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Guerras, liquidez e o efeito de hedge do Bitcoin

Padrão simultâneo de cortes de juros e injeção de estímulos deverá impactar positivamente ativos como bitcoin, ouro e ações nos próximos meses, mas tensões geopolíticas dificultam.

Resumo

👉 Bancos centrais globais estão adotando políticas monetárias expansionistas simultaneamente;

 

👉 Esse movimento coordenado ocorre apesar de condições econômicas globais estáveis e ativos financeiros em máximas históricas;

 

👉 Cerca de 67% dos principais bancos centrais cortaram ou mantiveram taxas de juros, podendo alcançar 80% até o fim do ano;

 

👉 A China tem sido agressiva na injeção de liquidez para reanimar sua economia;

 

👉 O impacto dessas políticas é visível no aumento do M2 global, que ultrapassou US$ 108 trilhões;

 

👉 O Bitcoin tende a se beneficiar desse aumento de liquidez, sendo uma “esponja” de capital global;

 

👉 O Federal Reserve está sendo mais cauteloso, mas o mercado já precifica cortes futuros nas taxas de juros nos EUA;

 

👉 O aumento de liquidez global favorece ativos como ouro, Bitcoin e ações, enquanto o risco de bolhas também aumenta;

 

👉 Apesar da expansão monetária, o impacto direto no Bitcoin ainda não foi materializado significativamente em 2024;

 

👉 O volume de negociação ajustado do Bitcoin continua abaixo dos níveis observados em 2017 e 2018;

 

👉 Geopolítica e eventos globais afetam a precificação do Bitcoin no curto prazo, mas seu retorno médio a longo prazo é positivo e melhor que o do ouro.

Introdução

Neste relatório, vamos explorar o cenário atual de afrouxamento monetário global, com uma análise sobre a política monetária expansionista adotada por bancos centrais ao redor do mundo. Vamos investigar o impacto desse ambiente de liquidez nos mercados financeiros e como essas medidas podem afetar o Bitcoin e outros ativos de risco.
Além disso, o relatório também abordará a relação entre eventos geopolíticos e a performance do Bitcoin em comparação ao ouro, oferecendo insights sobre seu papel como reserva de valor em tempos de incerteza global.
Vamos lá!

Bancos centrais adotam política monetária acomodativa em simultâneo

O atual cenário global de afrouxamento monetário é extremamente significativo devido à sua escala e timing incomuns. Normalmente, políticas de corte de juros e aumento da liquidez são adotadas em resposta a crises financeiras ou desaceleração econômica severa, como ocorreu durante a crise financeira global (GFC) de 2008.

No entanto, o que estamos presenciando agora é um movimento coordenado de afrouxamento em um momento em que a maioria dos ativos financeiros está em níveis historicamente altos e as condições econômicas globais permanecem relativamente estáveis, com crescimento econômico moderado e spreads de crédito apertados.

Guerras, liquidez e o efeito de hedge do Bitcoin

Diversos bancos centrais, incluindo o Banco Central Europeu (BCE), o Banco do Japão (BoJ) e o Banco Popular da China (PBoC), estão adotando políticas expansionistas, como podemos ver na tabela de rastreamento global que estamos introduzindo. Além disso, setembro terminou como o mês com a maior quantidade de cortes de juros no planeta desde abril de 2020.

Guerras, liquidez e o efeito de hedge do Bitcoin

Atualmente, cerca de 67% dos 30 principais Bancos Centrais estão em modo acomodativo, com cortes ou inalteração em suas taxas de juros, algo que pode alcançar os 80% ao final deste ano. Este padrão de política monetária possui relação direta com a necessidade de controle da inflação de preços destes países, além do impacto das taxas de juros reais que estas economias possuem.

Guerras, liquidez e o efeito de hedge do Bitcoin

A China, em particular, tem sido agressiva na injeção de liquidez, com o objetivo de reanimar sua economia após um período de fraqueza no setor imobiliário e desaceleração no crescimento. Recentemente, o PBoC cortou diversas taxas de juros, incluindo o Reverse Repo e o Medium-Term Lending Facility (MLF), o que está impulsionando a oferta monetária chinesa.

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) tem sido mais cauteloso, embora haja uma crescente expectativa de que ocorram mais cortes nas taxas de juros em breve. As políticas de afrouxamento monetário do Fed, no entanto, já estão refletidas nas expectativas do mercado, que precificam uma possível flexibilização mais agressiva nos próximos meses.

Guerras, liquidez e o efeito de hedge do Bitcoin

Os efeitos desse afrouxamento global já são visíveis em vários indicadores de liquidez, como o M2 global, que ultrapassou recentemente US$ 108 trilhões, refletindo um aumento de 6,86% no último ano. Esse nível de expansão monetária não era visto desde 2020, durante a pandemia, quando os bancos centrais injetaram grandes quantidades de liquidez para evitar um colapso econômico.

Por outro lado, a atual situação é diferente, pois o afrouxamento está acontecendo enquanto as economias globais ainda mantêm uma taxa de crescimento de aproximadamente 3%, sem sinais evidentes de recessão.

Esse afrouxamento monetário massivo tem implicações importantes para os mercados financeiros. Historicamente, períodos de aumento de liquidez favorecem ativos como ações, ouro e commodities. Com a elevação da oferta monetária, o custo de oportunidade de manter ativos como o ouro diminui, o que tende a impulsionar a demanda por esses ativos. Da mesma forma, os mercados de ações, que se beneficiam de financiamento barato, tendem a se valorizar em ambientes de maior liquidez.

No entanto, é importante ressaltar que o atual ciclo de afrouxamento monetário global pode criar distorções nos mercados, uma vez que os valuations de muitos ativos já estão em níveis elevados. Embora o aumento da liquidez favoreça esses ativos, há um risco de que as políticas expansionistas acabem exacerbando bolhas em certos mercados. Além disso, com a maioria dos bancos centrais adotando políticas semelhantes, há uma “desvalorização global das moedas” em relação a ativos reais, como o ouro e, potencialmente, o Bitcoin.

Guerras, liquidez e o efeito de hedge do Bitcoin

Nesse cenário, o Bitcoin, muitas vezes descrito aqui no BTPRO como uma “esponja de liquidez”, se destaca por sua alta correlação com a oferta monetária global. À medida que a liquidez aumenta, o Bitcoin tende a se valorizar, visto que ele é percebido como um ativo escasso e independente de políticas monetárias de governos ou bancos centrais.

Comparado a outros ativos de risco, como ações, o Bitcoin tem uma correlação mais direta com a liquidez global, pois sua precificação não depende de fatores como lucros corporativos ou dividendos. Ao compararmos a oferta monetária global com um atraso de 72 dias no preço do bitcoin, conseguimos identificar a possibilidade do BTC acompanhar o aumento na quantidade de dinheiro nos próximos meses.

Em um contexto de políticas monetárias expansionistas, é provável que vejamos um ambiente onde ativos como ouro, bitcoin e ações, continuem a se beneficiar. No entanto, esse ambiente também pode aumentar a volatilidade, uma vez que valuations elevados podem tornar os mercados mais suscetíveis a correções no futuro, especialmente se as pressões inflacionárias começarem a se intensificar.

Atividade on-chain fraca mantém liquidez fora do Bitcoin

Embora a liquidez global esteja em crescimento, principalmente impulsionada pela expansão monetária dos bancos centrais, o impacto direto dessa liquidez no Bitcoin ainda não se materializou de forma significativa em 2024. Uma análise recente que fizemos indica que o volume de negociação ajustado do Bitcoin continua abaixo dos níveis observados nos ciclos de 2017 e 2018.

Guerras, liquidez e o efeito de hedge do Bitcoin

Isso sugere que o capital que entrou no mercado em 2023 não foi tão expressivo quanto em ciclos anteriores. Nossa expectativa é que esse volume aumente em 2025, com um cenário mais favorável para o mercado.

Apesar de uma variação positiva na capitalização das principais stablecoins, o capital que está entrando no mercado cripto por meio desses tokens ainda não foi alocado de forma significativa no Bitcoin. Esses tokens de dólar sintéticos oferecem um método de exposição ao mercado, mas a falta de alocação direta no Bitcoin reflete um cenário de cautela.

Guerras, liquidez e o efeito de hedge do Bitcoin

Espera-se que, ao afastarmos de um ambiente de maior risco global, com a redução de tensões geopolíticas, o capital possa ser redirecionado para o Bitcoin, potencialmente revertendo a recente pressão de venda no mercado spot.

Ontem, durante o bombardeio realizado pelo Irã em Israel, houve uma movimentação significativa de moedas para exchanges, resultando em realização de prejuízo, principalmente por holders de curto prazo. Apesar do impacto, não observamos uma venda massiva por holders de longo prazo, o que difere de eventos anteriores quando o preço do Bitcoin caiu abaixo dos US$ 50 mil.

Guerras, liquidez e o efeito de hedge do Bitcoin

Esse foi o maior evento de realização de prejuízo por holders de curto prazo desde 5 de agosto, sugerindo que investidores recentes foram os principais vendedores na queda mais recente.

O impacto causado pelos investidores de curto prazo está diretamente relacionado ao cenário atual de baixa demanda na rede Bitcoin. Com baixo volume de negociações, baixa liquidez, e poucas novas entradas de endereços on-chain, o mercado se torna mais vulnerável a flutuações de curto prazo.

Guerras, liquidez e o efeito de hedge do Bitcoin

Portanto, isso está impedindo o preço de atingir novas máximas e de sair da zona de consolidação em queda. No entanto, no longo prazo, o Bitcoin continua a ter um desempenho resiliente, mesmo em meio a crises e eventos globais, algo que será detalhado no próximo tópico.

Guerras, tensões geopolíticas e o efeito de “hedge” do Bitcoin

Eventos geopolíticos de grande escala frequentemente reacendem o debate sobre o Bitcoin como uma reserva de valor em tempos de crise. Nessas situações, o preço do Bitcoin geralmente sofre no curto prazo, registrando quedas acentuadas em momentos de incerteza global.

A discussão sobre sua eficácia como uma proteção contra turbulências geopolíticas e incertezas macroeconômicas tem ganhado força nos últimos anos, chegando até a ser discutida pela BlackRock. O estudo abaixo foi elaborado para analisar e entender como eventos geopolíticos anteriores impactaram a precificação do Bitcoin, explorando padrões observados em situações similares.

O ouro tem sido historicamente visto como o ativo preferido de proteção em tempos de turbulência geopolítica, sendo amplamente utilizado pelos investidores para mitigar riscos nesses períodos. No entanto, nosso estudo rastreou o desempenho do Bitcoin em comparação com o ouro após grandes eventos geopolíticos, e os resultados são impressionantes.

Guerras, liquidez e o efeito de hedge do Bitcoin

Em uma média de 120 dias após esses eventos, o Bitcoin apresentou um retorno médio de 28,4%. Embora o Bitcoin sofra no curto prazo, sua recuperação subsequente tem sido bastante significativa, destacando seu potencial a longo prazo.

Guerras, liquidez e o efeito de hedge do Bitcoin

É interessante notar que a observação do desempenho do Bitcoin em uma janela de 90 dias após eventos geopolíticos também mostra resultados significativos, porém com mais períodos de retorno negativo do que na janela de 120 dias. Isso reforça a ideia de que a análise em um horizonte de quatro meses traz uma perspectiva mais clara sobre o potencial de recuperação do Bitcoin.

Nosso estudo analisou o impacto de eventos como pandemias, invasões, guerras e crises financeiras, e revela, através de uma tabela comparativa, que o Bitcoin, ao longo dos últimos 10 anos, mostrou um desempenho impressionante frente a esses eventos, superando o ouro em praticamente todos os momentos.

Guerras, liquidez e o efeito de hedge do Bitcoin

O ouro, frequentemente visto como uma proteção contra a volatilidade, demonstra pouca variação de preço no longo prazo. Durante eventos geopolíticos, a variação média do ouro permanece baixa.

Nos 30 dias após esses eventos, o ouro apresenta um retorno médio negativo de 0,5%, aos 90 dias um retorno positivo de 0,38%, e aos 120 dias novamente um leve declínio de 0,04%. Embora o ouro se mostre estável em termos de volatilidade, sua capacidade de oferecer retornos é questionável, especialmente quando ajustada pela inflação, o que poderia ser medido pelo índice de inflação de preços CPI.

Guerras, liquidez e o efeito de hedge do Bitcoin

Nos últimos 10 anos, o ouro se mostrou eficaz em mitigar a volatilidade, mas falhou em proteger contra a perda de poder de compra durante eventos geopolíticos. Seu retorno médio é praticamente neutro após esses eventos, mesmo a longo prazo.

Em contraste, o Bitcoin oferece um desempenho muito melhor, tanto em proteção contra os eventos geopolíticos, quanto em relação a perda do poder de compra nas moedas em que são negociados. Nos primeiros 30 dias após um evento, o Bitcoin registra um retorno médio de 6,62%.

Entretanto, ao expandir para 120 dias, o retorno médio acumulado atinge 28%, superando largamente investimentos tradicionais e metais preciosos em termos de rentabilidade real.

Conclusões

Apesar da recente queda de curto prazo no preço do Bitcoin e a perda momentânea do preço realizado dos holders de curto prazo, nossa visão para o médio e longo prazo continua otimista.

Dois fatores principais sustentam essa perspectiva: a melhora da liquidez global, que já começou a impactar o mercado e deve influenciar positivamente o Bitcoin nos próximos meses, e o desempenho histórico superior do Bitcoin em comparação com outros ativos após eventos geopolíticos, como as tensões e conflitos recentes, que reforçam seu potencial de recuperação.

Os eventos geopolíticos sempre afetaram o mercado financeiro, provocando volatilidade de curto prazo nos ativos. No entanto, o Bitcoin tem se provado, ano após ano, como uma alternativa sólida para alocação de capital nesses períodos.

Embora o impacto inicial possa ser negativo, o retorno médio acumulado após alguns meses geralmente é positivo. Investidores que alocam no início desses eventos costumam obter bons resultados, mesmo com os desafios de uma tendência de baixa imediata. Nossa perspectiva para o médio e longo prazo, portanto, permanece otimista.

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Sobre o autor
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