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Bitcoin torna a guerra impagável

Apesar do ruído geopolítico e constante incerteza sobre tensões no oriente médio, bitcoin permanece respondendo ao crescimento da liquidez e inflação monetária, algo que não será diferente desta vez.

Resumo

  • 👉 A principal força que impulsiona o preço do Bitcoin é a liquidez global, respondendo por cerca de 41% da variação explicada em sua trajetória histórica;
  • 👉 Métricas tradicionais como M2 não capturam a dinâmica real de criação de crédito e liquidez usada nos mercados, sendo menos eficazes na previsão do preço do Bitcoin;
  • 👉 A liquidez de sistema, medida pela capacidade de alavancagem sobre ativos colateralizados, é mais relevante do que a simples base monetária;
  • 👉 Eventos geopolíticos geram quedas no curto prazo, mas o Bitcoin tende a se recuperar rapidamente, superando ouro, ações e títulos nos 60 a 100 dias seguintes;
  • 👉 O Bitcoin opera como um sistema monetário que dificulta o financiamento de guerras, já que não pode ser inflacionado nem manipulado politicamente;
  • 👉 A teoria dos jogos aplicada ao Bitcoin sugere que a cooperação entre participantes é mais vantajosa do que o conflito, reduzindo incentivos estruturais para guerra;
  • 👉 O comportamento do preço do Bitcoin no ciclo atual é altamente similar aos ciclos anteriores, tanto ao alinhar os topos quanto os fundos de mercado;
  • 👉 Ainda há espaço para valorização no ciclo atual, mas os dados indicam que estamos entrando na fase final de alta, marcada por euforia e risco elevado;
  • 👉 A resiliência do Bitcoin diante de choques e a consistência de seus ciclos reforçam sua posição como um ativo que prospera na ausência de estabilidade política;
  • 👉 A narrativa evolui e os fatores de curto prazo mudam, mas os ciclos do Bitcoin continuam obedecendo às mesmas estruturas de liquidez e psicologia de mercado.

Introdução

À medida que o Bitcoin amadurece, seu comportamento revela padrões que transcendem o imediatismo das manchetes. Embora reaja com volatilidade a eventos geopolíticos, é a liquidez global que continua ditando os ciclos de longo prazo.

Guerras, crises e tensões diplomáticas geram ruído, mas não são elas que constroem os fundamentos de alta. O que realmente move o Bitcoin é o crédito disponível, a alavancagem no sistema financeiro e o apetite por risco que emerge quando o capital flui com menos restrição.

Olhando sob essa lente, o ciclo atual do Bitcoin não é tão diferente dos anteriores. O pano de fundo mudou, mas a mecânica permanece. Ainda estamos no mesmo jogo, e as regras, apesar da sofisticação narrativa, continuam obedecendo à velha lei dos ciclos e é sobre isso que iremos abordar no relatório de hoje.

Vamos lá!

 

Bitcoin é a revolução pacífica

Durante séculos, o financiamento de guerras exigiu mais do que exércitos e armas — exigiu impressão de dinheiro. Desde os impérios europeus até as guerras modernas dos EUA, governos recorreram à criação monetária para sustentar longos conflitos que não seriam politicamente ou fiscalmente viáveis com impostos. O gráfico de gastos militares dos EUA mostra isso com clareza: após cada ciclo de guerra, a curva não volta ao ponto de origem. A escalada se perpetua, sustentada por déficits e expansão da base monetária.

Bitcoin torna a guerra impagável

No padrão ouro, guerras tinham custo real e finito. Com o colapso de Bretton Woods em 1971 e o advento do sistema fiduciário global, o custo se tornou “infinanciável, mas possível” — via inflação.

Bitcoin nasce com uma proposta radicalmente diferente: um sistema monetário inelástico, imune à manipulação política. Seu fornecimento fixo de 21 milhões de moedas significa que não há como “imprimir BTC” para financiar guerras, resgatar bancos, ou expandir programas militares. Mais ainda, por ser um sistema descentralizado, não há banco central a ser capturado nem governo que possa sequestrar seu funcionamento.

O efeito prático? Torna guerras impagáveis. Um governo que precisa gastar mais do que arrecada não pode recorrer ao “colchão inflacionário”. Deve cortar gastos, buscar consenso ou, simplesmente, não guerrear.

Num sistema monetário onde não se pode inflacionar, a lógica estratégica muda. Bitcoin impõe um novo jogo: cada ator (pessoa, empresa ou país) tem mais a ganhar colaborando do que sabotando. Ataques (sejam militares ou econômicos) contra o sistema tendem a ser autodestrutivos, pois quem detém Bitcoin tem interesse direto na sua preservação.

É o exemplo clássico da teoria dos jogos: o equilíbrio de Nash aqui é a cooperação sobre o conflito.

Analisando os principais eventos geopolíticos dos últimos anos — como a invasão da Ucrânia, a crise bancária de 2023, a pandemia de COVID e as tensões recentes entre Irã e Israel — o padrão é claro: Bitcoin é volátil no curto prazo, por ser negociado 24/7, mas é o ativo que mais se recupera depois que o choque se acomoda.

Bitcoin torna a guerra impagável

Nos 100 dias após os eventos listados, Bitcoin superou ouro, ações e títulos em quase todos os cenários. Isso reforça sua tese: Bitcoin não depende de estabilidade política. Ao contrário, cresce na ausência dela.

Bitcoin representa mais que uma inovação tecnológica. Ele é um freio estrutural à escalada militar baseada em dívidas. Num mundo onde governos perdem o poder de inflacionar sua moeda para financiar conflitos, o incentivo muda — da imposição para a negociação.

O sistema não pode ser inflado. A guerra não pode ser monetizada. A cooperação, por outro lado, se torna mais lucrativa.

A verdadeira revolução do Bitcoin não está no preço, mas no redesenho dos incentivos globais. Uma revolução silenciosa, pacífica — e, ao que tudo indica, inevitável.

 

Liquidez continua sendo o principal driver, não eventos geopolíticos

Ao longo da última década, o preço do Bitcoin se mostrou tudo, menos aleatório. Dados semanais revelam que três vetores macroeconômicos explicam de forma estatisticamente significativa sua trajetória: liquidez global, apetite ao risco e variáveis ligadas ao ouro. Dentre esses, a liquidez global se destaca como o principal motor, respondendo por cerca de 41% da variância explicada. Isso significa que o Bitcoin atua muito mais como um termômetro das condições financeiras mundiais do que como simples reflexo da base monetária.

Durante muito tempo, investidores confiaram em métricas como o M2, que mede a soma de moeda em circulação e depósitos bancários, para avaliar o impacto da política monetária. No entanto, o M2 é essencialmente um retrato do sistema bancário de varejo. Ele não captura dinâmicas críticas da criação de liquidez moderna: como o papel das instituições não bancárias (shadow banks), dos mercados de recompra (repo), e da alavancagem sobre colaterais.

O economista Henry Kaufman já alertava: “money matters, but credit counts.” Ou seja, a chave está no lado dos ativos, e mais especificamente, nos ativos colateralizados que sustentam a alavancagem do sistema.

Michael Howell, autor de “Capital Wars”, propõe uma definição de liquidez global que vai além das métricas tradicionais. Ela considera:

  • A capacidade de balanço dos intermediários financeiros, não apenas a base monetária emitida por bancos centrais.
  • O papel dos ativos colateralizáveis como motor de expansão de crédito.
  • Uma perspectiva global, incorporando os efeitos de instituições como o PBoC (Banco Central da China), ECB e mercados paralelos.

Bitcoin torna a guerra impagável

É uma liquidez “wholesale”, que responde à capacidade de alavancagem sobre ativos seguros. E é por isso que seu tamanho hoje (US$ 180 trilhões) supera largamente o M2 global (US$ 110 trilhões). Em ciclos anteriores, essa diferença chegou a ser de 2,5x, e atualmente está na casa dos US$ 70 trilhões.

Embora M2 e Liquidez Global apresentem correlação de longo prazo, seus ciclos se desalinham no curto prazo. A explicação está no fato de que o M2 reage lentamente às mudanças, enquanto a Liquidez Global responde diretamente à alocação de crédito, à expansão de colateral e aos fluxos entre países.

Bitcoin torna a guerra impagável

Em termos técnicos, o beta entre o crescimento do M2 e da liquidez global é de apenas 0,286. Isso mostra que a volatilidade do M2 é bem menor, e portanto, menos responsiva do que a liquidez efetivamente usada em mercados.

A prova mais robusta vem dos testes preditivos. Em um exercício de previsão de 13 semanas, com janelas suavizadas de 6 semanas:

  • O crescimento do M2 apresentou alguma relação com o preço futuro do Bitcoin, mas com baixa robustez estatística.
  • Já a variação na Liquidez Global mostrou uma correlação significativamente mais forte e estável. Além disso, o multiplicador de impacto sobre o Bitcoin foi maior.

E mais importante: nos testes de causalidade (Granger), Liquidez Global não só antecede os movimentos do Bitcoin e do ouro, como também precede o próprio M2. Ou seja, a liquidez “real” do sistema financeiro é a origem dos ciclos, não seu reflexo.

Eventos geopolíticos como guerras, atentados ou instabilidades diplomáticas tendem a gerar impactos emocionais imediatos nos mercados. Naturalmente, o Bitcoin, como ativo líquido e negociado 24/7, também responde a esses choques, muitas vezes com quedas fortes.

No entanto, a história recente mostra que essas correções costumam ser breves. Nossos estudos que analisam o desempenho do Bitcoin após eventos como a invasão da Ucrânia (2022), tensões entre China e EUA (2019), e até conflitos no Oriente Médio revela que o ativo geralmente sofre no curto prazo, mas se recupera rapidamente, e geralmente com mais força do que o ouro.

Bitcoin torna a guerra impagável

Portanto, embora tensões como a atual guerra entre Irã e Israel causem inquietação, sua influência sobre o preço do Bitcoin é tipicamente limitada no tempo. O que realmente define a direção estrutural do ativo é a liquidez global: quando há expansão de crédito e confiança no sistema, o Bitcoin se valoriza, algo que poderemos continuar vendo nos próximos meses.

Existe uma relação de longo prazo entre Bitcoin e ouro. Ambos funcionam como ativos monetários, buscando proteger contra a degradação do valor fiduciário. Mas enquanto o ouro é um ativo mais estável, com resposta lenta e previsível, o Bitcoin é mais sensível às inovações de liquidez, especialmente aquelas ligadas a colateral.

A explicação está num mecanismo conhecido como erro-feedback: os fundamentos de um ativo (liquidez, fluxo, adoção) afetam as expectativas de preço, e essas expectativas retroalimentam os fundamentos. Isso faz com que Bitcoin e ouro andem juntos no longo prazo, mas se desliguem no curto prazo.

O comportamento do Bitcoin está profundamente enraizado nas condições de liquidez global. Mas não basta olhar para os balanços dos bancos centrais ou para os agregados monetários. É preciso acompanhar os vetores de expansão de crédito real:

  • Alavancagem via colateral
  • Crescimento dos mercados de repos e crédito privado
  • Capacidade de expansão dos shadow banks e fundos de crédito
  • Política de estímulo dos principais bancos centrais do mundo

O Bitcoin, nesse contexto, é mais sensível às condições de liquidez sistemáticas do que a qualquer métrica monetária tradicional. E é por isso que, quando o sistema injeta crédito, o BTC tende a subir com força.

Em tempos de contração, por outro lado, sua performance pode sofrer, mesmo com expansão nominal do M2. O segredo está no que realmente está “fluindo”, e não apenas no que foi “impresso”. Por fim, em meio ao barulho geopolítico, vale lembrar: conflitos geram volatilidade, mas os ciclos são comandados pela liquidez.

 

Conclusões

Apesar da sensação de estarmos vivendo um ciclo totalmente novo no Bitcoin, com ETFs, adoção institucional e um cenário macro distinto, os dados históricos mostram que ainda estamos dentro de um padrão cíclico muito familiar. Quando comparamos a performance atual com os ciclos anteriores, tanto a partir dos topos quanto dos fundos, o que se vê é uma impressionante semelhança.

Bitcoin torna a guerra impagável

O ritmo de recuperação, os períodos de consolidação e a aceleração recente seguem quase como um espelho do que já ocorreu entre 2015–2018 e 2018–2022. Tanto quando observamos no início deste ciclo de alta marcado pelo colapso da FTX, quanto pelo topo do último bull market.

Bitcoin torna a guerra impagável

Esse comportamento repetitivo nos indica duas coisas: ainda há espaço para crescimento, mas esse espaço está diminuindo. O Bitcoin parece já ter entrado na fase final do ciclo de alta, uma etapa tipicamente marcada por movimentos parabólicos, euforia generalizada e aumento do interesse midiático.

O pano de fundo geopolítico, por mais caótico que pareça, reforça a resiliência estrutural do Bitcoin. A análise de diversos eventos recentes, como pandemias, crises bancárias e conflitos militares, mostra que o BTC tende a reagir de forma mais volátil no curto prazo, mas supera sistematicamente os ativos tradicionais (ouro, ações, títulos) no médio prazo.

Essa força decorre não apenas da sua estrutura monetária imutável, mas também da confiança que o mercado passou a depositar em sua função como hedge contra instabilidade e políticas inflacionárias.

No fim das contas, o Bitcoin pode até ser um ativo novo, mas seus ciclos continuam se comportando da mesma forma. Para o investidor atento, esse é um sinal claro: a oportunidade ainda existe, mas exige disciplina, gestão de risco e clareza de onde estamos no ciclo. Porque, no fim, os fundamentos mudam, a narrativa evolui, mas os ciclos… eles ainda mandam no jogo.

 

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