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China, Japão e EUA: os três pilares da estrutura de liquidez global atual

A dinâmica macroeconômica permanece mista, mas a redução de incertezas favoreceu subida em ativos de risco e o próximo movimento poderá determinar o futuro do ciclo.

Resumo

  • 👉 O Japão iniciou um processo de normalização monetária após décadas de juros zerados, com os JGBs de 30 anos ultrapassando 3% de rendimento;
  • 👉 A inflação japonesa segue acima da meta mesmo com PIB fraco, levando o BoJ a abandonar o controle da curva e reduzir a liquidez global;
  • 👉 A mudança de postura do Japão afeta diretamente o carry trade global, reduzindo o incentivo à alavancagem via iene e pressionando os yields dos Treasuries americanos;
  • 👉 A curva de juros dos EUA apresenta vértices longos acima de 5%, refletindo dificuldades de absorção das emissões e antecipando a necessidade de resposta do Fed;
  • 👉O Fed já desacelerou o QT e discute a realocação de vencimentos para Treasuries, sugerindo um possível retorno à monetização indireta da dívida;
  • 👉 A redução do apetite por Treasuries por parte do Japão aumenta a chance de intervenção futura do Fed, favorecendo ativos como o Bitcoin;
  • 👉 A China, em contrapartida, segue ampliando estímulos monetários e fiscais em meio a um cenário de desaceleração estrutural e baixa inflação;
  • 👉 O corte recente nas taxas LPR e as injeções de liquidez pelo PBoC reforçam a contribuição chinesa para o alívio monetário global;
  • 👉 A estagnação do setor imobiliário e a queda no crédito reforçam o uso de estímulos como ferramenta anticíclica, ainda que os efeitos sejam limitados domesticamente;
  • 👉 A expansão de liquidez na China favorece ativos escassos globalmente, como o Bitcoin, especialmente diante da queda nos retornos reais dos ativos locais;
  • 👉A atividade on-chain do Bitcoin mostra crescimento superior a 80% no volume ajustado nos últimos 30 dias, refletindo maior fluxo de capital na rede;
  • 👉 Mais de US$ 39,6 bilhões entraram no Bitcoin no último mês, medidos pelo aumento da capitalização realizada;
  • 👉 A alta recente no preço do BTC é sustentada por demanda orgânica, liderada por grandes entidades que vêm acumulando de forma consistente desde fevereiro;
  • 👉 A participação de pequenos investidores ainda é limitada, mas começou a crescer nas últimas semanas, sugerindo potencial de continuidade na valorização;
  • 👉 A perspectiva de mais monetização da dívida pública, expansão de balanços e repressão financeira reforça o apelo do Bitcoin como proteção estrutural;

Introdução

A dinâmica dos mercados globais entrou em uma fase de mudança silenciosa, mas crítica. O Japão abandona décadas de repressão financeira e pressiona diretamente os alicerces do sistema de dívida americano. A China, por sua vez, amplia seus estímulos em meio à desaceleração estrutural e contribui com uma nova onda de liquidez global.

Enquanto isso, o Federal Reserve se vê encurralado por rendimentos crescentes e leilões de títulos cada vez mais frágeis. Em meio a esse redesenho das forças monetárias internacionais, um padrão começa a se formar na rede Bitcoin — liderado por grandes players, volume crescente e recomposição institucional. Este relatório conecta esses pontos para antecipar o que pode estar por vir.

Vamos lá!

 

Japão pressiona títulos dos EUA e FED deve responder

A economia japonesa está passando por uma inflexão estrutural após décadas de repressão financeira, juros zerados e deflação. A alta recente no rendimento dos JGBs de 30 anos, que ultrapassou a marca de 3%, reflete não apenas uma normalização monetária gradual, mas também uma resposta às pressões inflacionárias acumuladas desde 2022.

China, Japão e EUA: os três pilares da estrutura de liquidez global atual

A inflação headline e a núcleo permanecem acima da meta de 2% do BoJ, mesmo após a desaceleração recente. Esse processo de reancoragem de expectativas inflacionárias ocorre em um momento em que o crescimento do PIB japonês se mostra frágil e volátil, frequentemente abaixo do potencial estimado.China, Japão e EUA: os três pilares da estrutura de liquidez global atual

O Banco do Japão, por anos um dos pilares do financiamento barato global, iniciou um ciclo de aperto cauteloso, abandonando o controle rígido da curva de juros e permitindo a elevação gradual dos rendimentos de longo prazo. Isso altera significativamente a dinâmica do carry trade, que se baseava na arbitragem de taxas entre o juro japonês (zero ou negativo) e os rendimentos mais altos nos EUA e em economias emergentes. Com o juro japonês deixando de ser estruturalmente nulo, o incentivo à alavancagem global via yen se reduz, impactando a liquidez sistêmica.

Essa mudança coincide com um contexto de estresse nos mercados de títulos americanos. A curva de juros dos Treasuries dos EUA atingiu níveis superiores a 5% nos vértices longos (10y e 30y), evidenciando dificuldade de absorção das emissões por parte do mercado primário.

O Fed, diante disso, já começou a desacelerar o ritmo de aperto quantitativo e discute a realocação de vencimentos de MBS para Treasuries, enquanto o Tesouro busca encurtar a duration das emissões. A monetização parcial da dívida torna-se um caminho provável, ainda que não declarado como tal.China, Japão e EUA: os três pilares da estrutura de liquidez global atual

Essa conjunção de fatores — fim do juro zero no Japão, stress fiscal nos EUA e realocação de liquidez global — pode ser altamente favorável ao Bitcoin. O ativo, por sua natureza escassa e independente de riscos soberanos, tende a se beneficiar de ambientes de reprecificação de dívida, expansão monetária e perda de confiança em moedas fiduciárias. A redução do apetite por Treasuries por parte do Japão, historicamente um dos maiores detentores estrangeiros, amplia a probabilidade de o FED precisar intervir mais diretamente no mercado, o que por sua vez favorece ativos não correlacionados ao sistema tradicional.

Caso o BoJ continue elevando juros e o yen siga pressionado, o Japão poderá inclusive se tornar vendedor líquido de Treasuries para financiar sua própria rolagem doméstica. Esse movimento adicionaria pressão sobre os yields americanos, reforçando o cenário de monetização e, consequentemente, aumentando a atratividade relativa do Bitcoin como proteção contra a dominância fiscal e a repressão financeira que pode emergir como resposta nos EUA.

Monitorar os fluxos entre bancos centrais, as alocações de reservas e os níveis de stress nos leilões do Tesouro americano será essencial para antecipar movimentos estruturais no preço do Bitcoin e no posicionamento dos grandes investidores institucionais.

 

China continua expansão de liquidez e estímulos

A economia chinesa vem enfrentando um processo de desaceleração estrutural marcado por estagnação no setor imobiliário, queda nos indicadores de crédito e inflação persistentemente baixa. Em resposta, as autoridades vêm intensificando estímulos monetários e fiscais, numa tentativa de reverter a perda de dinamismo. Em maio de 2025, o Banco Popular da China (PBoC) cortou novamente suas taxas de empréstimo de referência (LPR), reduzindo a taxa de 1 ano para 3,00% e a de 5 anos para 3,50%, no primeiro corte desde outubro do ano anterior.

China, Japão e EUA: os três pilares da estrutura de liquidez global atual

Os dados de crédito mostram um encolhimento progressivo da intermediação financeira, tanto nos bancos quanto no sistema não bancário, com o total de empréstimos não financeiros caindo para níveis próximos de 20% do PIB. A fragilidade do canal de transmissão do crédito também se reflete na atividade imobiliária, com quedas persistentes nos investimentos e no início de novas construções, consolidando o colapso de um setor que outrora sustentava o crescimento chinês.

China, Japão e EUA: os três pilares da estrutura de liquidez global atual

A inflação de preços segue abaixo de 1% no núcleo, e próxima de zero no índice cheio, refletindo não apenas fraqueza da demanda interna, mas também efeitos deflacionários oriundos da desalavancagem corporativa e do ajuste no setor de shadow banking. Nesse contexto, o PBoC tem intensificado injeções de liquidez no sistema bancário, acompanhadas de medidas para sustentar o consumo e a rolagem da dívida corporativa.

China, Japão e EUA: os três pilares da estrutura de liquidez global atual

Essa postura contrasta diretamente com o movimento dos EUA e do Japão, onde há pressão para normalização monetária. A China, ao seguir na direção oposta, aumenta sua contribuição líquida à liquidez global, especialmente via fluxos de M2 e estímulos direcionados. Isso cria um ambiente favorável ao Bitcoin, que historicamente reage positivamente à expansão monetária coordenada ou isolada, sobretudo quando associada a desvalorização cambial e busca por proteção contra riscos sistêmicos.

Embora o governo chinês mantenha restrições regulatórias severas sobre o uso doméstico de criptoativos, a reabertura indireta via Hong Kong e a crescente internacionalização do yuan criam caminhos alternativos para que o excesso de liquidez gerado internamente impacte os mercados globais. Além disso, o acúmulo de liquidez no sistema global, combinado à queda nos retornos reais dos ativos tradicionais chineses, pode reforçar o apelo de ativos como o Bitcoin para investidores institucionais fora da China continental.

China, Japão e EUA: os três pilares da estrutura de liquidez global atual

A correlação entre as injeções de liquidez do PBoC e os movimentos de preço do Bitcoin já se mostrou significativa em episódios anteriores, como em meados de 2023 e início de 2024. À medida que o volume das injeções volta a crescer, a expectativa é de que parte dessa liquidez pressione os ativos escassos, especialmente em momentos de menor atratividade relativa do crédito privado e do mercado imobiliário chinês.

Monitorar a trajetória da LPR, o comportamento do yuan e os fluxos de liquidez no interbancário chinês será essencial para antecipar potenciais catalisadores de valorização do Bitcoin no atual ciclo macroeconômico.

 

Atividade on-chain permanece aumentando e reforça fundamentos

Apesar de um cenário macroeconômico misto, com o Japão promovendo uma redução de liquidez e a China adotando medidas de estímulo, a atividade na rede Bitcoin mostra sinais consistentes de fortalecimento estrutural. A variação de 30 dias no volume on-chain ajustado mostra um crescimento expressivo, com alta superior a 80%, indicando maior circulação de capital e engajamento de grandes players na rede.

China, Japão e EUA: os três pilares da estrutura de liquidez global atual

 

Esse aumento de atividade tem refletido diretamente na entrada líquida de capital, conforme medido pela capitalização realizada, que saltou mais de US$ 39,6 bilhões nos últimos 30 dias. A elevação no Realized Cap historicamente antecipa movimentos de preço sustentáveis, pois implica que novos participantes estão adquirindo bitcoin a preços crescentes, elevando o custo base da rede.China, Japão e EUA: os três pilares da estrutura de liquidez global atual

Esse movimento explica a alta observada desde abril de 2025, reforçando que a valorização atual não é apenas especulativa, mas sustentada por demanda orgânica crescente. No entanto, ao contrário do ciclo de novembro a dezembro de 2024 — quando pequenos investidores dominaram a atividade —, os dados de acumulação por cohortes revelam que a demanda recente parte majoritariamente de grandes participantes.

China, Japão e EUA: os três pilares da estrutura de liquidez global atual

 

As baleias vêm ampliando suas reservas desde fevereiro, com fluxo de entrada constante e consistente. A tendência de acúmulo só começou a se expandir para investidores menores nas últimas semanas, sinalizando que ainda há espaço para a disseminação desse movimento pela base de investidores de varejo.

China, Japão e EUA: os três pilares da estrutura de liquidez global atual

A leitura estratégica desses dados on-chain aponta para uma recomposição do perfil comprador institucional, que, diante das falhas emergentes do sistema fiduciário global, busca refúgio em ativos escassos. A intensificação das intervenções monetárias, os riscos crescentes no mercado de títulos soberanos e a expectativa de monetização adicional da dívida pública criam um pano de fundo macro cada vez mais favorável ao Bitcoin.

A conjuntura aponta para uma repetição dos mecanismos já observados anteriormente: expansão monetária, desvalorização real do poder de compra, repressão financeira e fuga para ativos de natureza escassa e resistente à censura. Nesse ambiente, o Bitcoin se fortalece não apenas como ativo especulativo, mas como infraestrutura alternativa de preservação de valor em um sistema que demonstra crescentes sinais de exaustão.

 

Conclusões

A conjunção entre um ambiente macroeconômico fragmentado, políticas monetárias divergentes entre grandes economias e sinais crescentes de fragilidade no sistema fiduciário está convergindo para um cenário estruturalmente positivo para o Bitcoin, mas volátil. No Japão, o abandono da política de juros nulos e o impacto sobre os mercados de dívida dos EUA evidenciam o fim de um regime de financiamento barato e o início de uma nova etapa de volatilidade nos mercados soberanos.

Nos Estados Unidos, a elevação dos yields longos e a queda na demanda por Treasuries indicam que o Fed será forçado, mais cedo ou mais tarde, a intervir – seja suspendendo o QT, seja retomando compras de ativos de forma velada (QE disfarçado).

Na outra ponta, a China segue em direção oposta, intensificando estímulos diante de um ciclo desinflacionário persistente, colapso no setor imobiliário e contração no crédito privado. Ao injetar liquidez em volumes crescentes e reduzir taxas de empréstimo, Pequim não apenas reacende a liquidez interna, como também contribui para um alívio monetário global, ainda que de forma indireta.

Esse pano de fundo oferece sustentação à tese do Bitcoin como ativo estruturalmente beneficiado por políticas de expansão monetária. Os dados on-chain confirmam esse diagnóstico: crescimento expressivo no volume ajustado de transações, aumento da capitalização realizada e forte acúmulo por parte de entidades de grande porte sugerem que a atual valorização não é circunstancial, mas baseada em fundamentos sólidos.

Enquanto os bancos centrais enfrentam limitações crescentes para conter os efeitos colaterais de suas próprias políticas, os investidores institucionais parecem estar antecipando a próxima rodada de monetização da dívida e repressão financeira. Nesse contexto, o Bitcoin reaparece não apenas como um ativo alternativo, mas como uma resposta racional diante de um sistema cada vez mais propenso à instabilidade endógena. O posicionamento antecipado torna-se, portanto, não apenas uma aposta em preço, mas uma defesa estratégica contra a próxima fase do regime macro global.

 

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