Finanças

Crise de fertilizantes 2026: guerra na Ucrânia ainda abala o agro

Três anos após a invasão russa, o mercado global de fertilizantes segue distorcido — e o Brasil, maior importador do mundo, paga a conta.

Crise de fertilizantes 2026: guerra na Ucrânia ainda abala o agro

Em fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o mercado global de fertilizantes entrou em colapso quase imediato. Rússia e Belarus juntos respondiam por cerca de 40% das exportações mundiais de potássio e por fatias relevantes de nitrogênio e fósforo. O que veio depois foi um choque de oferta sem precedentes desde a crise do petróleo de 1973 — e, em abril de 2026, o mundo ainda não saiu completamente do buraco.

O que mudou no mercado de fertilizantes desde o início da guerra

O preço da ureia, principal fonte de nitrogênio para lavouras, chegou a triplicar entre 2021 e o pico de 2022, saltando de cerca de US$ 250 por tonelada para mais de US$ 900. O cloreto de potássio, insumo fundamental para culturas como soja e milho, bateu US$ 1.000 por tonelada no mercado spot europeu — um nível que nenhum analista havia projetado para 2022. Desde então, os preços recuaram, mas seguem estruturalmente acima do patamar pré-guerra: a ureia negocia hoje em torno de US$ 380 por tonelada, e o potássio, em torno de US$ 320, segundo dados da consultoria Argus Media atualizados em abril de 2026.

O motivo pelo qual os preços não voltaram ao normal é simples: as sanções à Rússia e a Belarus nunca foram totalmente removidas, e novos fornecedores — Canadá, Marrocos, Israel — não conseguiram expandir capacidade na velocidade que o mercado precisava. O resultado é um mercado globalmente mais caro e estruturalmente menos eficiente do que era antes de fevereiro de 2022.

Por que o Brasil sente mais do que outros países a crise de fertilizantes

O Brasil importa aproximadamente 85% dos fertilizantes que consome — a maior dependência entre as grandes economias agrícolas do mundo. Em valores absolutos, isso representou cerca de US$ 16,4 bilhões em importações no ano de 2025, segundo dados do Ministério da Agricultura. Para colocar em perspectiva: é mais do que o Brasil gastou em importações de trigo, arroz e açúcar somados no mesmo período.

A Rússia, apesar das sanções, continua sendo um dos principais fornecedores do país — especialmente de nitrogênio. Em 2025, o Brasil ainda importou aproximadamente 22% de seus fertilizantes nitrogenados de origem russa, segundo levantamento da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Isso significa que qualquer escalada no conflito ucraniano, qualquer novo pacote de sanções ocidentais, ou qualquer ruptura logística no Mar Negro tem impacto direto e quase imediato sobre o custo de produção da soja brasileira.

Como a guerra na Ucrânia pressiona os preços dos alimentos no Brasil em 2026

A conexão entre o conflito no leste europeu e a cesta básica do brasileiro é mais direta do que parece. O fertilizante é o principal insumo de custo variável na produção de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar. Quando o preço do insumo sobe, o custo de produção sobe junto — e parte desse custo é repassado ao consumidor final, especialmente em proteína animal, já que o milho é a base da ração de aves e suínos.

Segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o custo total de produção por hectare de soja na safra 2025/26 ficou cerca de 18% acima da média histórica de 2019, ajustado pela inflação, puxado principalmente pelo item fertilizantes. Isso num cenário em que o preço da soja na Bolsa de Chicago acumula queda de cerca de 12% nos últimos 12 meses — o que comprime ainda mais a margem do produtor rural brasileiro. A conta não fecha bem para quem está do lado do campo.

O que as negociações de paz — ou a falta delas — significam para o agro

Em abril de 2026, as negociações entre Rússia, Ucrânia e os mediadores ocidentais permanecem em compasso de espera. Não há cessar-fogo consolidado, e a retomada plena dos corredores de exportação pelo Mar Negro — que chegou a funcionar parcialmente entre julho de 2022 e julho de 2023, pelo Acordo de Grãos de Istambul — continua sem perspectiva concreta de reativação em bases estáveis.

Para o mercado de fertilizantes, isso tem uma implicação prática e imediata: enquanto a guerra durar, a incerteza de oferta permanece elevada, e os preços tendem a manter um prêmio de risco estrutural. O mercado precifica esse risco. Qualquer sinal de avanço nas negociações de paz tende a derrubar os preços do potássio e do nitrogênio de forma expressiva — e isso seria, na ponta do lápis, uma boa notícia para o agronegócio brasileiro e, em cascata, para o preço dos alimentos nas gôndolas.

O Brasil está buscando alternativas para reduzir a dependência de importações?

A resposta curta é: sim, mas devagar. O governo federal lançou em 2023 o Plano Nacional de Fertilizantes, com meta de elevar a produção doméstica dos atuais 15% do consumo para 45% até 2050. Em abril de 2026, os avanços concretos ainda são modestos: a Petrobras retomou a produção de ureia na Unidade de Fertilizantes Nitrogenados de Três Lagoas (UFN3), em Mato Grosso do Sul, com capacidade de 720 mil toneladas por ano — o que representa cerca de 10% do consumo nacional de nitrogênio. A Vale, por sua vez, segue avançando na exploração de potássio no Projeto Kronau, em Saskatchewan, no Canadá, com início de operação previsto para 2028.

São movimentos relevantes, mas insuficientes para mudar a equação no curto prazo. A dependência de 85% vai cair, mas não antes do fim desta década — o que significa que o Brasil passará os próximos anos ainda exposto a qualquer novo choque de oferta que venha de Moscou, Minsk ou do Mar Negro. Entender essa cadeia de riscos é parte fundamental da análise macroeconômica aplicada ao agronegócio, um setor que responde por cerca de 24% do PIB brasileiro, segundo dados do Cepea/USP referentes a 2025.

O impacto no câmbio e nos ativos brasileiros

O nexo entre fertilizantes e mercados financeiros brasileiros é real, ainda que indireto. O agronegócio é o principal gerador de superávit comercial do país — em 2025, o setor foi responsável por US$ 134 bilhões em exportações, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Quando o custo de produção sobe por conta da crise de insumos e o preço das commodities cai no mercado internacional, a rentabilidade do setor comprime, o fluxo de dólares para o Brasil pode diminuir, e o câmbio sente. Num contexto em que o dólar já opera abaixo de R$ 5 — o menor patamar em anos, segundo dados da Agência Brasil desta semana —, qualquer piora no balanço do agro pode reverter parte desse movimento.

A guerra na Ucrânia não é apenas um conflito geopolítico distante. É uma variável ativa dentro da equação de custos do produtor rural brasileiro, do preço do feijão na feira e do câmbio que move o mercado financeiro. Enquanto ela não tiver um desfecho claro, o Brasil seguirá navegando com um risco estrutural embutido na sua maior fonte de geração de riqueza. E esse risco, por ora, não tem data para acabar.

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