Finanças

Quem é Larry Elisson, o homem que deve R$600 bilhões

Larry Ellison acumula dívida estimada em R$ 600 bilhões, mas segue entre os 5 mais ricos do mundo. Entenda como bilionários usam dívida como estratégia.

Quem é Larry Elisson, o homem que deve R$600 bilhões

Larry Ellison, cofundador da Oracle e presidente executivo da empresa, carrega um título pouco convencional para alguém com patrimônio líquido estimado em US$ 180 bilhões: é considerado o homem mais endividado do mundo entre os ultra-ricos. Sua dívida pessoal e corporativa soma aproximadamente US$ 110 bilhões — o equivalente a cerca de R$ 600 bilhões na cotação atual do dólar. O número impressiona, mas o contexto é o que realmente importa para entender o fenômeno.

Ellison não está à beira da falência. Está executando uma estratégia clássica dos bilionários americanos: usar ativos como garantia para tomar empréstimos baratos, evitar a venda de ações (e o imposto sobre ganho de capital) e reinvestir os recursos em novos negócios. No Brasil, essa lógica é conhecida informalmente como “buy, borrow, die” — comprar ativos, tomar empréstimos contra eles e nunca vender.

Quanto vale a dívida de Larry Ellison em reais

Converter a dívida de Ellison para reais ajuda a dimensionar a escala. Com o dólar cotado em torno de R$ 5,50 em abril de 2026, os US$ 110 bilhões em obrigações financeiras de Ellison equivalem a aproximadamente R$ 605 bilhões. Para efeito de comparação, o PIB do Estado do Paraná em 2025 foi estimado em torno de R$ 620 bilhões. Ou seja, Ellison deve, em termos nominais, o equivalente à produção econômica de um dos estados mais ricos do Brasil.

A maior parte dessa dívida está atrelada a margens e linhas de crédito lastreadas nas suas participações acionárias na Oracle, que hoje valem mais de US$ 150 bilhões. Segundo dados da Bloomberg, Ellison usa parcelas dessas ações como colateral para financiar investimentos em imóveis, tecnologia e infraestrutura de inteligência artificial.

Ellison vs. Elon Musk: quem deve mais e por quê

Elon Musk também figura nessa lista de bilionários altamente alavancados. Em 2022, Musk tomou emprestado cerca de US$ 13 bilhões de um consórcio de bancos liderado por Morgan Stanley para financiar parte da aquisição do Twitter — hoje rebatizado como X. Além disso, ele já usou suas ações da Tesla como garantia para linhas de crédito pessoal que chegaram a US$ 3,5 bilhões, conforme registros da SEC (Securities and Exchange Commission), a CVM americana.

A diferença entre Ellison e Musk está na escala. Enquanto Musk tomou dívidas pontuais para aquisições específicas, Ellison opera com um nível de alavancagem estruturalmente maior, mantido ao longo de décadas. O modelo de Ellison é mais próximo ao de um fundo de private equity do que ao de um executivo corporativo tradicional.

Outros bilionários que operam altamente endividados

A estratégia de se endividar para não vender ativos não é exclusividade de Ellison ou Musk. Veja outros casos relevantes:

  • Jeff Bezos: utilizou ações da Amazon como colateral para financiar projetos da Blue Origin, sua empresa espacial. Em determinados períodos, o volume de crédito lastreado em ações chegou a US$ 2 bilhões, segundo a Reuters.
  • Mark Zuckerberg: tomou empréstimos hipotecários de baixíssima taxa de juros — alguns a taxa fixa de 1,05% ao ano — em vez de liquidar posições na Meta para comprar imóveis, segundo reportagem do Wall Street Journal de 2012 que ficou famosa no setor financeiro.
  • Gautam Adani: o magnata indiano enfrentou crise de crédito em 2023 após relatório da Hindenburg Research questionar a alavancagem do grupo Adani. O valor de mercado do conglomerado caiu mais de US$ 100 bilhões em dias.
  • Jorge Paulo Lemann: no Brasil, o cofundador da 3G Capital também opera com estruturas alavancadas para aquisições corporativas, mas em escala e risco muito diferentes dos americanos.

O risco desse modelo fica evidente quando os ativos desvalorizam rapidamente. A margem call — exigência do banco de que o tomador reponha garantias ou quite parte do empréstimo — pode forçar a venda de ações no pior momento possível, amplificando quedas.

As aquisições recentes de Larry Ellison em 2026

Ellison não está parado. Em 2026, sua agenda de investimentos está concentrada em três frentes principais: infraestrutura de inteligência artificial, imóveis e saúde digital.

No campo da IA, a Oracle — empresa da qual Ellison detém cerca de 40% das ações — anunciou contratos de infraestrutura de cloud com valor total superior a US$ 130 bilhões em backlog (carteira de contratos futuros), segundo o último earnings call da companhia. Parte significativa desse crescimento é puxada pela demanda de empresas de IA generativa que precisam de capacidade computacional massiva para treinar e operar modelos de linguagem.

Ellison também participou do consórcio Stargate, iniciativa anunciada no início de 2025 pelo governo americano em conjunto com a OpenAI, SoftBank e Oracle, com previsão de investimento de US$ 500 bilhões em infraestrutura de IA nos Estados Unidos ao longo de quatro anos. A Oracle é responsável por parte da infraestrutura de dados desse projeto.

No mercado imobiliário, Ellison é proprietário de aproximadamente 98% da ilha de Lanai, no Havaí, adquirida em 2012 por cerca de US$ 300 milhões. Desde então, investiu mais de US$ 500 milhões na infraestrutura da ilha, transformando-a em um experimento de cidade sustentável. Em 2025 e 2026, novos projetos de energia renovável e habitação foram anunciados para a ilha, segundo o Honolulu Star-Advertiser.

Na área de saúde, a Oracle Health — divisão criada após a aquisição da Cerner por US$ 28,3 bilhões em 2022 — segue em expansão, com contratos fechados com sistemas de saúde americanos e parceria com o Departamento de Defesa dos EUA para digitalização de prontuários médicos. Para quem acompanha o setor de tecnologia aplicada à saúde, a Oracle Health representa hoje uma das apostas mais subestimadas de Ellison. Entender esse tipo de movimento exige formação técnica em ativos digitais — o BlockTrends App oferece mais de 60 cursos sobre tecnologia, finanças e mercado digital, incluindo módulos sobre valuations de big techs e estratégias de alocação.

Dívida como ferramenta: risco ou inteligência financeira?

A leitura simplista de que Ellison “deve R$ 600 bilhões” ignora a equação completa. Seu patrimônio líquido supera a dívida em pelo menos US$ 70 bilhões. O custo da dívida, em grande parte, é inferior ao retorno dos ativos que ela financia. Esse diferencial positivo — tecnicamente chamado de spread — é o que torna a estratégia viável e, em condições normais de mercado, altamente lucrativa.

O risco real emerge em cenários de queda abrupta dos ativos tecnológicos. Se as ações da Oracle recuarem 40% em um período curto — como ocorreu com diversas big techs entre 2022 e 2023 — a relação entre dívida e garantia se deteriora rapidamente. Bancos credores podem acionar cláusulas de reposição de margem, forçando a liquidação de posições.

Por ora, Ellison está do lado vencedor dessa aposta. A Oracle acumula alta de mais de 70% nos últimos 18 meses, impulsionada pela corrida global por infraestrutura de IA. Sua dívida bilionária, paradoxalmente, foi o combustível que permitiu capturar esse movimento.

O que investidores comuns podem aprender com o caso Ellison

A lição não é replicar a alavancagem de um bilionário com acesso a crédito institucional a taxas privilegiadas. A lição é entender que dívida, por si só, não é sinônimo de fragilidade financeira. A relação entre o custo da dívida, o retorno dos ativos e a liquidez disponível é o que determina se uma posição alavancada é inteligente ou temerária.

No Brasil, investidores pessoa física têm acesso a instrumentos de alavancagem — como o crédito com garantia de investimentos (CGI) oferecido por corretoras e bancos — que seguem lógica semelhante, mas em escala radicalmente diferente. Compreender essa mecânica é parte essencial da educação financeira de qualquer investidor que queira ir além dos produtos básicos de renda fixa.

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Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
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