Finanças

Ibovespa trava nos 173 mil: o que impede o índice de romper os 176 mil pontos

Com volume pela metade da média mensal e pregão esvaziado pela Copa, o Ibovespa parou nos 173 mil. Analistas apontam o que o índice precisa para retomar a tendência de alta.

Ibovespa trava nos 173 mil: o que impede o índice de romper os 176 mil pontos
Foto: Pixabay / Unsplash

O Ibovespa encerrou a segunda-feira praticamente no zero a zero. A queda de 0,05%, para 173.205 pontos, esconde um dado mais revelador do que o número em si: o volume financeiro foi de apenas R$ 14,1 bilhões, menos da metade da média diária de R$ 30,6 bilhões registrada em junho. Um pregão que começou flertando com os 174 mil pontos e terminou sem convicção de nenhum dos lados.

O motivo mais óbvio para a apatia foi o jogo do Brasil contra o Japão pela Copa do Mundo, no meio do horário de negociação. Mas a falta de volume não se explica apenas pelo futebol. O mercado brasileiro vive um momento de indefinição técnica que merece atenção de quem acompanha a dinâmica da bolsa de valores.

O que a análise técnica diz sobre o Ibovespa nos 173 mil

Segundo relatório do BB Investimentos, o desempenho recente do índice sugere um possível alívio na sequência de quedas que vinha ocorrendo desde a segunda quinzena de abril. Mas “possível alívio” não é o mesmo que reversão de tendência.

Para confirmar o retorno à tendência de alta no curto prazo, o Ibovespa precisa fechar acima dos 176 mil pontos. Só então o caminho ficaria aberto para o objetivo seguinte, na faixa dos 182.900 pontos. Enquanto o índice permanecer abaixo dessa resistência, a leitura técnica é de lateralização, não de retomada.

Na sessão de segunda, o Ibovespa oscilou entre a mínima de 172.392 e a máxima de 173.891 pontos. Uma amplitude de pouco mais de 1.500 pontos, típica de dias sem convicção direcional. Esse tipo de pregão costuma se repetir quando investidores aguardam catalisadores mais fortes para tomar posição.

Bancos sustentam, Embraer e Azzas pressionam

O setor bancário foi o principal pilar de sustentação do índice. Itaú subiu 0,4%, Bradesco avançou 1,4% e Santander Brasil ganhou 1,78%. O estímulo veio de um novo capítulo do programa Desenrola, apresentado pelo governo, com foco na renegociação de dívidas de pessoas adimplentes e uma linha de crédito consignado privado com garantia do FGTS.

Do lado oposto, Embraer recuou 2,1% em movimento clássico de realização de lucros. O papel vinha de quatro altas consecutivas, acumulando valorização de quase 5% nesse intervalo, e sobe 9,66% no mês. Correções dessa natureza são esperadas e saudáveis após sequências positivas, como já analisamos em matérias anteriores sobre o setor industrial brasileiro.

Azzas 2154 caiu 3,21%, no segundo pregão de correção após a alta gerada pelo anúncio de que contratou o Morgan Stanley para avaliar alternativas estratégicas envolvendo a marca Farm Rio. Na sexta-feira, a companhia esclareceu que a marca Hering não está à venda.

Petrobras bate recorde em Búzios e o Brent ajuda

A Petrobras fechou em leve alta de 0,21%, beneficiada pela combinação de dois fatores. O barril de Brent subiu 1,61% no mercado internacional, e a estatal anunciou que o campo de Búzios, no pré-sal da Bacia de Santos, atingiu novo recorde de produção: 1,2 milhão de barris por dia.

Búzios é o maior campo de petróleo em águas profundas do mundo. O recorde foi alcançado na última sexta-feira, impulsionado pela entrada em operação de novas plataformas. Para a tese de investimento em Petrobras, o aumento de produção é um vetor relevante porque eleva a geração de caixa sem necessidade de novos investimentos imediatos, um ponto que costuma influenciar diretamente a política de dividendos da companhia.

Vale, por sua vez, ficou praticamente estável, com queda de 0,03%, refletindo o desempenho misto do minério de ferro na Ásia.

Cosan, Rumo e o xadrez da desalavancagem

Um dos movimentos corporativos mais interessantes do dia foi o anúncio da Cosan de que avalia alternativas para a participação que detém na Rumo. A decisão está alinhada com a estratégia de desalavancagem e otimização da estrutura de capital do grupo. Cosan caiu 1,33% e Rumo perdeu 0,58%.

No fim de semana, veiculou-se que o Grupo Ultra desistiu de adquirir a Rumo. A Ultrapar, controlada pelo grupo, subiu 2,81% na sessão. O mercado parece interpretar a desistência como positiva para Ultra, que evita o risco de uma aquisição grande em momento de juros elevados.

Braskem foi o destaque positivo do dia, com alta de 5,76%. A petroquímica obteve decisão judicial favorável para suspender por 60 dias a cobrança de dívidas por determinados credores financeiros. É um alívio de curto prazo, mas que não resolve os desafios estruturais da companhia.

O cenário externo ajudou, mas o Brasil não aproveitou

Nos Estados Unidos, o S&P 500 subiu mais de 1%, puxado pela recuperação de ações de tecnologia. A geopolítica também contribuiu: equipes técnicas do Irã e dos EUA devem se reunir em Doha para discutir a implementação de um acordo de paz provisório, embora Teerã tenha negado que haja negociações agendadas.

O dólar perdeu força frente a moedas de países emergentes, o que normalmente favorece ativos brasileiros. Mesmo assim, o Ibovespa não conseguiu capitalizar o ambiente externo mais construtivo. A explicação está na combinação de baixo volume, ausência de catalisadores domésticos relevantes e a barreira técnica nos 176 mil pontos.

Para o investidor que acompanha a bolsa brasileira, o recado do mercado é claro: o índice precisa de combustível novo para romper a resistência. Enquanto isso não acontece, a lateralização entre 172 mil e 174 mil pontos tende a prevalecer. Os próximos dias, com dados econômicos e possíveis desdobramentos geopolíticos, podem oferecer o gatilho que faltou nesta segunda-feira.

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Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
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