Berkshire sem Buffett: o que muda na maior holding do mundo
Warren Buffett deixa o comando da Berkshire Hathaway após seis décadas. Entenda o que a transição significa para o mercado e para quem investe.
Warren Buffett anunciou que deixará o cargo de CEO da Berkshire Hathaway no final de 2025, passando o bastão para Greg Abel. A notícia, revelada durante a reunião anual de acionistas em Omaha neste fim de semana, marca o fim de uma era de seis décadas à frente de uma das empresas mais valiosas do planeta.
A Berkshire vale cerca de US$ 1,1 trilhão. Sob a gestão de Buffett, as ações Classe A saíram de US$ 19 em 1965 para mais de US$ 770 mil hoje. É um retorno composto de aproximadamente 20% ao ano, contra cerca de 10% do S&P 500 no mesmo período. Nenhum gestor na história conseguiu bater o mercado por tanto tempo.
O que Greg Abel herda e por que isso importa
Greg Abel, canadense de 62 anos, comanda a divisão de energia e operações não-seguradoras da Berkshire desde 2018. Ele foi apontado publicamente como sucessor em 2021, mas até agora operava à sombra de Buffett. A partir de janeiro, terá diante de si um portfólio que inclui participações relevantes em Apple, American Express, Coca-Cola e Bank of America, além de dezenas de empresas controladas integralmente.
O desafio imediato é o caixa. A Berkshire encerrou o primeiro trimestre de 2026 com cerca de US$ 347 bilhões em caixa e equivalentes, segundo relatórios recentes. Buffett justificou a posição conservadora dizendo que o mercado vive um “humor de cassino” e que “nunca tivemos pessoas tão propensas a apostar como agora”. A frase resume a filosofia que guiou décadas de alocação disciplinada.
Para Abel, a questão é: quando e como empregar esse capital. A dinâmica dos mercados financeiros globais mudou. Juros estruturalmente mais altos nos EUA, tensões comerciais com a China e a ascensão de ativos alternativos como criptomoedas criam um cenário diferente daquele em que Buffett fez suas maiores apostas.
O mercado de cassino que Buffett enxerga
A declaração de Buffett sobre o comportamento especulativo dos mercados não é retórica vazia. O volume de opções de curto prazo (0DTE, ou zero days to expiration) nos EUA bateu recordes em 2025 e segue elevado. ETFs alavancados e memecoins atraem capital de varejo com promessas de ganhos rápidos. O VIX, índice de volatilidade, operou em patamares historicamente baixos durante boa parte dos últimos meses, sugerindo complacência.
Buffett sempre foi vocal contra o que considera excesso especulativo. Em 2000, recusou investir em empresas de tecnologia sem lucro. Em 2008, comprou Goldman Sachs em condições privilegiadas enquanto o mercado entrava em pânico. O padrão é claro: acumular caixa nos momentos de euforia e agir nos momentos de medo. Abel herda essa filosofia, mas também herda a pressão de acionistas que questionam o custo de oportunidade de US$ 347 bilhões parados.
Como analisamos na cobertura sobre estratégias de grandes gestores e alocação de portfólio, a postura de caixa da Berkshire contrasta com a de outras grandes gestoras, que aumentaram exposição a renda variável e ativos digitais nos últimos 18 meses.
O que muda na prática para quem investe
A resposta curta: provavelmente pouco no curto prazo. A Berkshire opera de forma descentralizada. Cada subsidiária tem gestão própria. A GEICO continua vendendo seguros. A BNSF continua transportando carga. A Dairy Queen continua vendendo sorvetes. A máquina operacional não depende de Buffett.
O que depende de Buffett é a alocação de capital, especialmente as grandes aquisições. Abel já demonstrou competência operacional, mas nunca fez uma compra do porte da aquisição da Burlington Northern (US$ 44 bilhões em 2009) ou da Precision Castparts (US$ 37 bilhões em 2015). O mercado vai observar seu primeiro grande movimento com lupa.
Outro ponto relevante é a comunicação. As cartas anuais de Buffett aos acionistas são documentos lidos por milhões de investidores. Elas moldaram a cultura de investimento em valor por gerações. Abel terá que encontrar sua própria voz, e isso importa mais do que parece. A confiança dos acionistas da Berkshire é em parte racional (resultados) e em parte emocional (a figura de Buffett).
O legado em números e a lição que fica
Buffett transformou US$ 10 mil investidos em 1965 em mais de US$ 400 milhões hoje. Fez isso sem alavancagem excessiva, sem derivativos complexos e sem seguir modas. A filosofia era simples: comprar bons negócios a preços razoáveis e segurá-los por décadas.
Essa abordagem parece antiquada num mercado dominado por algoritmos, day traders e inteligência artificial. Mas os números falam por si. A história dos grandes ciclos financeiros mostra que a paciência disciplinada costuma vencer a especulação no longo prazo.
Para o investidor brasileiro, a transição na Berkshire é uma oportunidade de reflexão. Com a Selic a 14,50% ao ano, a tentação de ficar na renda fixa é enorme. Mas Buffett construiu fortuna justamente comprando ativos produtivos quando ninguém queria. A questão não é copiar as ações dele, mas absorver o princípio: ter convicção quando os outros têm medo, e cautela quando os outros são gananciosos.
Abel tem a máquina. Agora precisa provar que também tem a visão.