Finanças

Ibovespa sobe 3% na semana: o que explica a força dos bancos

Índice brasileiro ignorou a liquidação global de tecnologia e fechou a semana em alta de quase 3%, sustentado por Itaú e setor financeiro. Entenda o descolamento.

Ibovespa sobe 3% na semana: o que explica a força dos bancos
Foto: Pixabay / Unsplash

Enquanto investidores no exterior corriam para se desfazer de ações de tecnologia, o Ibovespa fez o caminho inverso. O principal índice da bolsa brasileira encerrou a sexta-feira (26) aos 173.295 pontos, com alta de 0,76% no dia e acúmulo de 2,98% na semana. O protagonismo ficou com os bancos, especialmente o Itaú Unibanco (ITUB4), que sozinho responde por cerca de 8% da carteira teórica do índice e subiu 1,29%.

A dinâmica ilustra um fenômeno que vem se repetindo em 2026: quando o apetite global por risco diminui, o capital não necessariamente foge do Brasil. Ele migra dentro da bolsa, saindo de nomes expostos ao ciclo global e se concentrando em teses domésticas, como o setor financeiro.

Por que os bancos sustentaram o Ibovespa

O Índice Financeiro (IFNC) avançou 1,39% no pregão de sexta. Não foi acaso. Dois vetores explicam o movimento. Primeiro, as taxas de juros curtas e intermediárias recuaram ao longo da semana, refletindo o aumento das apostas em um corte da Selic nas próximas reuniões do Copom. Para bancos, juros em queda significam menor provisão para inadimplência e maior demanda por crédito.

Segundo, o dado de desemprego divulgado pelo IBGE funcionou como combustível adicional. A taxa recuou para 5,6% no trimestre encerrado em maio, o menor patamar para o período desde o início da série histórica, em 2012. Como analisamos na editoria de finanças, mercado de trabalho aquecido sustenta a qualidade das carteiras de crédito dos grandes bancos, algo que o mercado precifica rapidamente.

Na série com ajuste sazonal, a taxa permaneceu estável em 5,5%, segundo cálculos do C6 Bank. São números que reforçam a leitura de que a economia doméstica segue resiliente, mesmo com a Selic ainda em patamar restritivo.

Petrobras e Vale ficaram para trás

O descolamento do Ibovespa em relação ao exterior não foi uniforme dentro do próprio índice. Petrobras (PETR4) caiu 1,01%, pressionada pela queda de 3,84% do petróleo Brent, que fechou a US$ 72,60 o barril. A Vale (VALE3) recuou 0,65%, mesmo com o minério de ferro subindo 0,81% em Dalian, cotado a 748 yuans (cerca de US$ 110) a tonelada.

Juntas, Petrobras, Vale e os grandes bancos representam aproximadamente 50% da carteira teórica do Ibovespa. Quando o setor financeiro puxa para cima com força suficiente, ele compensa a fraqueza de commodities. Foi exatamente o que aconteceu nesta semana.

Na ponta negativa, a Braskem (BRKM5) liderou as perdas com queda de 8,36%, após o Citi rebaixar a recomendação da ação para venda com alto risco. A petroquímica ainda obteve na Justiça a suspensão por 60 dias da cobrança de dívidas por determinados credores financeiros, sinalizando o agravamento de sua situação financeira.

O sell-off de tecnologia nos EUA e o efeito no Brasil

Do outro lado, Wall Street viveu uma semana de aversão a risco concentrada no setor de tecnologia. O Nasdaq caiu pelo quinto pregão consecutivo e derreteu 4% na semana. O S&P 500 recuou 1%, enquanto o Dow Jones, menos exposto a tech, conseguiu avançar 0,6%.

A venda generalizada de ações de tecnologia nos Estados Unidos teve três catalisadores: o temor de encarecimento de chips, os gastos cada vez mais elevados das big techs com infraestrutura de inteligência artificial diante da perspectiva de juros mais altos, e a preocupação com repasse de custos ao consumidor final. A Apple foi um dos nomes mais citados nesse contexto.

O contágio atingiu a Europa, onde o Stoxx 600 recuou 0,68%, e a Ásia, com o Nikkei japonês despencando 4,15%. O Hang Seng de Hong Kong caiu 1,76%. Como acompanhamos na cobertura de tecnologia, o ciclo de investimento pesado em IA está gerando uma reavaliação de valuations que pode se estender nas próximas semanas.

Dólar estável e capital estrangeiro

O dólar à vista fechou a R$ 5,1676, em leve queda de 0,20% no dia. Na semana, a variação foi praticamente nula, com valorização de apenas 0,05%. A estabilidade cambial em meio à turbulência global é outro indicador de que o fluxo para o Brasil não secou.

Os dados do Banco Central reforçam essa leitura. O investimento direto no país (IDP) alcançou US$ 7,974 bilhões em maio, mais que o dobro dos US$ 3,863 bilhões registrados em maio de 2025. O déficit em transações correntes ficou em US$ 3,185 bilhões no mês, com acumulado de 12 meses equivalente a 2,60% do PIB.

Para o investidor estrangeiro, a combinação de juros reais elevados, moeda relativamente estável e economia doméstica aquecida torna o Brasil uma alternativa atraente quando o apetite por risco global diminui, especialmente em relação a mercados emergentes concorrentes.

O que esperar da próxima semana

O mercado entra na última semana de junho com dois eventos no radar. Na terça-feira, o governo lança o Plano Safra 2026/27, que pode movimentar ações do agronegócio e bancos com carteiras rurais relevantes. No exterior, o foco segue na digestão do sell-off de tecnologia e em eventuais sinalizações do Federal Reserve sobre a trajetória dos juros americanos.

A grande questão é se o descolamento do Ibovespa em relação a Wall Street é sustentável ou apenas um efeito de rotação temporária. Historicamente, períodos prolongados de queda no Nasdaq acabam contaminando mercados emergentes pelo canal de sentimento. Mas enquanto os dados domésticos continuarem surpreendendo positivamente, como o desemprego na mínima histórica e o IDP robusto, o mercado brasileiro tem fundamentos para manter a resiliência.

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Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
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