Radar Cripto

A bolha imobiliária chinesa e o impulso de liquidez no bitcoin

Bitcoin se aproximada da máxima histórica com baixo interesse do varejo e China deverá ser o catalisador da última pernada de alta deste ciclo.

Resumo

  • A bolha imobiliária chinesa é resultado de décadas de políticas de urbanização rápida e investimentos governamentais em infraestrutura para estimular a economia;
  • O Banco Central da China adotou políticas monetárias expansionistas, como afrouxamento quantitativo, para evitar um colapso;
  • A expansão monetária pode desvalorizar o yuan, incentivando investidores a buscar ativos mais resilientes, como ouro e Bitcoin;
  • Esse cenário se assemelha ao de 2020, com fluxos de capital em fundos de ouro atingindo níveis altos;
  • A queda nas reservas de holders de longo prazo do Bitcoin sugere uma tendência de alta, com investidores de curto prazo voltando a negociar;
  • Apesar da alta do Bitcoin, ainda não há sinais de euforia, indicando uma valorização mais sustentável;
  • A demanda institucional favorece o Bitcoin, destacando-o como ativo único frente a outras criptomoedas, como o Ethereum;
  • O lançamento de ETFs de Bitcoin nos EUA fortalece essa preferência institucional e promove a valorização do BTC;
  • Com a introdução de ETFs, a rotação de capital para altcoins deve diminuir, sustentando a estabilidade do Bitcoin;
  • A China e outros bancos centrais devem impulsionar liquidez, o que beneficia ativos de risco, mas aumenta o risco de recessão;
  • No médio prazo, o cenário permanece positivo para o Bitcoin, com sinais de correção e saída previstos para 2025.

Introdução

No relatório de hoje, exploramos as implicações da bolha imobiliária chinesa, destacando como a urbanização acelerada e o crédito fácil resultaram em um mercado imobiliário insustentável, com áreas desocupadas e endividamento crescente. Examinamos também o papel do Banco Central da China, que, em resposta, tem adotado políticas monetárias expansionistas, aumentando a liquidez, mas depreciando o yuan, o que pode impulsionar a busca por ativos como o Bitcoin e o ouro.

Além disso, o relatório explora a crescente demanda por Bitcoin, tanto do varejo quanto de instituições, mostrando um cenário de valorização para o BTC devido à entrada de capital institucional e à concentração de fluxo em relação a outros ativos digitais, como o Ethereum.

Fechamos com uma análise sobre as potenciais tendências de mercado para o Bitcoin, considerando o cenário econômico global e a política monetária mais favorável a ativos de risco.

Vamos lá!

 

A bolha chinesa é mais um exemplo de falha estrutural na economia fiduciária

A bolha imobiliária chinesa é um fenômeno complexo que surgiu de décadas de políticas de urbanização acelerada e investimentos intensivos em infraestrutura, promovidos pelo governo como motores de crescimento econômico. Durante o período de reforma e abertura econômica nos anos 1980 e 1990, o governo central iniciou programas para aumentar o setor de habitação e atrair investimentos domésticos.

A bolha imobiliária chinesa e o impulso de liquidez no bitcoin

A propriedade privada de imóveis residenciais, permitida a partir dos anos 90, criou uma demanda massiva, enquanto o governo, através de autoridades locais, arrecadava grande parte de sua receita pela venda de terras. O acesso a crédito fácil e o alto retorno esperado impulsionaram ainda mais o crescimento.

Entre 2000 e 2020, os preços dos imóveis em grandes cidades como Pequim, Xangai e Shenzhen aumentaram de forma significativa. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Imobiliária da China, entre 2005 e 2020, os preços residenciais médios quadruplicaram, enquanto o mercado rural se expandiu, dando origem ao fenômeno das “cidades fantasmas”.

Essas são áreas urbanas desenvolvidas, mas amplamente desocupadas devido à expectativa de retorno futuro que não se concretizou. Esse excesso de oferta e a baixa ocupação ameaçaram a sustentabilidade do modelo de investimento imobiliário chinês, com o endividamento do setor imobiliário, como o caso da Evergrande, tornando-se um risco sistêmico.

A bolha imobiliária chinesa e o impulso de liquidez no bitcoin

Por conta disso, os preços dos imóveis caiu drasticamente nos últimos anos, revelando um cenário de fragilidade na demanda por novas construções e fazendo com que muitas fossem literalmente destruídas por falta de procura. Este tipo de baixa demanda está também trazendo pressões deflacionárias, algo que afeta negativamente o crescimento econômico na visão keynesiana(comunista) aplicada pelo estado chinês.

Com mais de 70% da riqueza das famílias chinesas concentrada em propriedades, o setor imobiliário se tornou uma peça essencial para a estabilidade econômica. Entretanto, o acúmulo de dívida das principais construtoras e a desaceleração da economia pós-pandemia expuseram a vulnerabilidade do sistema, com o setor enfrentando crescentes desafios de liquidez e insolvência.

 

Política monetária e a resposta do Banco Central chinês

O Banco Central da China se vê agora forçado a adotar políticas monetárias expansionistas, visando evitar o colapso do setor e as consequências macroeconômicas que afetariam o crescimento do país. Entre as medidas esperadas está o “afrouxamento quantitativo” (QE), onde o banco central injeta liquidez no mercado financeiro através da compra de ativos, como títulos da dívida, para aumentar a disponibilidade de crédito e reduzir taxas de juros.

Esse aumento da oferta monetária, no entanto, tende a desvalorizar o yuan, pois aumenta a quantidade de moeda circulante. A depreciação do yuan pode levar investidores chineses e globais a buscar formas de proteção contra a inflação e a perda de valor cambial, direcionando o capital para ativos mais resilientes. A implementação do QE, assim, amplia a liquidez e permite que instituições financeiras chinesas emprestem mais para setores em dificuldades, o que mantém a economia girando a curto prazo, mas pressiona a moeda.

A bolha imobiliária chinesa e o impulso de liquidez no bitcoin

Vale notar que, como já mencionamos diversas vezes aqui nos relatórios do BlockTrends PRO, os pacotes de injeções de liquidez por parte do PBoC já começaram e continuam se intensificando. Este movimento é similar ao que tivemos em outubro do ano passado e que também impactou o Bitcoin.

Além do QE, o governo chinês provavelmente implementará pacotes fiscais para incentivar o consumo e aumentar a demanda no setor imobiliário. Essas medidas podem incluir reduções fiscais, subsídios à habitação e incentivos a compra de imóveis para pessoas físicas. A injeção de capital no setor público e privado visa diretamente sustentar o valor dos ativos imobiliários e preservar empregos associados à construção civil e setores correlatos.

A bolha imobiliária chinesa e o impulso de liquidez no bitcoin

Essas políticas, no entanto, podem agravar o problema da dívida pública e aumentar o risco inflacionário, principalmente pelo fato da expansão do crédito não ser acompanhada pelo consumo. Neste momento, a dívida da população segue aumentando em relação ao produto da economia, trazendo mais alavancagem para o sistema.

Este é o tipo de cenário de bolha que poderá gerar impactos significativos na economia global quando ocorrer um processo de desalavancagem em massa, assim como principal motor para o aumento de demanda por ativos de proteção. O ouro, por exemplo, segue atingindo máximas justamente derivado de busca por proteção, até mesmo pelo próprio Banco Central da China.

A bolha imobiliária chinesa e o impulso de liquidez no bitcoin

O fluxo de capital em fundos de ouro atingiu o maior patamar desde 2020, cenário onde houve uma recessão global. Este tipo de movimento indica que tanto investidores comuns como institucionais estão em busca de ativos escassos, principalmente pelo fato de estarmos próximos de mais um movimento global de redução da escassez de moedas fiduciárias (expansão monetária).

Portanto, com o aumento de estímulos e a desvalorização do yuan, o Bitcoin poderá apresentar uma alternativa atraente para investidores que desejam se proteger da inflação e da perda de poder de compra. Assim como o ouro, boa parte desse capital recém-criado deverá fluir para o BTC, impulsionando ainda mais seu preço.

Entretanto, será preciso identificar o momento correto de início de euforia, pois em nossa visão, esse cenário de impulso de preços causados por injeções de liquidez poderá causar mais um crash na economia global.

 

Interesse do varejo aumenta no bitcoin, mas ainda não sinaliza euforia de topo

A queda nas reservas dos holders de longo prazo pode sinalizar uma tendência de alta para o Bitcoin. Isso ocorre porque investidores que mantinham suas moedas sem movimentação passam a realizar transações novamente.

Com isso, as moedas começam a migrar de holders mais pacientes, que acumularam ao longo dos meses, para investidores de curto prazo, que buscam aproveitar as tendências de alta. Esse movimento gera uma pressão de compra mais imediata, contrastando com o comportamento de acumulação mais gradual característico das fases de baixa do mercado.

A bolha imobiliária chinesa e o impulso de liquidez no bitcoin

Essa dinâmica de queda nas reservas dos holders de longo prazo indica que investidores de curto prazo estão voltando a negociar ativamente na rede do Bitcoin, fortalecendo a pressão de compra e estimulando uma tendência ascendente nos preços. Esse aumento nas atividades dos holders de curto prazo tende a impulsionar movimentos de valorização no curto prazo, mas o nível de rentabilidade desses investidores ainda não atingiu os picos observados em ciclos anteriores, o que sugere que a lucratividade não está em um patamar crítico que poderia desacelerar a alta do Bitcoin.

A bolha imobiliária chinesa e o impulso de liquidez no bitcoin

Utilizamos o indicador MVRV (Market Value to Realized Value) para holders de curto prazo para observar momentos em que a rentabilidade desses investidores excede 1.3, o que pode sinalizar uma possível correção de preço. Recentemente, apesar de voltarmos ao território de lucratividade, ainda não alcançamos os níveis observados anteriormente em 2023, que indicaram momentos de correção.

Esse cenário sugere que, embora o Bitcoin esteja em alta, ainda não atingimos um estágio de euforia com ampla entrada de novos investidores, mantendo a dinâmica de mercado mais contida e estável.

A bolha imobiliária chinesa e o impulso de liquidez no bitcoin

Outro ponto que apoia essa perspectiva é a estabilidade na quantidade de endereços ativos na rede Bitcoin, que permanece semelhante desde julho, mesmo com a recente alta de preço. Esse comportamento indica que, embora o Bitcoin esteja em valorização, ainda não houve um crescimento expressivo nas transações on-chain. Geralmente, o aumento de endereços ativos ocorre em tendências de alta mais consolidadas e de médio prazo, sugerindo que o mercado ainda não atingiu o nível de urgência e euforia característico de cenários de alta intensa e sustentada.

 

Demanda institucional favorece ciclo do bitcoin como ativo único

No atual ciclo de mercado, o capital tem se concentrado principalmente no Bitcoin, em vez de se dispersar entre outros ativos digitais. Essa preferência é impulsionada pelo lançamento dos ETFs de Bitcoin nos EUA, o que atrai ainda mais capital institucional para o BTC.

Essa escolha reflete uma demanda institucional específica e distinta de outros ativos como o Ethereum, que até o momento registrou uma captação líquida negativa de cerca de meio bilhão de dólares, enquanto o Bitcoin obteve uma captação positiva superior a US$ 23 bilhões.

A bolha imobiliária chinesa e o impulso de liquidez no bitcoin

O fluxo de captação institucional direcionado ao Bitcoin está impactando diretamente sua valorização em comparação com outros ativos digitais, reforçando a predominância do BTC no interesse institucional. Embora outras criptos possam registrar valorizações de curto prazo, essa preferência por Bitcoin será crucial para o amadurecimento do mercado a longo prazo. Em 2024, o crescimento de quase 65% do BTC não foi acompanhado por um avanço similar na capitalização de altcoins, sinalizando que o capital permaneceu concentrado no Bitcoin na segunda metade do ano.

A bolha imobiliária chinesa e o impulso de liquidez no bitcoin
Esse direcionamento de capital exclusivamente para o Bitcoin, diferentemente de outros ativos digitais, pode indicar uma predominância de interesse comprador passivo em BTC, reduzindo a rotatividade de capital típica de ciclos de alta em que fundos migram para altcoins. Com a introdução dos ETFs de Bitcoin nos EUA, muitos investidores institucionais alocados em BTC terão menor flexibilidade para rotacionar capital, já que vender ETFs para comprar altcoins implica em custos fiscais e de declaração de lucro.

Isso deverá sustentar a posição de longo prazo em Bitcoin e aumentar sua estabilidade frente a outros ativos.

 

Conclusões

Estamos entrando em uma fase do ciclo de mercado do Bitcoin em que a volatilidade e a complexidade aumentam, tradicionalmente associada a um movimento de alta nos preços. Ao mesmo tempo, sinais de enfraquecimento econômico global, especialmente da China, indicam uma desaceleração econômica que parece mais provável do que em períodos anteriores, dada a conjuntura atual.

Para evitar uma possível recessão, diversos bancos centrais tendem a adotar medidas de estímulo econômico, buscando reativar a atividade antes que a desaceleração se intensifique, criando um cenário complexo para os próximos meses.

Por conta do cenário atual, acreditamos que a China será uma das economias principais a impulsionar a liquidez nos próximos meses, o que deve ocorrer também nos Estados Unidos. Estamos entrando em um período de política monetária mais acomodativa, que tende a beneficiar ativos de risco no curto prazo, mas também pode aumentar as chances de uma recessão adiante.

A bolha imobiliária chinesa e o impulso de liquidez no bitcoin

Este contexto reforça as indicações dos nossos indicadores de ciclo on-chain, que apontam alta probabilidade de um novo movimento de alta antes de um período corretivo mais acentuado, potencialmente marcando o início de um mercado em baixa (bear market). O Modelo RUPS, por exemplo, permanece em uma região intermediária do ciclo, indicando que estamos na segunda metade do processo de expansão de preço.

Com isso, mantemos uma perspectiva positiva para se manter posicionado em Bitcoin no médio prazo. Contudo, conforme entrarmos em 2025, monitoraremos atentamente os sinais de enfraquecimento na estrutura do ciclo e buscaremos possíveis pontos de saída ou redução de exposição para preservar ganhos acumulados.

A bolha imobiliária chinesa e o impulso de liquidez no bitcoin

Além disso, historicamente, as eleições nos EUA funcionaram como catalisadores da última pernada de alta para o Bitcoin, algo que ocorreu em todos os ciclos anteriores. Apesar de baixa amostragem para afirmarmos que existe uma causalidade implícita, é uma dinâmica que não devemos desconsiderar.

 

#HODL

Sobre o autor
BlockTrends
A BlockTrends e a edtech de criptoativos do grupo QR Capital. Produz analises sobre mercado cripto, financas, tecnologia e economia, conectando dados a contexto editorial.