Resumo
👉 Recentemente, grandes entidades, como o governo alemão e o governo dos EUA, venderam grandes quantidades de Bitcoin, contribuindo para a pressão vendedora;
👉 A distribuição de moedas do fundo de reabilitação da Mt. Gox também impactou negativamente o sentimento do mercado;
👉 O preço do Bitcoin tem sido intensamente disputado na faixa entre 60 e 65 mil dólares, com muitos investidores de curto prazo enfrentando prejuízos;
👉 A atual pressão vendedora no Bitcoin é influenciada por um sentimento global de aversão ao risco, exacerbado por questões macroeconômicas e a alta probabilidade de recessão nos EUA;
👉 Indicadores como o aumento das falências de empresas e a inadimplência nos empréstimos ao consumidor nos EUA refletem uma redução significativa na atividade econômica;
👉 A volatilidade no mercado norte-americano, medida pelo VIX, atingiu recentemente níveis elevados, refletindo a fragilidade da economia global;
👉 Apesar da pressão, o Bitcoin teve uma valorização de 40% em 2024, mostrando resiliência e superando o desempenho de várias commodities e índices globais;
👉 A análise sazonal sugere que, após um setembro difícil, o último trimestre de 2024 pode ser mais favorável para o Bitcoin, com potencial de novas altas até 2025;
👉 A liquidez monetária global, influenciada pelos maiores bancos centrais, segue ciclos que podem impactar a precificação do Bitcoin, com um possível topo de mercado em 2025;
👉 A perspectiva otimista para o Bitcoin está condicionada à gravidade da próxima recessão, cujos impactos são incertos;
👉 A estratégia recomendada é de acumulação contínua de Bitcoin, visando a preservação de poder de compra e a criação de riqueza no longo prazo.
Introdução
Neste relatório, abordaremos as razões subjacentes à recente pressão vendedora sobre o Bitcoin, analisando tanto fatores internos, como grandes movimentações de moedas por instituições, quanto fatores externos, incluindo questões macroeconômicas globais e sazonalidade.
Exploraremos como esses elementos têm impactado a precificação do Bitcoin, o que esperar nos próximos meses, e como a liquidez global e a sazonalidade podem influenciar o mercado até o final de 2024 e além.
Ao final, destacaremos a importância de uma estratégia de longo prazo focada na acumulação de Bitcoin, em meio a um cenário de incertezas e potenciais oportunidades.
Vamos lá!
Um mercado sob pressão
Quando o preço do Bitcoin cai, muitos tentam identificar um evento ou fator específico que possa justificar a queda. No entanto, de maneira simplista, o preço do Bitcoin se ajusta conforme a pressão vendedora supera a compradora, ou vice-versa. Embora em teoria, para cada comprador exista um vendedor, o preço é determinado pela interação nos livros de ofertas das exchanges, onde a profundidade e liquidez variam constantemente.
Quando há maior demanda, o preço avança à medida que ordens de venda com menor liquidez são preenchidas, e vice-versa. No entanto, a questão central é: o que motiva essas pessoas a venderem Bitcoin?
Recentemente, o mercado tem enfrentado uma pressão vendedora significativa, influenciada por diversos fatores. Instituições e grandes entidades, como o governo alemão, que vendeu cerca de 50 mil Bitcoins apreendidos, e o governo dos Estados Unidos, que intensificou a venda de mais de 10 mil Bitcoins, contribuíram para essa pressão. Além disso, a distribuição de mais de 100 mil Bitcoins do fundo de reabilitação da Mt. Gox, uma questão de longa data no mercado, também impactou o sentimento.
Essas vendas, em grande parte, não afetam apenas pela quantidade de moedas movimentadas, mas também pelo impacto psicológico que essas notícias têm sobre os investidores, aumentando a pressão vendedora no mercado.
A pressão de venda exercida por essas grandes movimentações de Bitcoins, como as moedas distribuídas recentemente, foi ainda mais intensificada devido à faixa de preço em que essas vendas ocorreram. Observamos uma lateralização com tendência de baixa entre os 60 e 70 mil dólares, que se alinha com a distribuição do custo médio de aquisição das moedas por faixa de idade dentro da rede do Bitcoin.
Os 60 mil dólares representam uma região psicológica e técnica crucial para o preço do Bitcoin. Isso ocorre porque cerca de 80% dos Bitcoins em circulação têm um custo médio de aquisição abaixo desse valor, o que significa que a maioria dos investidores está em lucro quando o preço está acima de 60 mil dólares.
No entanto, essa realidade é diferente quando analisamos os investidores de curto prazo: apenas 27% desses investidores têm um custo base abaixo de 60 mil dólares. Isso significa que a maioria dos investidores de curto prazo está em prejuízo quando o Bitcoin é negociado nessa faixa.
Contudo, a situação muda significativamente se o preço do Bitcoin subir para 65 mil dólares. Nesse caso, a proporção de investidores de curto prazo que estaria em lucro aumenta para 61%, saindo de uma posição predominantemente negativa.
Essa faixa entre 60 e 65 mil dólares tem sido intensamente disputada nos últimos meses, pois quando o preço do Bitcoin cai para próximo de 60 mil dólares ou abaixo, observamos eventos de capitulação devido ao alto nível de prejuízo que os investidores de curto prazo estão enfrentando.
Além dos fatores internos do mercado de Bitcoin, como a distribuição de moedas pelas grandes entidades mencionadas anteriormente, a atual pressão vendedora no Bitcoin também está fortemente influenciada por um sentimento generalizado de aversão ao risco em todo o mundo. Esse sentimento é principalmente derivado de questões macroeconômicas que temos discutido em relatórios anteriores do BlockTrends PRO, como a redução na atividade econômica e o aumento da probabilidade de uma recessão nos Estados Unidos.
Atualmente, ao medir a probabilidade de recessão com base no spread das curvas de juros de 10 anos e 3 meses, identificamos que estamos na maior probabilidade de recessão desde a década de 1980. Isso provoca um grande receio nos mercados, uma vez que um alto nível de redução da atividade econômica poderia se materializar em breve.
Diversas métricas já indicam essa tendência, como o número de pedidos de falência de empresas nos Estados Unidos, que alcançou 6.276 no segundo trimestre de 2024, o maior nível desde 2017, praticamente dobrando nos últimos dois anos.
Além disso, a taxa de inadimplência nos empréstimos ao consumidor dos bancos comerciais dos EUA está no maior nível desde 2012. Historicamente, aumentos acentuados na taxa de inadimplência coincidem com períodos de menor atividade econômica, o que indica que as pessoas estão enfrentando dificuldades em pagar suas dívidas e cartões de crédito.
Essa incapacidade de honrar dívidas reflete uma redução significativa na atividade econômica e na capacidade de geração de renda, o que por sua vez, resulta em uma menor liquidez tanto no mercado financeiro quanto na economia real. Essa escassez de liquidez frequentemente culmina em períodos de recessão, como observado nas últimas três recessões nos Estados Unidos, onde a alta inadimplência foi um dos precursores do declínio econômico.
Toda essa dinâmica de desaceleração econômica nos Estados Unidos, aliada a outros fatores internacionais, como o aumento das tensões geopolíticas, a desalavancagem no carry trade do yen e outras questões econômicas que têm impactado o mercado nos últimos meses, resultou em um nível significativo de estresse e pressão sobre os preços dos ativos, especialmente no Bitcoin e nos mercados digitais. Mesmo com a recente alta nas ações das empresas norte-americanas, ainda observamos uma considerável pressão de venda e volatilidade.
O índice de volatilidade das ações norte-americanas, conhecido como VIX, atingiu recentemente seu terceiro maior patamar nos últimos 15 anos, ficando atrás apenas dos níveis vistos durante a crise da pandemia em março de 2020 e na crise financeira global no final de 2008. Esse aumento na volatilidade, desencadeado pela desalavancagem do carry trade na moeda japonesa após a elevação das taxas de juros no Japão, conforme discutido em nosso relatório anterior, evidencia um período de fragilidade na economia global, que acaba refletindo na precificação do Bitcoin.
Apesar desse cenário de alta pressão, o Bitcoin ainda apresenta uma valorização significativa de 40% em 2024, demonstrando sua resiliência como um dos melhores ativos do ano. Além disso, no último ano, o Bitcoin acumulou uma valorização de mais de 127%, evidenciando sua capacidade de enfrentar choques macroeconômicos e pressões vendedoras, mantendo-se como uma opção de investimento atraente.
É importante destacar que, mesmo com a atual pressão no mercado, nossa expectativa é que outros fatores possam contribuir para uma nova alta no preço do Bitcoin, os quais serão abordados nos tópicos a seguir.
Fatores de sazonalidade
Outro fator crucial a ser considerado na análise das razões pelas quais o Bitcoin tem enfrentado dificuldades nos últimos seis meses, e que também sustenta uma perspectiva otimista para o final de 2024, está relacionado à sazonalidade — uma dinâmica frequentemente subestimada por analistas e pelo mercado em geral, principalmente devido à escassez de dados históricos suficientes. Com aproximadamente 14 anos de negociação, o Bitcoin já nos permite identificar padrões sazonais que indicam quais são os meses historicamente favoráveis e desfavoráveis para sua performance.
Nos estudos realizados, foi observado que agosto e setembro são, historicamente, os dois piores meses para o Bitcoin, com setembro apresentando um retorno médio de 4,41% negativo e um retorno acumulado de 66,13% de queda. Por outro lado, novembro e abril se destacam como os meses mais positivos, com novembro registrando um retorno médio de 36,1% de alta e um retorno acumulado de mais de 541%, consolidando-se como o melhor mês para o Bitcoin.
Outubro também se mostra promissor, sendo o terceiro melhor mês, posicionando o último trimestre do ano como um dos mais favoráveis para a valorização do Bitcoin. Esses padrões sazonais sugerem que, apesar da possibilidade de um setembro negativo, a partir de outubro podemos entrar em um dos melhores períodos para a precificação do Bitcoin.
Ao analisar a performance trimestral, essa sazonalidade se torna ainda mais evidente, com o terceiro trimestre apresentando um retorno médio modesto de 5,55%, enquanto o quarto trimestre historicamente proporciona um retorno médio de 88,84%.
Vale notar também que, esta visão sazonal é algo similar ao que vemos nos anos de Halving do Bitcoin, apesar de não adotarmos o ciclo de mercado exclusivamente com base neste evento. Note que nos primeiros 365 dias após o halving, é natural que os três primeiros trimestres sejam de valorização limitada, enquanto os últimos três meses registram o melhor desempenho.
Esses fatores reforçam a perspectiva de que o pior período para o Bitcoin pode estar chegando ao fim, abrindo caminho para uma potencial valorização significativa no último trimestre de 2024. Isso está alinhado com a perspectiva de melhora na liquidez global, que abordamos em relatórios anteriores, e que pode impactar positivamente a dinâmica do mercado nos próximos meses.
Exploraremos essa questão da sazonalidade de liquidez global em mais detalhes no próximo tópico, onde traremos uma visão de ciclo diferente do que é comumente entendido através do Halving do Bitcoin..
Ciclo de liquidez
A análise da liquidez global é crucial para entender a precificação do Bitcoin, especialmente quando focamos na liquidez monetária, que se refere à quantidade de dinheiro em circulação nas principais economias globais, gerida pelos maiores bancos centrais. Embora existam outras formas de medir a liquidez, como a liquidez do mercado financeiro que está mais ligada a ativos financeiros do que à economia real, o enfoque na liquidez monetária é preferível, dado que o Bitcoin tem se mostrado um ativo de proteção contra a inflação monetária.
A inflação monetária ocorre quando há um aumento na base monetária, o que dilui o valor de cada unidade monetária, especialmente o dólar, impactando o poder de compra dos indivíduos. Quando analisamos a liquidez monetária dos 22 maiores bancos centrais do mundo, observamos padrões cíclicos, geralmente a cada três/quatro anos, onde a quantidade de dinheiro em circulação aumenta e diminui.
Desde 2010, esses ciclos têm seguido um padrão relativamente consistente, o que, embora ainda seja um período curto para observações definitivas, é o melhor que temos no contexto da existência do Bitcoin.
Esses ciclos de liquidez monetária também se refletem em outros ativos, como as ações do S&P 500, que têm mostrado uma correlação com o nível de dinheiro em circulação nas economias globais. Isso se deve ao que é chamado de “prêmio monetário”, onde o capital é alocado em ativos não tanto para financiar as empresas subjacentes, mas como uma forma de proteção contra a inflação monetária.
Com a ascensão do Bitcoin, o “prêmio monetário” que antes estava alocado em outros ativos começou a migrar para essa commodity digital, caracterizada por sua escassez programada e uma série de vantagens atraentes para a era digital, como a capacidade de transferir valor a qualquer momento com custos relativamente baixos. Essas qualidades fizeram do Bitcoin um dos principais ativos a capturar esse prêmio monetário, desmonetizando outros ativos e continuando a fazê-lo nos próximos anos.
O Bitcoin tem mostrado uma forte correlação com os impulsos e as contrações na liquidez monetária global, como evidenciado por gráficos que rastreiam a variação anual do preço do Bitcoin e da base monetária global. Esses gráficos, que revelam ciclos de aproximadamente quatro anos, indicam que poderíamos observar um topo de mercado entre o segundo e o terceiro trimestre de 2025.
No entanto, é importante notar que esses indicadores têm um atraso intrínseco, refletindo mudanças com uma defasagem de até 365 dias.Embora seja complexo prever com precisão quando o próximo topo do mercado ocorrerá, a cenóide cíclica do Bitcoin e da liquidez global sugere que ainda estamos em uma fase de expansão monetária.
Este padrão, similar ao índice de liquidez global da CrossBorder Capital, que inclui uma gama mais ampla de indicadores além da oferta monetária, reforça a perspectiva otimista de que o ciclo de alta do Bitcoin pode continuar pelos próximos meses. Além disso, é possível que outros ativos também sejam impactados positivamente por expansão de liquidez antes de entrar dentro de uma estrutura de contração mais forte.
No entanto, é crucial observar que essa perspectiva positiva está condicionada à gravidade da próxima recessão, cujos impactos ainda são incertos para o Bitcoin.
Até agora, a única recessão enfrentada pelo Bitcoin foi a causada pela disrupção nas cadeias globais de abastecimento durante a pandemia, uma crise de natureza diferente da severa recessão de 2008, que teve origem no excesso de alavancagem no sistema financeiro e de crédito. Portanto, o comportamento do Bitcoin em uma recessão mais profunda e prolongada ainda é uma incógnita.
Conclusões
Apesar de uma série de desafios macroeconômicos, um sentimento generalizado de aversão ao risco no mercado global e a venda significativa de moedas por grandes entidades, que têm impactado tanto as notícias quanto o sentimento dos investidores de Bitcoin, a criptomoeda ainda se destaca com uma performance impressionante em 2024. Com um crescimento de quase 40% no ano, o Bitcoin superou o desempenho de várias commodities e índices globais, incluindo a prata, o ouro, o S&P 500, a Nasdaq, bem como os principais índices brasileiros, como o IBOV e o IFIX.
Mesmo com o Bitcoin tendo alcançado uma valorização de mais de 65% no início do ano, seguida por uma correção significativa, ainda há espaço para otimismo, especialmente quando consideramos a sazonalidade do mercado. A análise sazonal sugere que o último trimestre de 2024 pode oferecer uma recuperação mais forte, com potencial para novas altas até 2025, antes de entrar em um novo ciclo de mercado baixista.
Embora setembro seja historicamente um mês desafiador para o Bitcoin, com possível queda adicional, os meses de outubro e novembro tendem a ser mais favoráveis para a criptomoeda. Isso reforça a estratégia de “buy the dip” (comprar na queda), aproveitando eventuais correções como oportunidades de alocação para o médio e longo prazo.
Inclusive, vale lembrar que a volatilidade trimestral do bitcoin tem caído nos últimos anos, mas isto não significa que continuará caindo nos próximos. Por isso, quanto antes o investidor conseguir se expor, melhor será para obter retornos de longo prazo dentro de uma classe de ativos que ainda está em processo de adoção inicial e possui bastante espaço para monetização.
A visão que buscamos apresentar aqui é de acumulação contínua de Bitcoin, utilizando-o como uma ferramenta de preservação de poder de compra e como uma estratégia multigeracional de criação e manutenção de riqueza ao longo dos próximos anos.
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