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Paraguai vai minerar Bitcoin com máquinas apreendidas e energia de Itaipu

ANDE e Morphware iniciam projeto-piloto para minerar Bitcoin com 1.500 ASICs apreendidos, usando energia de Itaipu. A estratégia busca monetizar excedentes elétricos sob hedge, formalizando uma atividade já relevante no Paraguai.

Paraguai vai minerar Bitcoin com máquinas apreendidas e energia de Itaipu

Parceria entre a estatal ANDE e a Morphware inaugura projeto-piloto com 1.500 ASICs em instalações reguladas, transformando excedente elétrico em receita e infraestrutura digital.

O Paraguai dá um passo inédito na interseção entre energia e infraestrutura digital. A estatal Administración Nacional de Electricidad (ANDE) firmou parceria com a Morphware para utilizar máquinas de mineração de Bitcoin apreendidas em operações contra fazendas ilegais, alimentadas pela energia hidrelétrica de Itaipu. O movimento busca formalizar o aproveitamento de um excedente elétrico estrutural do país e consolidar um polo já relevante: o Paraguai responde por cerca de 4% do hashrate global do Bitcoin, atrás apenas de EUA, Rússia e China.

O que está no acordo

O entendimento cria um caminho oficial para avaliações técnicas, coordenação e implantação de projetos sob o marco regulatório paraguaio. Na prática, os equipamentos confiscados serão realocados para locais regulados e controlados pela concessionária, com a Morphware provendo a infraestrutura e a assessoria operacional. A leitura estratégica é direta: transformar eletricidade não utilizada em computação produtiva que assegura a rede do Bitcoin e, potencialmente, atende demandas crescentes de processamento ligadas à IA.

O piloto e a gestão de risco

O programa-piloto começa com 1.500 ASICs, com a Morphware apontando que há estoque suficiente — máquinas apreendidas que, segundo a empresa, chegam a estar “empilhadas até o teto”. A ANDE não tem histórico de operação direta de mineração, e por isso a parceira assume o papel de advisor técnico. Do ponto de vista financeiro, a orientação é operar com hedge via mercado futuro, neutralizando a exposição direcional ao preço do Bitcoin e convertendo o fluxo elétrico em receita mais previsível, sem formação de reservas em BTC.

Energia barata, PoW e política industrial

No desenho do Bitcoin, a Prova de Trabalho (Proof of Work) é o mecanismo que valida transações e adiciona blocos, convertendo energia elétrica em segurança econômica por meio de cálculos criptográficos. ASICs são chips especializados nessa tarefa, e seu desempenho é função direta de eficiência energética e custo do kWh. Em países hidrelétricos com excedente, como o Paraguai, há uma arbitragem clara: vender energia no atacado a preços deprimidos ou internalizar parte desse excedente em computação, capturando margens que, depois de custos e hedge, podem superar a simples exportação de eletricidade.

Nesse sentido, o projeto tangencia política industrial: ao deslocar cargas flexíveis para pontos controlados da rede, a concessionária melhora a utilização do sistema no nível intermediário (subestações e distribuição), suaviza picos e monetiza folgas. A promessa é ampliar a “opcionalidade” da matriz elétrica — quando o preço de oportunidade é baixo, minera-se; quando há demanda local ou exportação mais vantajosa, reduz-se a carga. É uma válvula de ajuste que o PoW viabiliza porque pode ser ligada e desligada rapidamente, sem comprometer processos críticos.

Da repressão à formalização

Apesar da legalidade da atividade no país, operações contra ligações clandestinas e desvios de energia têm sido frequentes, inclusive com casos pitorescos como a descoberta de uma fazenda ilegal em uma igreja. Em 2025, apreensões de centenas de máquinas mostraram a escala do problema e o custo de fiscalização. Ao integrar parte desses ativos ao ambiente regulado, a ANDE converte passivos operacionais em receita e reduz perdas não técnicas, ao mesmo tempo em que estabelece padrões de segurança elétrica e mitigação de riscos para cargas intensivas.

O que observar adiante

O sucesso dependerá de três frentes: eficiência operacional (instalação, resfriamento e manutenção dos ASICs), disciplina de risco (execução do hedge e gestão de caixa) e coordenação energética (alocação dinâmica de carga conforme sazonalidade hidrológica e demanda interna). O histórico do setor mostra que ciclos de preço do Bitcoin, halving e custo de energia determinam sobreviventes; no caso paraguaio, a vantagem competitiva reside justamente no insumo elétrico e na ancoragem institucional da ANDE. Se o piloto mostrar robustez, a expansão tende a ser menos um problema tecnológico e mais uma decisão de alocação de capital e planejamento de rede.

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