Finanças

S&P 500 e Nasdaq renovam recordes: o que explica a euforia

Wall Street fechou em máximas históricas após dados de emprego acima do esperado nos EUA. Entenda o que sustenta o rali e os riscos à frente.

S&P 500 e Nasdaq renovam recordes: o que explica a euforia
Foto: DΛVΞ GΛRCIΛ / Unsplash

O S&P 500 e o Nasdaq fecharam em máximas históricas nesta sexta-feira, impulsionados por um relatório de emprego nos Estados Unidos que superou todas as expectativas do mercado. O payroll de abril registrou a criação de 268 mil vagas, bem acima das 180 mil projetadas pelo consenso de analistas compilado pela Bloomberg.

O S&P 500 avançou 1,47%, encerrando aos 5.892 pontos. O Nasdaq Composite subiu 1,74%, puxado por papéis ligados a inteligência artificial e semicondutores. O Dow Jones também acompanhou, com alta de 1,18%. Foi a quinta sessão consecutiva de ganhos para os três índices.

Por que o payroll forte animou tanto o mercado?

Em ciclos anteriores, dados de emprego acima do esperado costumavam assustar investidores. A lógica era simples: mercado de trabalho aquecido significava mais pressão inflacionária e, portanto, juros altos por mais tempo. Desta vez, a narrativa mudou.

A taxa de desemprego se manteve em 4,1%, dentro da banda que o Federal Reserve considera saudável. Mais importante: o salário médio por hora subiu apenas 0,2% na comparação mensal, abaixo dos 0,3% esperados. Ou seja, o mercado de trabalho segue gerando vagas sem pressionar a inflação salarial.

Esse é o cenário que Wall Street mais celebra: crescimento econômico robusto, mas sem gatilhos para o Fed adiar os cortes de juros. Os contratos futuros de Fed Funds agora precificam dois cortes de 25 pontos-base até dezembro, contra 1,5 corte precificado na semana anterior, segundo dados do CME FedWatch.

Inteligência artificial puxa os ganhos do Nasdaq

A composição da alta no Nasdaq revela muito sobre o que está movendo Wall Street neste momento. Nvidia subiu 3,8%, retomando o patamar de US$ 1,2 trilhão em valor de mercado. Broadcom avançou 4,1%. Microsoft e Alphabet, que reportaram resultados fortes na semana, subiram 2,3% e 1,9%, respectivamente.

O setor de tecnologia responde por cerca de 32% do peso do S&P 500. Quando essas ações sobem em bloco, como aconteceu na sessão de hoje, o índice inteiro é arrastado para cima. Não por acaso, o tema de inteligência artificial segue como principal vetor de valorização das bolsas americanas em 2026.

Há um dado que ilustra bem essa concentração: as chamadas “Magnificent Seven” (Nvidia, Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Tesla) acumulam alta média de 28% no ano, enquanto o restante do S&P 500 sobe cerca de 7%. A diferença de desempenho se ampliou nas últimas semanas.

Ibovespa sobe, mas não acompanha o ritmo

No Brasil, o Ibovespa fechou em alta de 0,49%, aos 131.200 pontos, recuperando parte do tombo da véspera. Ainda assim, o índice acumula queda de 1,2% na semana. O descolamento em relação a Wall Street tem se acentuado desde março.

Os motivos são conhecidos: incerteza fiscal doméstica, a Selic ainda em 14,75% ao ano e a falta de catalisadores de curto prazo para a bolsa brasileira. Enquanto investidores de renda variável no Brasil convivem com volatilidade elevada, o capital global migra para ativos americanos com mais convicção.

O dólar recuou para R$ 5,62, o menor patamar desde janeiro de 2024. A queda reflete, em parte, o apetite por risco global, mas também a entrada de fluxo estrangeiro para renda fixa brasileira, atraído pelo diferencial de juros. O movimento no câmbio não necessariamente significa otimismo com o Brasil: é mais uma operação de carry trade.

Quais são os riscos para o investidor brasileiro

O rali de Wall Street já dura cinco semanas. Em cenários assim, a tentação de perseguir a alta é grande. Mas há sinais de cautela que merecem atenção.

Primeiro, a concentração em poucas ações torna o mercado vulnerável. Se Nvidia ou Microsoft decepcionarem em qualquer trimestre, o efeito cascata pode ser significativo. Segundo, as tensões geopolíticas não desapareceram. Como analisamos na cobertura sobre a tensão EUA-Irã, eventos exógenos podem reverter o sentimento de mercado rapidamente.

O múltiplo preço/lucro do S&P 500 está em 22,4 vezes, acima da média histórica de 18,6 vezes dos últimos 20 anos. Não significa que o mercado vai cair amanhã, mas indica que boa parte do crescimento esperado já está no preço.

Para quem investe a partir do Brasil, o câmbio adiciona outra camada de risco. O dólar a R$ 5,62 pode parecer um bom ponto de entrada, mas ninguém garante que não volte a R$ 6,00 diante de qualquer ruído fiscal ou geopolítico.

O que esperar nas próximas semanas

A agenda de maio concentra dois eventos decisivos: a decisão de juros do Fed no dia 14 e os dados de inflação ao consumidor (CPI) no dia 13. Se o CPI vier comportado, o mercado pode consolidar as máximas atuais e abrir espaço para novas altas.

Por outro lado, qualquer surpresa inflacionária jogaria água fria na expectativa de cortes. E o mercado, precificando dois cortes, está otimista. Quando o consenso está muito alinhado em uma direção, o risco de frustração aumenta proporcionalmente.

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Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
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