revertendo a pressão vendedora com agilidade;
- 👉 A recuperação rápida reforça o papel do bitcoin como ativo de liquidez e sua crescente maturidade como referência monetária;
- 👉 Mais de US$ 200 milhões em posições compradas foram liquidadas, mas o mercado reagiu com força, sinalizando resiliência;
- 👉 Apesar da alta, os dados on-chain mostram enfraquecimento da demanda real, especialmente nos volumes de movimentação e capitalização realizada;
- 👉 A atividade on-chain caiu de forma semelhante a períodos que antecederam correções recentes, como em janeiro e abril;
- 👉 A demanda aparente recuou, com varejo atingindo mínima desde janeiro e baleias mantendo reservas estáveis desde o fim de maio;
- 👉 Essa postura mais cautelosa de todos os perfis de investidores aponta para um cenário de “modo espera” generalizado;
- 👉 O descompasso entre a ação de preço e os fundamentos on-chain sugere que a alta pode não ser sustentável sem retomada de demanda;
- 👉 Uma estratégia adequada neste momento é manter alocações de longo prazo, evitar entradas oportunistas e aguardar melhora nos fundamentos antes de novos aportes.
Introdução
Nos últimos dias, o bitcoin apresentou um movimento de recuperação relevante, superando momentaneamente a marca dos US$ 108.000 em meio ao alívio das tensões geopolíticas. Apesar da força demonstrada no preço, os dados on-chain revelam uma dinâmica mais contida do lado da demanda, com sinais de enfraquecimento tanto no varejo quanto entre investidores institucionais.
Neste relatório, analisamos esse descompasso entre preço e fundamentos para orientar o posicionamento estratégico neste momento do ciclo.
Vamos lá!
Cessar-fogo gera recuperação em “V”
O bitcoin mostrou mais uma vez por que é um ativo singular no ecossistema financeiro global. Em um fim de semana marcado por forte tensão geopolítica entre Irã, Estados Unidos e Israel, o mercado cripto foi o único com liquidez ininterrupta, permitindo aos participantes globais uma resposta em tempo real ao risco.
Enquanto os mercados tradicionais estavam fechados, o bitcoin absorveu o impacto inicial, caiu com a escalada do conflito e, em menos de 24 horas, recuperou completamente suas perdas.
Na madrugada de sábado para domingo, os Estados Unidos lançaram ataques direcionados a instalações nucleares iranianas. Inicialmente, o bitcoin subiu com a notícia, refletindo sua natureza de ativo líquido e sempre disponível. No entanto, quando veio a resposta iraniana, o preço caiu 4,5%, atingindo US$ 98.000. Não se tratava de aversão ao risco, mas sim da busca por liquidez num momento em que nenhuma outra classe de ativos permitia negociação.
O que se seguiu foi uma recuperação rápida. Antes da abertura dos mercados asiáticos, o bitcoin já havia retornado ao patamar de US$ 102.000. E com o anúncio do presidente dos EUA descartando novas retaliações, o preço avançou para US$ 105.000, encerrando o episódio geopolítico mais forte do mês em alta.
Esse comportamento reforça a mudança de perfil do bitcoin, que aos poucos deixa de ser um ativo de alto risco para se consolidar como bem monetário de referência, algo que já citamos anteriormente aqui no BTPRO.
Mais de US$ 200 milhões em posições compradas foram liquidadas durante a queda total, e o volume de “shorts” triplicou em relação às posições compradas. Ainda assim, o mercado absorveu a pressão vendedora com agilidade.
O padrão observado não é novo: o bitcoin foi o primeiro a cair e o primeiro a se recuperar durante o choque da COVID-19 em 2020. O mesmo ocorreu após o colapso do SVB em 2023. Em momentos de estresse extremo, o mercado recorre ao ativo que está sempre aberto, que possui profundidade e que oferece liquidez real: o bitcoin.
A diferença agora é o estágio de maturidade. O bitcoin já é o sexto maior ativo do mundo, com uma capitalização de mercado superior a US$ 2 trilhões. Supera nomes como Google, Meta e Saudi Aramco. E mesmo com essa escala, continua funcionando fora dos horários tradicionais, sem depender de bancos centrais ou instituições financeiras para intermediar sua negociação.
O paralelo com o ouro na Guerra do Iraque é interessante de se fazer neste contexto. Conflitos armados são, invariavelmente, inflacionários. Requerem emissão monetária, expansão fiscal e políticas flexíveis que corroem o poder de compra das moedas fiduciárias. Nesse contexto, o bitcoin atua como proteção.
O episódio do fim de semana reforça essa tese, mesmo sem uma guerra declarada. O mundo já opera com déficits permanentes e dívida insustentável. A busca por ativos que expressem esse desgaste monetário está em curso, e o bitcoin lidera essa transição.
O movimento de recuperação visto nesse fim de semana não deve ser lido isoladamente. Ele representa mais um avanço incremental no processo de transformação do bitcoin. Ainda que o ativo esteja, tecnicamente, dentro de uma tendência de baixa desde a máxima histórica de maio, e o verão possa trazer volatilidade e lateralização, o comportamento estrutural está claro.
O bitcoin está cada vez mais assumindo o papel de âncora monetária, especialmente em tempos de crise. E com cada novo episódio de estresse, ele se aproxima alguns milímetros a mais do papel que lhe cabe no sistema financeiro global: o de ser o ativo de reserva definitivo em um mundo que perdeu o controle fiscal.
Atividade on-chain em queda e fraca demanda indicam cautela
O recente movimento de recuperação do bitcoin, que chegou a ultrapassar momentaneamente os US$ 108.000, trouxe alívio ao mercado após semanas de consolidação e incerteza. No entanto, ao observarmos os fundamentos on-chain, ainda há um componente importante em falta: a demanda real de investidores dentro da rede permanece enfraquecida.
O primeiro sinal dessa fraqueza vem do volume de negociações on-chain, que apresentou uma queda expressiva ao longo dos últimos 30 dias. Esse comportamento já foi observado em outros momentos recentes, como em janeiro e abril, períodos que antecederam movimentos corretivos mais significativos no preço. Como reflexo direto da atividade dos participantes da rede, a queda no volume de movimentações sugere um enfraquecimento na base de suporte do mercado.
Essa redução de atividade também se reflete no ritmo de crescimento da capitalização realizada, uma métrica que representa o valor total que foi efetivamente movimentado na blockchain e que serve como termômetro para o fluxo de capital dentro do bitcoin. Embora essa métrica ainda esteja em tendência de alta, o ritmo desse crescimento vem desacelerando, sinalizando menor intensidade de entrada de capital novo na rede.
Outro ponto importante é a queda visível na chamada demanda on-chain aparente. Essa métrica avalia o volume de endereços ativos e de novas entidades interagindo com a rede, servindo como proxy para o interesse de investidores em realizar movimentações. Quando essa demanda diminui, geralmente reflete momentos de maior cautela ou aversão ao risco, que podem impactar negativamente a estrutura de preços nas semanas seguintes.
O enfraquecimento da demanda é perceptível tanto entre investidores de varejo quanto institucionais. No caso do varejo, o nível de atividade on-chain atingiu mínimas não vistas desde janeiro, indicando que investidores menores estão menos engajados no processo de acumulação neste momento. Já no campo institucional, apesar de o ano de 2025 como um todo ter registrado entradas expressivas de capital, as reservas de grandes carteiras — as chamadas “baleias” — estão lateralizadas desde o fim de maio.
Esse comportamento das baleias indica uma postura de espera. Ainda que não tenhamos visto grandes fluxos de venda, o fato de não haver acumulações relevantes nas últimas semanas sugere que esses players estão cautelosos. O cenário geopolítico recente pode ter incentivado uma pausa estratégica por parte dessas entidades, que aguardam maior clareza sobre os desdobramentos de médio prazo antes de aumentarem suas posições.
Por ora, essa ausência de tração nos fundamentos on-chain permanece como o principal ponto de divergência em relação ao recente movimento positivo nos preços. Monitorar quando essa atividade voltará a crescer será crucial para confirmar a sustentabilidade da alta.
Ainda assim, é importante ressaltar que essas análises refletem uma perspectiva de curto prazo. No horizonte mais amplo, seguimos construtivos em relação ao ciclo atual do bitcoin. Com fundamentos estruturais sólidos e crescente institucionalização do ativo, ainda há espaço para avanços relevantes antes de um movimento de correção mais profundo.
Conclusões
Diante desse cenário, nossa leitura estratégica permanece construtiva, porém com viés de cautela no curto prazo. A resiliência demonstrada pelo bitcoin diante de um dos episódios geopolíticos mais sensíveis do ano reforça sua maturidade como ativo global de liquidez e reserva. Esse tipo de comportamento reforça nossa convicção na tese estrutural de valorização ao longo do ciclo atual.
No entanto, a fraqueza nos fundamentos on-chain, especialmente a retração na demanda real tanto de varejo quanto de instituições, sugere que ainda não há uma base sólida o suficiente para sustentar movimentos de alta mais duradouros sem risco de correções intermediárias. Isso não invalida o ciclo, mas exige um olhar mais seletivo na hora de aumentar exposição.
Neste momento, entendemos que o melhor posicionamento é manter alocações estratégicas de longo prazo intactas, evitando desmontagens precipitadas, mas também sem antecipar entradas adicionais relevantes enquanto os sinais de retomada da demanda on-chain não se confirmarem. Para investidores com perfil mais tático, o cenário atual favorece abordagens mais defensivas, priorizando gestão de risco e evitando captura de preço em topos locais.
Seguiremos monitorando de perto a evolução das métricas de fluxo e atividade na rede. A confirmação de retomada no apetite institucional e no engajamento de participantes de varejo pode abrir espaço para novas entradas, com melhor relação risco-retorno. Até lá, o foco está em preservar capital, respeitar a estrutura técnica do mercado e estar preparado para agir quando os fundamentos voltarem a caminhar em direção ao preço.
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