Finanças

Iene no menor nível em 40 anos: o que muda para investidores

O iene caiu ao menor patamar desde 1986 frente ao dólar. A combinação de estímulos fiscais e juros baixos no Japão cria um cenário que respinga nos mercados globais.

Iene no menor nível em 40 anos: o que muda para investidores
Foto: Gu Ko / Unsplash

Um dólar compra 162 ienes. É a maior cotação desde dezembro de 1986, quando o Japão ainda vivia os estertores da bolha que definiria sua economia pelas três décadas seguintes. Em 12 meses, a moeda japonesa perdeu 12% de valor frente ao dólar, e a trajetória não dá sinais de reversão.

Para quem investe ou acompanha mercados globais, a desvalorização do iene não é apenas um dado exótico. Ela funciona como termômetro de forças que afetam desde o preço de commodities até o apetite por risco em mercados emergentes, incluindo o Brasil.

Por que o iene está derretendo

A resposta passa por dois vetores que se reforçam mutuamente. Do lado japonês, os planos de incentivo econômico da primeira-ministra Sanae Takaichi ampliaram a percepção de risco fiscal. O déficit público deve saltar de 4% do PIB no ano passado para 5,6% do PIB neste ano, mesmo com os juros reais em território negativo.

Ao mesmo tempo, o Bank of Japan (BoJ) tem sido lento em apertar sua política monetária. A curva de juros precifica apenas mais uma alta de 0,25 ponto percentual, o que levaria a taxa básica a 1,25%. Para efeito de comparação, a inflação japonesa, que por décadas orbitou o zero, atingiu 3,2% em 2025 e deve ficar em 2,5% neste ano. Juros reais negativos, portanto, seguem como regra.

Do lado americano, a pressão vem do Federal Reserve. A possibilidade de novas altas de juros nos Estados Unidos fortaleceu o dólar globalmente. O índice DXY, que mede a força da moeda americana contra uma cesta de divisas, sobe 3% no ano. Quando os títulos do Tesouro americano pagam mais, o diferencial de juros entre EUA e Japão se alarga, e o capital migra na direção previsível.

Intervenção cambial: eficaz ou inútil?

O Japão já tentou segurar o iene. Em abril e maio, quando o dólar superou a marca de 160 ienes, o BoJ realizou intervenções que totalizaram cerca de 74 bilhões de dólares. O efeito? Momentâneo. O iene se fortaleceu por alguns dias e depois retomou a queda. Como acompanhamos na cobertura de finanças globais, intervenções cambiais contra fundamentos macroeconômicos têm histórico de fracasso.

Economistas do MUFG, maior banco do Japão, foram diretos: o cenário atual torna difícil conter a alta do dólar, dado que os fundamentos a impulsionam. Segundo o banco, o Japão pode demonstrar maior tolerância à fraqueza do iene no curto prazo, desde que a desvalorização siga gradual.

A ministra das Finanças, Satsuki Katayama, adotou o tom genérico de praxe, afirmando que governo e BoJ “tomarão as medidas adequadas a qualquer momento”. O mercado, porém, não se convenceu. Estrategistas do ING apontam que o BoJ reconhece que vender dólar em meio a uma alta sustentada por fundamentos pode, no máximo, desacelerar a tendência. Revertê-la, não.

O paradoxo japonês: dívida alta, mas em queda

Há um dado contraintuitivo no meio da turbulência. A dívida bruta do Japão, que atingiu 219% do PIB no pico de 2021, recuou para 204% ao fim de 2025 e a projeção aponta para 194% neste ano. A própria desvalorização do iene, combinada com crescimento modesto do PIB (estimado em 1%) e inflação mais elevada, ajuda a erodir o estoque de dívida em termos relativos.

É o tipo de dinâmica que caracteriza a repressão financeira: juros abaixo da inflação corroem o valor real da dívida, ao custo de penalizar poupadores e consumidores. O HSBC nota que, embora a escassez estrutural de mão de obra esteja empurrando salários nominais para cima, o crescimento dos salários reais pode ser comprometido caso a inflação continue subindo.

Para as famílias japonesas, o resultado é concreto. A alta dos preços de importação, amplificada pelo câmbio desvalorizado, corrói o poder de compra. A energia e os alimentos importados ficam mais caros. O consumo privado segue positivo, mas, segundo o HSBC, permanece vulnerável.

E o que isso tem a ver com o Brasil?

Mais do que parece. O fortalecimento global do dólar pressiona todas as moedas de países emergentes, incluindo o real. Quando o diferencial de juros americano se amplia, o fluxo de capital tende a sair de mercados de maior risco e se concentrar em ativos denominados em dólar.

Além disso, o Japão é historicamente um grande exportador de capital. Investidores japoneses são compradores relevantes de títulos soberanos e corporativos ao redor do mundo. Se o BoJ eventualmente acelerar o aperto monetário para defender o iene, parte desse capital pode ser repatriado, reduzindo liquidez em mercados globais. Esse efeito já foi observado em ciclos anteriores, como analisamos em relação ao impacto de juros americanos nos mercados.

Para quem investe em ativos de risco, o sinal é de cautela. Não porque o iene em si seja relevante para a carteira do investidor brasileiro, mas porque a dinâmica que o empurra para baixo, dólar forte, juros americanos elevados e aversão a risco, é a mesma que pesa sobre o real, sobre a bolsa brasileira e sobre criptoativos.

O que esperar nos próximos meses

A grande incógnita é se o governo de Takaichi vai pressionar o BoJ a manter os juros baixos para favorecer exportações, ou se a deterioração do custo de vida vai forçar uma mudança de rota. A visão predominante no mercado é que o BoJ seguirá cauteloso, limitado pelo endividamento público elevado e pela fragilidade do crescimento.

Enquanto isso, o relatório de emprego americano de junho, divulgado nesta semana, pode dar pistas sobre os próximos passos do Fed. Um dado forte reforçaria a tese de juros altos por mais tempo nos EUA, pressionando ainda mais o iene e, por tabela, outras moedas. Analistas do ING apontam o feriado de 4 de julho como uma possível janela para intervenção japonesa, aproveitando a menor liquidez do mercado.

O Japão, terceira maior economia do mundo, enfrenta um dilema clássico: não pode subir juros sem arriscar a recuperação, e não pode deixar o iene cair indefinidamente sem arriscar a estabilidade de preços. Essa equação sem solução fácil é, em si, o dado mais relevante para quem acompanha mercados globais.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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