Finanças

Berkshire sem Buffett: o que muda para investidores

Com ações em queda e Greg Abel no comando, a primeira reunião anual da Berkshire sem Buffett como CEO testa a tese de que o legado sobrevive ao fundador.

Berkshire sem Buffett: o que muda para investidores
Foto: Gupta Sahil / Unsplash

A conferência anual da Berkshire Hathaway deste fim de semana marca um ponto de inflexão que o mercado financeiro vinha antecipando há pelo menos uma década. Pela primeira vez em seis décadas, Warren Buffett não ocupa a cadeira de CEO. Greg Abel, o executivo canadense de 62 anos que comandava as operações não ligadas a seguros, agora responde pelo conglomerado de US$ 1 trilhão.

O momento não é trivial. As ações classe B da Berkshire acumulam queda de cerca de 5% desde o anúncio formal da transição, enquanto o S&P 500 renovou máximas históricas na última sessão. A divergência levanta uma pergunta que todo investidor com exposição ao conglomerado precisa responder: o prêmio Buffett já se dissipou?

O que a queda das ações realmente sinaliza

Parte da tese de investimento na Berkshire sempre foi, na prática, uma aposta na capacidade de alocação de capital de uma única pessoa. Buffett transformou uma tecelagem moribunda em um império que engloba seguros, ferrovias, energia e participações bilionárias em Apple, Coca-Cola e American Express. O retorno composto anual de cerca de 20% ao longo de quase 60 anos não tem paralelo na história dos mercados.

A questão é que boa parte desse retorno excepcional ocorreu nas primeiras décadas. Nos últimos dez anos, a Berkshire entregou retorno médio anual próximo de 15%, ainda acima do S&P 500, mas com margem menor. Como discutimos em análises anteriores sobre o mercado financeiro americano, conglomerados dessa escala enfrentam a lei dos grandes números: com quase US$ 190 bilhões em caixa no último balanço, encontrar oportunidades que movam a agulha é cada vez mais difícil.

A queda recente das ações, portanto, não reflete medo de colapso. Reflete o mercado recalibrando quanto vale a Berkshire sem o fator intangível de ter Buffett no comando diário.

Greg Abel e o desafio da alocação de capital

Abel não é um desconhecido. Ele comanda a Berkshire Hathaway Energy desde 2008 e foi promovido a vice-chairman de operações não relacionadas a seguros em 2018. Conhece a cultura da empresa. Mas sua especialidade é operacional, não a alocação de capital que definiu o legado de Buffett.

Buffett deixou claro em cartas aos acionistas que Abel terá autoridade plena para decisões de investimento, mas também sinalizou que Todd Combs e Ted Weschler, os dois gestores de portfólio internos, terão papel ampliado. Na prática, a Berkshire caminha para um modelo mais institucional de governança de investimentos, algo que se assemelha mais a um fundo soberano do que ao veículo pessoal de um gênio.

Para o investidor brasileiro que acompanha o mercado americano, essa transição é relevante. A Berkshire é uma das posições mais comuns em carteiras de longo prazo, tanto diretamente quanto via ETFs como o SPY, onde a empresa tem peso significativo. Uma eventual compressão de múltiplo pode criar oportunidade, mas também exige reavaliação de tese, como abordamos em nossa cobertura sobre alocação internacional.

O caixa de US$ 190 bilhões: bomba ou munição

O elefante na sala é o caixa recorde. Buffett vinha acumulando reservas de forma agressiva nos últimos trimestres, vendendo inclusive parte significativa da posição em Apple. A leitura mais generosa é que ele preparou o terreno para Abel ter munição. A leitura mais cética é que nem Buffett encontrava valuations atrativos nos últimos dois anos.

Se Abel optar por recompras agressivas de ações, o mercado tende a reagir positivamente no curto prazo. Se mantiver o caixa elevado esperando uma correção que pode não vir, a pressão dos acionistas deve aumentar. O primeiro grande movimento de alocação de Abel será, na prática, sua carta de apresentação ao mercado.

Vale lembrar que a montanha de caixa da Berkshire é majoritariamente alocada em títulos do Tesouro americano de curto prazo. Com os juros dos Fed Funds ainda em patamar restritivo, esse caixa gera rendimento real positivo. Não é dinheiro parado, mas também não é o tipo de retorno que justifica o valuation de um conglomerado.

Lições da sucessão para o mercado brasileiro

A transição na Berkshire oferece um caso de estudo relevante para empresas brasileiras com fundadores dominantes. No mercado local, companhias como Weg, Localiza e até bancos como o Itaú passaram por processos semelhantes, com resultados mistos. A evidência histórica sugere que empresas com governança institucionalizada tendem a preservar valor melhor do que aquelas excessivamente dependentes de um líder carismático.

O primeiro teste real de Abel será a conferência deste sábado. O formato Q&A, marca registrada de Buffett, será mantido, mas o tom inevitavelmente mudará. Investidores estarão atentos menos às respostas específicas e mais à capacidade de Abel de transmitir a mesma clareza de pensamento que definiu seis décadas de reuniões em Omaha.

Para quem investe no mercado americano, o conselho prático é resistir ao impulso de vender na transição. Historicamente, sucessões em conglomerados bem estruturados geram volatilidade de curto prazo seguida de estabilização. O risco real não é Abel ser ruim. É a Berkshire se tornar apenas mais uma empresa grande num mercado que premia crescimento acelerado.

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Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
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