Resumo
- 👉 O mercado financeiro está em um momento de euforia, impulsionado por liquidez abundante e otimismo excessivo;
- 👉 A relação entre ETFs alavancados comprados e vendidos atingiu um recorde de US$ 14 para cada US$ 1;
- 👉 Investidores possuem US$ 290 bilhões em posições líquidas longas em futuros de ações nos EUA, o dobro dos picos anteriores;
- 👉 Cerca de 56,4% dos americanos acreditam que o mercado acionário estará mais alto nos próximos 12 meses;
- 👉 Grandes investidores (whales) continuam acumulando Bitcoin, com a oferta em posse dessas entidades mostrando crescimento significativo;
- 👉 Indicadores on-chain como o SOPR ajustado ainda não atingiram níveis de topo de mercado, sugerindo mais espaço para alta;
- 👉 Aproximadamente 62% da oferta de Bitcoin não se move há mais de um ano, mas a redução desse percentual indica que mais moedas estão voltando ao mercado;
- 👉 A China anunciou uma política monetária mais acomodatícia para 2025, visando impulsionar o crescimento econômico interno;
- 👉 A liquidez aumentada na China pode beneficiar ativos de risco como o Bitcoin, mas desafios estruturais como dívida elevada e declínio demográfico limitam o impacto sustentável;
- 👉 A pressão de venda causada por realização de lucros pode desestabilizar o mercado e levar a correções mais significativas;
- 👉 Apesar do otimismo, a cautela é recomendada para 2025, com base em dados sólidos e monitoramento contínuo de indicadores econômicos e on-chain.
Introdução
O mercado financeiro vive atualmente uma fase intensa de ganhos e otimismo, onde eventos fora do comum se tornaram parte do cotidiano, principalmente em segmentos como criptomoedas e ativos de risco. Essa combinação de alta liquidez, especulação e comportamentos emocionais entre investidores cria um ambiente propício para valorizações expressivas, mas também traz riscos de correções significativas.
Este artigo explora o contexto de euforia no mercado, analisando tanto os fatores macroeconômicos, como a mudança na política monetária da China, quanto os comportamentos específicos no ecossistema do Bitcoin, buscando compreender como esses elementos interagem para moldar o cenário atual e as perspectivas para 2025.
Vamos lá!
A euforia atinge o mercado e cresce a necessidade de normalização
O mercado financeiro está atualmente mergulhado em um ambiente de extrema euforia, marcado por ganhos substanciais em ativos de risco, como ações e criptomoedas, impulsionados por liquidez abundante e otimismo excessivo. Este fenômeno, pode ser entendido no mercado como um exemplo de “exuberância irracional”, termo popularizado por Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve, para descrever momentos nos mercados financeiros em que os preços dos ativos se descolam de seus fundamentos econômicos devido ao excesso de otimismo dos investidores.
Nos últimos dois anos, o desempenho de ativos de risco ultrapassou qualquer expectativa razoável. O índice S&P 500, por exemplo, acumula um ganho de quase 50% desde outubro de 2023, alcançado em apenas 14 meses, algo raramente registrado na história dos mercados.
Ao mesmo tempo, o Bitcoin atingiu uma capitalização de mercado de US$ 2 trilhões, posicionando-se como o sétimo ativo mais valioso do mundo, ultrapassando gigantes como prata, Saudi Aramco e Meta. Esse movimento reflete uma intensificação do apetite por risco sem precedentes, acompanhado por uma rápida expansão dos mercados de derivativos e instrumentos alavancados.
Os sinais de excesso são visíveis em diversos indicadores financeiros. A relação entre ativos alocados em ETFs de posições compradas alavancadas e ETFs vendidos alavancados atingiu a marca de US$ 14 para cada US$ 1, um recorde histórico.
Além disso, o posicionamento líquido longo de investidores em futuros de ações dos EUA, excluindo formadores de mercado, chegou a $290 bilhões, mais que o dobro dos picos anteriores registrados em 2018 e 2020. Tais números evidenciam a concentração de apostas otimistas, o que historicamente precede períodos de correção acentuada.
O sentimento do investidor reforça ainda mais o cenário de exuberância. Uma pesquisa recente indica que 56,4% dos americanos acreditam que as ações estarão mais altas nos próximos 12 meses, com a diferença entre os otimistas e pessimistas atingindo um recorde de 35%.
Este otimismo desenfreado ocorre em um contexto macroeconômico contraditório, onde os fundamentos não sustentam necessariamente a valorização dos ativos. Exemplos disso incluem a perda de 46 mil empregos na indústria manufatureira dos EUA em outubro, a maior desde abril de 2020, e o enfraquecimento de setores produtivos, mesmo em meio a um mercado financeiro em alta.
Além disso, é notável a coexistência de movimentos de alta em ativos considerados de refúgio, como ouro e títulos, junto com o avanço de ações e criptomoedas. Essa simultaneidade sugere que a liquidez global, alimentada por políticas monetárias mais flexíveis em períodos anteriores, continua desempenhando um papel crucial no suporte aos preços dos ativos.
Apesar da euforia, institucionais compram e estrutura de mercado se repete
Em termos de análise on-chain, o Bitcoin apresenta sinais de acumulação por grandes investidores (“whales”), com a métrica de supply held by entities holding 1,000+ BTC indicando um aumento significativo. Então, apesar do alto interesse do varejo, investidores institucionais também permanecem bastante otimistas com o atual preço do Bitcoin.
Note que a acumulação institucional permaneceu alta durante todo o ano de 2024, mesmo com as correções que existiram durante o período, sinalizando que o interesse está muito mais fundamento na estrutura do ciclo do que na negociação de curto prazo. Este é o tipo de investidor que eventualmente irá distribuir quando atingirmos um cenário menos equilibrado.
Por outro lado, indicadores como o Spent Output Profit Ratio (SOPR) Ajustado mostram que muitos participantes estão realizando lucros substanciais, o que frequentemente sinaliza um estágio avançado do ciclo de mercado e que já sinalizamos aqui no BlockTrends PRO. Entretanto, ainda não atingimos o que seria um mercado de topo, dado que o nível de realização de lucros global da rede não ultrapassou 1.16 no indicador.
Esta pressão de venda por parte de realização de lucros acaba voltando ao mercado uma série de moedas que estavam imóveis, posteriormente compradas por investidores de curto prazo. Este topo de dinâmica ocorre em todos os ciclos de mercado, com moedas antigas voltando a ser negociadas no mercado e reduzindo a atividade de hodling.
Atualmente, cerca de 62% da oferta de bitcoin em circulação não se move há pelo menos um ano, número que costuma ser bem maior durante os estágios iniciais de bull market. Em 2023, este indicador sinalizou que mais de 70% da oferta não se movia há um ano, mas logo em seguida começou a cair à medida que o preço subia.
A ideia que moedas continuarão sendo guardadas para toda a eternidade não é algo realista quando observamos a rede, onde podemos ver com clareza que todos os ciclos de alta são marcados por parte da oferta que volta a ficar líquida. Isto cria uma pressão vendedora no mercado, que posteriormente desequilibra a oferta e demanda, derrubando preços.
China deve favorecer ativos de risco, mas talvez não seja o suficiente
A recente decisão da China de adotar uma política monetária mais acomodatícia em 2025 reflete uma mudança significativa em sua estratégia econômica, impulsionada por desafios estruturais e pela necessidade de estimular o crescimento. A economia chinesa tem enfrentado dificuldades, como uma crise no setor imobiliário, pressões deflacionárias, crescimento aquém do esperado e tensões comerciais com os Estados Unidos.
Esses fatores levaram o governo a buscar medidas que promovam a recuperação econômica e impulsionem a demanda interna. Principalmente pelo fato de que na visão chinesa, que partilha de teorias keynesianas, o gasto governamental é diretamente ligado ao crescimento econômico do país.
O Banco Popular da China anunciou recentemente a implementação de ferramentas que incluem a redução de custos de financiamento para empresas e famílias, apoio à inovação tecnológica, incentivos ao financiamento verde, estímulos ao consumo e estabilidade nos mercados imobiliário e de capitais. Além disso, o país está introduzindo pacotes de estímulos robustos, incluindo quase 10 trilhões de yuans em emissão de dívida para aliviar as finanças dos governos locais, além de um possível investimento de até 1 trilhão de yuans por meio de bancos estatais para ampliar a capacidade de empréstimos.
Esta postura surge devido ao baixo crescimento de crédito bancário e queda nos agregados monetários M1 e M2 da China. Um tipo de estrutura que reduz liquidez e desestimula consumo, criando um cenário “recessionário” na economia chinesa.
Historicamente, medidas de estímulo econômico na China também repercutem globalmente, aumentando a liquidez nos mercados financeiros e incentivando investimentos em ativos de risco. Isso inclui o Bitcoin, que frequentemente se beneficia de um cenário de maior liquidez e apetite por risco.
Além disso, apesar da negociação de criptomoedas estar banida na China, recentemente tivemos avanço regulatório com um tribunal chinês legalizando a posse de Bitcoin. Portanto, este aumento de liquidez pode se traduzir num maior fluxo de capital para o bitcoin na Ásia.
No entanto, a economia chinesa enfrenta desafios significativos, como o elevado endividamento corporativo e governamental, além de um declínio demográfico que ameaça a sustentabilidade do crescimento de longo prazo. O setor imobiliário, uma peça central da economia chinesa, permanece pressionado, limitando a capacidade de resposta econômica aos estímulos.
Esses fatores estruturais sugerem que os efeitos positivos das políticas acomodatícias podem ser temporários e acompanhados por correções futuras, à medida que os fundamentos econômicos subjacentes forem reavaliados.
O cenário atual também indica uma maior concentração de risco nos mercados financeiros. A injeção de liquidez aumenta o apetite por ativos especulativos, mas períodos de exuberância são frequentemente seguidos por correções significativas quando a confiança dos investidores é desafiada por fatores externos ou pela percepção de sobrevalorização.
Embora o aumento da liquidez e os estímulos monetários sejam favoráveis no curto prazo para ativos de risco, incluindo o Bitcoin, é essencial observar como esses fatores interagem com as vulnerabilidades estruturais da economia chinesa. A duração do impacto positivo dependerá da eficácia das políticas em revitalizar a economia real e do equilíbrio entre o otimismo do mercado e os desafios econômicos persistentes.
Portanto, apesar do potencial de alta em ativos financeiros, a abordagem dos investidores deve ser cautelosa, com foco na gestão de riscos e na análise de indicadores que possam sinalizar mudanças no cenário econômico.
Conclusões
A fase mais avançada do ciclo de alta é caracterizada por eventos que podem parecer “esquisitos” para quem observa de fora: moedas sem fundamentos aparentes ganhando popularidade, memes transformados em ativos valiosos e piadas da internet superando o valor de empresas consolidadas. Esses fenômenos fazem parte da dinâmica natural dos ciclos de mercado financeiro, e o que vemos no Bitcoin e em outras criptomoedas não é diferente.
Nossa abordagem sempre prioriza aproveitar o ciclo de mercado com base em dados sólidos, e não em narrativas. Por isso, nos preparamos para adotar uma postura mais cautelosa em 2025. Essa decisão não é repentina. Desde dezembro de 2022, mantivemos uma visão otimista, incentivando nossos clientes a acumularem Bitcoin durante 2023 e focando, em 2024, na filtragem do ruído de mercado para evitar decisões impulsivas.
Conforme o ano se encerra, nossas análises têm demonstrado sua precisão ao longo desse período. É com base nesse histórico que acreditamos ser essencial adotar uma postura de maior prudência em 2025, equilibrando oportunidades e riscos. Mercados são, em sua essência, irracionais, mas a análise de dados nos permite mitigar nossas próprias emoções enquanto monitoramos o comportamento emocional de outros participantes.
Atualmente, nossos modelos não indicam que o topo do ciclo foi atingido. O Bitcoin Horizon Model aponta uma possível zona de topo começando em $150 mil, sugerindo que ainda há uma boa janela de oportunidade para aproveitarmos. Contudo, quando o preço alcançar essa faixa, estaremos atentos a outros indicadores que possam confirmar sinais de topo, ajustando nossa estratégia para refletir o momento mais crítico do ciclo.
Até lá, continuaremos a compartilhar atualizações regulares e a reforçar a importância de manter uma perspectiva de longo prazo e reduzir a preferência temporal, assegurando decisões bem fundamentadas em meio à volatilidade dos mercados.
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