Mineradoras de Bitcoin transformam rigs em data centers de IA
Core Scientific, Hut 8 e TeraWulf convertem infraestrutura de mineração em data centers de IA. Apesar do alto capex, GPUs podem gerar até 25x mais receita por kWh, enquanto margens do Bitcoin encolhem e o próximo halving, em 2028, pressiona o setor.
Infraestrutura de mineração migra para clusters de GPUs em busca de receitas mais previsíveis e maior retorno por quilowatt-hora.
Quando a Core Scientific fechou um acordo de US$ 3,5 bilhões para hospedar data centers de inteligência artificial no início do ano, não estava atrás do próximo token de cripto, e sim de um fluxo de caixa mais estável. Conhecida pelas gigantescas frotas de rigs de Bitcoin, a companhia agora integra uma tendência crescente: converter operações de mineração intensivas em energia em instalações de alto desempenho para IA.
Mineradoras como Core, Hut 8 (HUT) e TeraWulf (WULF) estão trocando máquinas ASIC — os computadores dedicados à mineração de bitcoin — por clusters de GPUs, impulsionadas pelo crescimento explosivo da IA e pela economia cada vez mais dura da mineração cripto.
Poder em jogo
Não é segredo que minerar bitcoin exige enorme consumo de energia, o maior custo para cunhar um novo ativo digital.
Na alta de 2021, com hashrate e dificuldade mais baixos, as margens chegavam a 90%. Depois vieram o inverno cripto e o halving, que cortou a recompensa pela metade. Em 2025, com hashrate e preços de energia em alta, muitas mineradoras operam com margens mínimas.
Paradoxalmente, a dependência de energia — o insumo mais caro — virou vantagem estratégica para diversificar receitas.
Com a competição crescente, as mineradoras continuaram a comprar máquinas para se manter relevantes, ampliando a necessidade por mais megawatts a preços menores. Investiram pesado em fontes de baixo custo, como hidrelétricas e gás natural ocioso, e desenvolveram expertise em resfriamento de alta densidade e sistemas elétricos — habilidades lapidadas no boom cripto do início dos anos 2020.
Isso atraiu a atenção de empresas de IA e computação em nuvem. Enquanto o Bitcoin depende de ASICs, a IA prospera em GPUs versáteis como a série H100 da Nvidia, que exigem ambientes de alta potência semelhantes, porém dedicados a processamento paralelo para aprendizado de máquina. Em vez de construir data centers do zero, assumir infraestrutura de mineração — já pronta em energia — virou um caminho mais rápido para escalar a demanda por infraestrutura de IA.
No essencial, não é apenas uma guinada; é um retrofit.
Os sistemas de resfriamento, contratos de energia barata e infraestrutura densa em potência, erguidos no boom cripto, agora alimentam modelos de empresas como OpenAI e Google.
Companhias como a Crusoe Energy venderam ativos de mineração para focar exclusivamente em IA, implantando clusters de GPU em locais remotos e ricos em energia que refletem o ethos descentralizado das criptos, mas hoje abastecem hyperscalers centralizados de IA.
Terraformando a IA
A mineração de Bitcoin, na prática, "terraformou" o terreno para a computação de IA ao criar infraestrutura escalável e eficiente em energia que a IA tanto precisa.
Como observou Nicholas Gregory, diretor do conselho na Fragrant Prosperity: "Pode-se argumentar que o bitcoin preparou o terreno para pagamentos em dólar digital, como se vê com USDT/Tether. Também parece que o bitcoin terraformou data centers para computação de IA/GPU."
Esse "terraforming" pré-existente permite que as mineradoras retrofithem instalações rapidamente, muitas vezes em menos de um ano, em contraste com o cronograma de vários anos para data centers tradicionais.
Retornos mais altos
Na prática, significa que uma instalação pode ser convertida em menos de um ano — muito mais rápido que erguer um novo data center.
Mas IA não é um upgrade barato.
Setups de mineração de bitcoin custam entre US$ 300 mil e US$ 800 mil por megawatt (MW), excluindo ASICs, favorecendo a escalabilidade ágil em ciclos de mercado. Já a infraestrutura de IA demanda um capex muito maior por causa de resfriamento líquido avançado, sistemas redundantes de energia e das próprias GPUs, que custam dezenas de milhares de dólares por unidade e enfrentam escassez global. Apesar do desembolso inicial mais alto, a IA pode oferecer até 25 vezes mais receita por quilowatt-hora do que a mineração de bitcoin, tornando a guinada economicamente atraente diante do aumento do custo de energia e da queda na rentabilidade cripto.
Um nicho bilionário
Com a IA em ascensão e as margens cripto sob pressão, a mineração de bitcoin tende a virar um jogo de nicho — restrito a regiões com abundância energética ou a players muito eficientes, especialmente porque o próximo halving, em 2028, pode tornar muitas operações inviáveis sem ganhos de eficiência ou energia mais barata.
Enquanto projeções apontam que o mercado global de mineração de criptomoedas pode atingir US$ 3,3 bilhões até 2030, a um CAGR de 6,9%, esses bilhões devem ser eclipsados pela expansão exponencial da IA. Segundo a KBV Research, o mercado global de IA em mineração pode alcançar US$ 435,94 bilhões até 2032, com CAGR de 40,6%.
Com investidores já de olho nessa transformação, o cenário aponta para um futuro híbrido ou de conversão total para IA, em que contratos estáveis com hyperscalers oferecem longevidade frente aos ciclos de boom e bust das criptos. Essa evolução não só reaproveita ativos ociosos como evidencia como as fronteiras cripto de ontem estão forjando os impérios de IA de amanhã.