S&P 500 renova recorde: o que sustenta Wall Street em meio à tensão global
S&P 500 e Nasdaq batem novas máximas históricas apesar do conflito no Oriente Médio. Entenda o que sustenta o rali e quais riscos o mercado ignora.
O S&P 500 e o Nasdaq renovaram suas máximas históricas nesta semana, com altas acumuladas superiores a 18% e 22% no ano, respectivamente. O dado chama atenção por um motivo simples: o cenário geopolítico não melhorou. As tensões no Oriente Médio se intensificaram, com o Irã negando autoria de ataques aos Emirados Árabes e ameaçando retaliação. Mesmo assim, o mercado subiu.
A pergunta que qualquer investidor deveria fazer não é “por que a bolsa sobe”, mas sim: o que exatamente o mercado está precificando ao ignorar riscos que, historicamente, derrubariam índices?
Lucros corporativos compensam o risco geopolítico
A resposta mais direta está nos balanços. A temporada de resultados do primeiro trimestre nos Estados Unidos trouxe surpresas positivas em mais de 75% das empresas do S&P 500 que já reportaram, segundo dados da FactSet. O lucro por ação agregado do índice cresceu cerca de 12% na comparação anual, acima das estimativas de consenso de 9,5%.
Gigantes como Apple, Microsoft e Alphabet entregaram números que reforçam a tese de que a revolução da inteligência artificial não é apenas narrativa. Os investimentos em infraestrutura de IA das big techs somaram mais de US$ 80 bilhões no trimestre, e boa parte desse gasto já se traduz em receita recorrente. Como mostramos em nossa cobertura de tecnologia, a corrida por dominância em IA segue como o principal motor de valorização do setor.
A Ambev, referência para investidores brasileiros expostos a ações globais, também surpreendeu positivamente, com volume de cerveja crescendo e a ação disparando na B3. O padrão se repete: fundamentos fortes blindam o mercado contra ruídos de curto prazo.
O papel do Fed na sustentação do rali
Outro pilar do otimismo é a expectativa em torno da política monetária. O mercado de futuros do CME precifica pelo menos dois cortes de juros pelo Federal Reserve até o fim do ano, com probabilidade superior a 60% de que o primeiro ocorra em setembro.
A inflação americana desacelerou para 2,4% no acumulado de 12 meses, segundo o último dado do PCE, a métrica preferida do Fed. Não é exatamente a meta de 2%, mas está perto o suficiente para que Jerome Powell sinalize conforto com a trajetória. Os pedidos de seguro-desemprego permanecem estáveis na faixa de 220 mil por semana, afastando o cenário de recessão que parte do mercado temia no início do ano.
Essa combinação de inflação em queda com emprego resiliente é o chamado “pouso suave” que Wall Street persegue há dois anos. Como analisamos na editoria de finanças, o mercado tende a precificar cenários favoráveis com antecedência, o que ajuda a explicar a aparente desconexão entre manchetes negativas e índices em alta.
Os riscos que o mercado escolhe ignorar
A história, porém, mostra que mercados não sobem indefinidamente ignorando riscos geopolíticos. Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o S&P 500 caiu 19% ao longo do ano. A diferença é que, naquele momento, a inflação estava em 8% e o Fed subia juros agressivamente. Hoje, o cenário macroeconômico doméstico americano é mais favorável.
Ainda assim, há sinais de alerta. O índice de volatilidade VIX, que mede o “medo” do mercado, opera ao redor de 13, bem abaixo da média histórica de 20. Quando a volatilidade implícita cai tanto, qualquer choque inesperado tende a provocar movimentos mais bruscos. Um escalada no Oriente Médio que afete o preço do petróleo, por exemplo, poderia mudar rapidamente a equação inflacionária.
Outro ponto é a concentração. As chamadas “Magnificent Seven” (Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Nvidia, Meta e Tesla) respondem por cerca de 30% do peso do S&P 500. Se alguma dessas empresas tropeçar, o impacto no índice é desproporcional. A análise que fizemos sobre Nvidia e o paradoxo da IA ilustra bem como o mercado deposita expectativas elevadas nessas companhias.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Para quem investe a partir do Brasil, o cenário exige atenção em duas frentes. Primeiro, o real se fortaleceu cerca de 5% frente ao dólar no ano, o que reduz o retorno em reais de quem tem exposição direta a ativos americanos. Segundo, o diferencial de juros entre Brasil e EUA continua elevado, com a Selic em 14,75% contra os Fed Funds em 5,25%-5,50%.
Isso cria um dilema clássico: ações americanas oferecem crescimento, mas o custo de oportunidade de sair da renda fixa brasileira é alto. ETFs como o IVVB11, que replica o S&P 500 na B3, acumulam alta de 13% em reais no ano, abaixo do CDI no período. A decisão depende do horizonte: quem investe pensando em 5 a 10 anos provavelmente se beneficia da exposição ao crescimento americano, especialmente no setor de tecnologia.
O fato é que Wall Street segue sustentada por uma combinação rara de lucros fortes, perspectiva de corte de juros e apetite por risco. Quanto tempo essa fórmula se mantém diante de um cenário global cada vez mais instável é a questão que nenhum modelo consegue responder com precisão.