Americanos não confiam no governo Trump para regular cripto
Pesquisa da CoinDesk revela que eleitores americanos desconfiam da capacidade do governo Trump de regular cripto com imparcialidade.
A indústria cripto americana conquistou nos últimos dois anos o que parecia impossível em 2022: um presidente declaradamente favorável ao setor, um Congresso aprovando legislação dedicada e reguladores recuando em ações de enforcement. Mas uma pesquisa recente conduzida pela CoinDesk com eleitores americanos revela um paradoxo incômodo: a população não confia na administração Trump para supervisionar o setor com imparcialidade.
O resultado reflete uma tensão que o mercado prefere ignorar. A proximidade entre a Casa Branca e empresas do setor, incluindo os próprios empreendimentos cripto da família Trump, criou um problema de credibilidade que pode minar a legitimidade regulatória que a indústria tanto buscava.
O que a pesquisa realmente mostra
Os dados da CoinDesk apontam três conclusões centrais. A primeira é que criptomoedas figuram entre as últimas prioridades dos eleitores americanos. Em uma lista de temas relevantes para decisão de voto, ativos digitais aparecem consistentemente abaixo de saúde, economia, imigração e segurança.
A segunda conclusão é que a maioria dos americanos ainda prefere bancos tradicionais para acesso a serviços financeiros. Apesar do crescimento das carteiras digitais e das plataformas DeFi, a percepção dominante é de que instituições bancárias oferecem mais segurança e confiabilidade.
A terceira, e mais reveladora, é a desconfiança em relação à administração atual. Os eleitores questionam se um governo com laços financeiros diretos com projetos cripto pode atuar como regulador neutro. É um problema clássico de conflito de interesses, transportado para o universo dos ativos digitais.
O conflito de interesses que o mercado minimiza
A família Trump lançou tokens próprios, participou de conferências do setor como promotora e recebeu apoio financeiro significativo de empresas cripto durante a campanha eleitoral. Essas conexões, que foram celebradas pelo mercado como sinal de alinhamento político, agora são percebidas pela opinião pública como comprometimento da imparcialidade regulatória.
O GENIUS Act, a principal legislação para stablecoins em discussão no Congresso, é um exemplo concreto dessa tensão. A BlackRock enviou carta ao OCC pedindo que os reguladores expandam os ativos elegíveis sob a lei e abandonem limites para reservas tokenizadas. O lobby é legítimo, mas ocorre em um contexto onde a linha entre interesse público e interesse privado se tornou difusa, como analisamos regularmente na cobertura de criptomoedas.
Para investidores brasileiros, a questão não é abstrata. O arcabouço regulatório americano define padrões globais. Se a regulação cripto nos EUA nascer com déficit de legitimidade popular, o risco é que futuras administrações revertam o que está sendo construído agora.
A Venezuela como contraponto: stablecoins onde o banco falha
Enquanto americanos preferem bancos, a realidade é radicalmente diferente em economias instáveis. A Venezuela, sob décadas de sanções e hiperinflação, se tornou um dos maiores casos de uso real de stablecoins no mundo. Cidadãos usam USDT e USDC para preservar poder de compra, receber remessas e acessar o comércio internacional quando o sistema bancário tradicional é inoperante ou restrito.
Esse contraste é importante porque ilumina uma verdade sobre o mercado cripto: a adoção não é uniforme e depende do contexto institucional. Em países com sistemas financeiros sólidos, cripto compete com alternativas já confiáveis. Em países com infraestrutura financeira precária, stablecoins não são especulação, são sobrevivência.
O Brasil ocupa uma posição intermediária. O sistema financeiro é sofisticado e o Pix revolucionou pagamentos, mas a demanda por dolarização via stablecoins cresce de forma consistente, como discutimos na editoria de finanças. Segundo dados do Banco Central, o volume de stablecoins transacionadas no país superou as remessas tradicionais em determinados trimestres de 2024.
O risco da captura regulatória
A ciência política tem um nome para o que está acontecendo: captura regulatória. Ocorre quando o setor regulado exerce influência desproporcional sobre o regulador, a ponto de as regras serem desenhadas para beneficiar incumbentes em vez de proteger o público.
No caso cripto americano, o risco é duplo. De um lado, há a captura direta, com conflitos de interesse na cúpula do poder. De outro, há a captura indireta, com uma legislação que pode ser tão permissiva que falhe em proteger investidores de varejo contra fraudes e manipulação de mercado.
O mercado celebrou quando a SEC recuou de ações contra grandes exchanges e quando o Congresso começou a aprovar leis favoráveis. Mas a pesquisa da CoinDesk mostra que vitórias políticas não se traduzem automaticamente em legitimidade. Se a regulação cripto americana for percebida como produto de captura, sua durabilidade será frágil.
O que isso significa para quem investe
Para investidores, o recado é de cautela estrutural. O ambiente regulatório favorável nos EUA pode ser temporário se não conquistar apoio popular. Mudanças de governo, especialmente em um cenário de baixa prioridade eleitoral para cripto, podem reverter avanços rapidamente.
A diversificação geográfica de exposição regulatória ganha importância. Europa, com o MiCA já operacional, e Brasil, com o marco cripto e o Drex em desenvolvimento, oferecem ambientes regulatórios que, embora mais restritivos, foram construídos com maior legitimidade institucional, tema que acompanhamos de perto na cobertura de tecnologia.
A ironia do momento cripto americano é que o setor conseguiu o governo que queria, mas perdeu algo que não sabia que precisava: a confiança pública de que as regras do jogo são justas.