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S&P 500 renova recorde: o que sustenta Wall Street em meio à tensão global

S&P 500 e Nasdaq batem novas máximas históricas apesar do conflito no Oriente Médio. Entenda o que sustenta o rali e quais riscos o mercado ignora.

S&P 500 renova recorde: o que sustenta Wall Street em meio à tensão global
Foto: Pixabay / Unsplash

O S&P 500 e o Nasdaq renovaram suas máximas históricas nesta semana, com altas acumuladas superiores a 18% e 22% no ano, respectivamente. O dado chama atenção por um motivo simples: o cenário geopolítico não melhorou. As tensões no Oriente Médio se intensificaram, com o Irã negando autoria de ataques aos Emirados Árabes e ameaçando retaliação. Mesmo assim, o mercado subiu.

A pergunta que qualquer investidor deveria fazer não é “por que a bolsa sobe”, mas sim: o que exatamente o mercado está precificando ao ignorar riscos que, historicamente, derrubariam índices?

Lucros corporativos compensam o risco geopolítico

A resposta mais direta está nos balanços. A temporada de resultados do primeiro trimestre nos Estados Unidos trouxe surpresas positivas em mais de 75% das empresas do S&P 500 que já reportaram, segundo dados da FactSet. O lucro por ação agregado do índice cresceu cerca de 12% na comparação anual, acima das estimativas de consenso de 9,5%.

Gigantes como Apple, Microsoft e Alphabet entregaram números que reforçam a tese de que a revolução da inteligência artificial não é apenas narrativa. Os investimentos em infraestrutura de IA das big techs somaram mais de US$ 80 bilhões no trimestre, e boa parte desse gasto já se traduz em receita recorrente. Como mostramos em nossa cobertura de tecnologia, a corrida por dominância em IA segue como o principal motor de valorização do setor.

A Ambev, referência para investidores brasileiros expostos a ações globais, também surpreendeu positivamente, com volume de cerveja crescendo e a ação disparando na B3. O padrão se repete: fundamentos fortes blindam o mercado contra ruídos de curto prazo.

O papel do Fed na sustentação do rali

Outro pilar do otimismo é a expectativa em torno da política monetária. O mercado de futuros do CME precifica pelo menos dois cortes de juros pelo Federal Reserve até o fim do ano, com probabilidade superior a 60% de que o primeiro ocorra em setembro.

A inflação americana desacelerou para 2,4% no acumulado de 12 meses, segundo o último dado do PCE, a métrica preferida do Fed. Não é exatamente a meta de 2%, mas está perto o suficiente para que Jerome Powell sinalize conforto com a trajetória. Os pedidos de seguro-desemprego permanecem estáveis na faixa de 220 mil por semana, afastando o cenário de recessão que parte do mercado temia no início do ano.

Essa combinação de inflação em queda com emprego resiliente é o chamado “pouso suave” que Wall Street persegue há dois anos. Como analisamos na editoria de finanças, o mercado tende a precificar cenários favoráveis com antecedência, o que ajuda a explicar a aparente desconexão entre manchetes negativas e índices em alta.

Os riscos que o mercado escolhe ignorar

A história, porém, mostra que mercados não sobem indefinidamente ignorando riscos geopolíticos. Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o S&P 500 caiu 19% ao longo do ano. A diferença é que, naquele momento, a inflação estava em 8% e o Fed subia juros agressivamente. Hoje, o cenário macroeconômico doméstico americano é mais favorável.

Ainda assim, há sinais de alerta. O índice de volatilidade VIX, que mede o “medo” do mercado, opera ao redor de 13, bem abaixo da média histórica de 20. Quando a volatilidade implícita cai tanto, qualquer choque inesperado tende a provocar movimentos mais bruscos. Um escalada no Oriente Médio que afete o preço do petróleo, por exemplo, poderia mudar rapidamente a equação inflacionária.

Outro ponto é a concentração. As chamadas “Magnificent Seven” (Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Nvidia, Meta e Tesla) respondem por cerca de 30% do peso do S&P 500. Se alguma dessas empresas tropeçar, o impacto no índice é desproporcional. A análise que fizemos sobre Nvidia e o paradoxo da IA ilustra bem como o mercado deposita expectativas elevadas nessas companhias.

O que isso significa para o investidor brasileiro

Para quem investe a partir do Brasil, o cenário exige atenção em duas frentes. Primeiro, o real se fortaleceu cerca de 5% frente ao dólar no ano, o que reduz o retorno em reais de quem tem exposição direta a ativos americanos. Segundo, o diferencial de juros entre Brasil e EUA continua elevado, com a Selic em 14,75% contra os Fed Funds em 5,25%-5,50%.

Isso cria um dilema clássico: ações americanas oferecem crescimento, mas o custo de oportunidade de sair da renda fixa brasileira é alto. ETFs como o IVVB11, que replica o S&P 500 na B3, acumulam alta de 13% em reais no ano, abaixo do CDI no período. A decisão depende do horizonte: quem investe pensando em 5 a 10 anos provavelmente se beneficia da exposição ao crescimento americano, especialmente no setor de tecnologia.

O fato é que Wall Street segue sustentada por uma combinação rara de lucros fortes, perspectiva de corte de juros e apetite por risco. Quanto tempo essa fórmula se mantém diante de um cenário global cada vez mais instável é a questão que nenhum modelo consegue responder com precisão.

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Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
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