Canadá quer banir caixas eletrônicos de Bitcoin
Governo canadense propõe eliminar ATMs de cripto do país. O alvo são fraudes que já causaram prejuízos de centenas de milhões de dólares.
O Canadá pode se tornar o primeiro país do G7 a banir completamente caixas eletrônicos de criptomoedas. O governo federal incluiu a proposta em um pacote regulatório mais amplo voltado ao combate de fraudes financeiras, mirando diretamente os ATMs de Bitcoin que operam em farmácias, postos de gasolina e shoppings do país.
A medida não surge do nada. Segundo dados do Canadian Anti-Fraud Centre, golpes envolvendo ATMs de cripto geraram perdas de 62 milhões de dólares canadenses apenas em 2025. A cifra representa um salto de 300% em três anos. Para o governo, os caixas se tornaram o canal preferido de estelionatários que convencem vítimas a depositar dinheiro “para resolver problemas com a Receita” ou “desbloquear contas bancárias”.
Por que os ATMs de cripto viraram alvo
O Canadá tem a segunda maior rede de ATMs de criptomoedas do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. São mais de 3.000 máquinas espalhadas por todas as províncias, operadas por empresas como Localcoin, Bitcoin Well e Instacoin.
O problema não é a tecnologia em si, mas a assimetria de uso. Enquanto o argumento original para esses caixas era democratizar o acesso a criptoativos, os dados mostram que uma parcela significativa das transações está ligada a atividades ilícitas. O perfil típico da vítima é uma pessoa idosa, com pouca familiaridade digital, que recebe uma ligação fraudulenta e é instruída a ir até um ATM de Bitcoin para “resolver” a situação.
A mecânica é simples e eficaz para o criminoso: a vítima deposita dinheiro físico, recebe um recibo, e os fundos são convertidos em cripto e enviados para uma carteira controlada pelo golpista. A transação é praticamente irreversível. Diferente de uma transferência bancária, não há como o banco bloquear ou reverter o pagamento.
O debate regulatório: banimento total ou regras mais rígidas
A proposta canadense divide opiniões. De um lado, o setor cripto argumenta que banir os ATMs é como fechar agências bancárias porque existem fraudes com cheques. A Localcoin, maior operadora do país, publicou uma carta aberta pedindo que o governo adote limites de transação e verificação de identidade obrigatória em vez de uma proibição total.
Do outro lado, autoridades policiais apontam que medidas intermediárias já foram tentadas. Em 2024, a província de Alberta implementou limites de 1.000 dólares canadenses por transação e exigência de KYC (verificação de identidade). As fraudes caíram 40% na região, mas os golpistas migraram para províncias com regras mais frouxas.
O padrão de “arbitragem regulatória” fortaleceu o argumento do governo federal por uma medida uniforme e mais drástica. Se cada província tem uma regra diferente, o criminoso simplesmente muda de endereço.
O que acontece em outros países
A decisão canadense não existe em isolamento. O Reino Unido restringiu severamente ATMs de cripto em 2023, e a Financial Conduct Authority (FCA) considera a maioria das máquinas que ainda operam como ilegais. Na Alemanha, a BaFin exige licença bancária para operar caixas, o que reduziu o número de máquinas para menos de 100 no país inteiro.
Nos Estados Unidos, a abordagem é diferente. A FinCEN trata os operadores de ATMs como money service businesses (MSBs), exigindo registro e conformidade com leis anti-lavagem. No entanto, a fiscalização é desigual entre estados. A Califórnia impôs limites de 1.000 dólares por dia, enquanto estados como Texas e Florida têm regulação mais permissiva.
O movimento canadense pode criar um efeito dominó. Reguladores europeus já observam o caso com atenção, especialmente no contexto do MiCA (Markets in Crypto-Assets), que entrou em vigor em 2025 e ainda não aborda explicitamente ATMs de cripto.
Impacto para o mercado cripto e stablecoins
Em termos de volume, os ATMs representam uma fração pequena do mercado global de cripto. Segundo dados da Coin ATM Radar, o volume total processado por essas máquinas no mundo gira em torno de 5 bilhões de dólares anuais, cifra irrelevante quando comparada aos trilhões movimentados em exchanges.
O impacto real é simbólico e narrativo. Os ATMs de Bitcoin eram um dos poucos pontos de contato físico entre o mundo cripto e o público geral. Sua eliminação em um mercado relevante como o Canadá reforça a tese de que o futuro da adoção cripto passa por canais digitais regulados, como stablecoins e tokenização de ativos, e não por infraestrutura física.
É irônico, mas previsível. A mesma Venezuela que usa stablecoins para contornar sanções, como relatado pela Blockworks, ilustra que a adoção real de cripto acontece no celular, não em uma máquina instalada ao lado de um caixa de lotérica.
O que isso significa para o Brasil
O Brasil tem pouco mais de 100 ATMs de cripto, número marginal se comparado ao Canadá. A CVM e o Banco Central ainda não regulamentaram especificamente essas máquinas, mas o Marco Legal das Criptomoedas de 2023 estabelece que qualquer atividade de intermediação de criptoativos precisa de autorização.
Se o Canadá seguir adiante com o banimento, é provável que o tema entre na agenda da regulamentação brasileira. Não necessariamente como proibição, mas como exigência de conformidade que pode tornar o negócio inviável economicamente para operadores menores. O precedente internacional, mais do que a realidade local, tende a moldar o debate por aqui.