Finanças

Honda tem 1º prejuízo em 70 anos com custo de EVs

Montadora japonesa reportou perdas pela primeira vez desde 1956. Transição para veículos elétricos e tarifas americanas pesam sobre o balanço.

Honda tem 1º prejuízo em 70 anos com custo de EVs
Foto: Craig Adderley / Unsplash

A Honda Motor registrou seu primeiro prejuízo fiscal em quase sete décadas. A montadora japonesa, que não reportava resultado negativo desde 1956, foi pressionada por uma combinação de custos elevados na transição para veículos elétricos e o impacto das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos.

O resultado marca um ponto de inflexão para uma das fabricantes mais consistentes do setor automotivo global. E levanta uma questão que vai além da Honda: a transição elétrica pode quebrar montadoras tradicionais antes de gerar retorno?

O peso dos investimentos em eletrificação

A Honda comprometeu mais de US$ 65 bilhões para sua estratégia de eletrificação até 2030. O plano inclui o desenvolvimento de uma plataforma exclusiva para veículos elétricos, construção de fábricas de baterias e investimentos em software automotivo. O problema é que esses gastos estão chegando antes da receita.

Enquanto a Tesla já opera com margens positivas em seus EVs e a BYD consegue produzir elétricos a custos competitivos na China, as montadoras japonesas ainda lutam para escalar a produção com eficiência. A Honda vendeu cerca de 80 mil veículos elétricos no último ano fiscal, uma fração dos 4,2 milhões de unidades totais da marca.

A escala ainda é insuficiente para diluir os custos fixos de desenvolvimento. Cada EV da Honda carrega um custo unitário significativamente maior do que os modelos a combustão que sustentam o caixa da empresa. É o dilema clássico da inovação disruptiva: o produto novo canibaliza o produto lucrativo antes de se tornar rentável.

Tarifas americanas amplificam o problema

Os Estados Unidos são o maior mercado individual da Honda fora do Japão. A montadora produz parte significativa de seus veículos em Ohio e Indiana, mas ainda depende de cadeias de suprimentos que cruzam fronteiras. Componentes vindos do Japão, México e Canadá passaram a enfrentar tarifas elevadas no contexto da política comercial americana.

O impacto não é trivial. Segundo estimativas do setor, as tarifas adicionais podem representar entre US$ 2.000 e US$ 5.000 a mais por veículo importado ou com alto conteúdo de peças estrangeiras. Para a Honda, que já opera com margens comprimidas nos EUA, o efeito vai direto ao resultado.

A situação da Honda espelha dificuldades enfrentadas por outras montadoras japonesas e europeias. A Toyota, embora lucrativa, reduziu suas projeções para o ano fiscal. A Nissan está em meio a uma reestruturação pesada. A Volkswagen anunciou cortes de capacidade na Europa. A pressão sobre o setor automotivo global está em seu ponto mais agudo desde a crise de 2008.

A fusão com a Nissan que não aconteceu

As conversas sobre uma possível fusão entre Honda e Nissan, que ganharam força no início de 2025, perderam tração nos últimos meses. A operação combinada criaria a terceira maior montadora do mundo em volume, mas as diferenças culturais e a complexidade regulatória travaram as negociações.

Com o prejuízo agora materializado, analistas do setor voltam a especular se a Honda terá que reconsiderar uma parceria estratégica. Sozinha, a empresa precisa financiar a transição elétrica, manter competitividade em combustão e enfrentar um ambiente tarifário hostil. São muitas frentes para uma montadora de porte médio no contexto global.

O que o prejuízo da Honda sinaliza para investidores

O caso da Honda não é isolado. Ele ilustra o custo real da transição energética no setor automotivo, um processo que muitos analistas e investidores subestimaram. A narrativa predominante entre 2020 e 2023 era de que as montadoras tradicionais simplesmente adaptariam suas linhas de produção para elétricos e seguiriam lucrativas.

A realidade é mais dura. A transição exige investimentos simultâneos em baterias, software, infraestrutura de carregamento e novos modelos de negócio, como assinaturas de software veicular. Tudo isso enquanto a receita dos modelos a combustão diminui progressivamente.

Para quem investe no setor automotivo ou em mercados internacionais de forma geral, o recado é claro: a transição elétrica terá vencedores e perdedores. E a divisão não será simplesmente entre “montadoras que fazem EVs” e “montadoras que não fazem”. Será entre as que conseguem escalar com eficiência e as que queimam caixa na tentativa.

A Honda tem 70 anos de história de execução disciplinada e inovação em engenharia. Mas engenharia sozinha não resolve um problema que é, fundamentalmente, de escala industrial e acesso a matérias-primas. Os próximos dois anos fiscais serão decisivos para determinar se o prejuízo de hoje foi um tropeço temporário ou o início de uma crise estrutural.

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Sobre o autor
Marina Alves
Traduz o que Copom, câmbio e licenças de exchange fazem com a sua carteira. Cobre o mercado de capitais brasileiro, a macro do dia a dia e a regulação do cripto. Sem promessa de ganho fácil.
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