Finanças

Citigroup vai tokenizar ações de empresas privadas

Maior banco dos EUA em custódia de ativos planeja usar blockchain para dar acesso a papéis de empresas fechadas. Entenda o que muda no mercado.

Citigroup vai tokenizar ações de empresas privadas
Foto: William Doll II / Unsplash

O Citigroup está preparando uma plataforma para oferecer ações tokenizadas de empresas privadas a clientes institucionais e de alta renda. A informação, publicada pelo Wall Street Journal, coloca o maior banco dos Estados Unidos em custódia de ativos no centro de uma corrida que deve redesenhar a forma como o mercado de capitais privado funciona.

A iniciativa não é um experimento de laboratório. É uma decisão estratégica de um banco que custodia mais de US$ 28 trilhões em ativos globais. E marca um ponto de inflexão para a tokenização sair do discurso de conferências e entrar na operação real de Wall Street.

O que o Citigroup pretende fazer com a tokenização

Segundo as informações disponíveis, o Citi planeja usar infraestrutura blockchain para representar digitalmente participações em empresas que não têm ações listadas em bolsa. Hoje, esse mercado é dominado por fundos de private equity e venture capital, com liquidez extremamente limitada e barreiras de entrada elevadas.

O público-alvo são investidores institucionais e clientes wealth management do banco, aqueles com patrimônio a partir de alguns milhões de dólares. A tokenização permitiria frações menores de participação, registro mais transparente e, potencialmente, um mercado secundário com mais liquidez do que o atual.

O timing não é acidental. O mercado de ativos privados atingiu US$ 13,3 trilhões globalmente em 2025, segundo a Preqin. Mas a maior parte desse capital está travada em estruturas ilíquidas, com períodos de lock-up de cinco a dez anos. A busca por soluções de liquidez no mercado privado é uma das grandes tendências em gestão de patrimônio.

Por que Wall Street está acelerando a tokenização agora

O Citigroup não está sozinho. O BlackRock lançou o fundo BUIDL em blockchain no ano passado. O JPMorgan opera a plataforma Kinexys para liquidação tokenizada. O Goldman Sachs tem sua Digital Asset Platform. Mas nenhum desses movimentos teve como foco principal ações de empresas privadas.

O diferencial do Citi está em atacar justamente o segmento de maior fricção do mercado financeiro. Comprar uma fatia de uma empresa privada hoje envolve documentação jurídica complexa, processos de due diligence longos e custos de transação elevados. A tokenização promete comprimir tudo isso em um registro digital verificável.

Do ponto de vista regulatório, o cenário também melhorou. A SEC sob a gestão atual sinalizou abertura para ativos digitais que representem valores mobiliários tradicionais, desde que cumpram regras de registro ou se enquadrem em isenções. O avanço da regulação cripto nos Estados Unidos tem criado uma base jurídica mais clara para esse tipo de operação.

O que muda para o investidor brasileiro

O movimento do Citi importa para o Brasil por dois motivos. Primeiro, porque os grandes bancos brasileiros seguem de perto o que Wall Street faz. O Itaú já opera com tokenização de recebíveis. O BTG tem a plataforma Mynt para ativos digitais. Se o padrão global caminhar para ações tokenizadas de empresas privadas, o mercado local vai seguir.

Segundo, porque investidores brasileiros qualificados já acessam mercados privados internacionais via fundos feeder e plataformas offshore. A tokenização pode reduzir custos de intermediação e facilitar o acesso a oportunidades que hoje exigem tickets mínimos de US$ 250 mil ou mais.

Há também uma dimensão estrutural. O Brasil é um dos países mais avançados em infraestrutura de pagamentos digitais, como demonstra o Pix. O Banco Central já testa o Drex, a moeda digital que poderá se integrar a contratos inteligentes e ativos tokenizados. O ecossistema financeiro brasileiro tem condições técnicas de absorver essa inovação rapidamente.

Tokenização de ativos privados resolve um problema real?

Sim, mas com ressalvas. A liquidez que a tokenização promete depende de existir um mercado secundário ativo. Não basta colocar uma ação na blockchain se não houver compradores do outro lado. Os primeiros experimentos com security tokens, lá em 2018 e 2019, falharam exatamente por isso: a tecnologia funcionava, mas o mercado não existia.

A diferença agora é que quem está entrando no jogo são os maiores bancos do mundo. O Citi não precisa criar demanda do zero. Ele já tem milhares de clientes institucionais que alocam em private equity e buscam formas de acessar liquidez antecipada. A infraestrutura blockchain vira apenas o trilho por onde essa demanda existente vai transitar.

O risco está na execução. Interoperabilidade entre blockchains, integração com sistemas legados de custódia e compliance com regras de know-your-customer são desafios reais. Mas são desafios operacionais, não conceituais. A tese de que ativos privados serão tokenizados já foi validada. A questão agora é velocidade e escala.

Qual o tamanho dessa oportunidade

O Boston Consulting Group estima que o mercado de ativos tokenizados pode atingir US$ 16 trilhões até 2030. Mesmo que essa projeção seja otimista pela metade, estamos falando de trilhões de dólares migrando para infraestrutura blockchain nos próximos anos.

Para o investidor que acompanha o setor, o dado relevante é que a tokenização deixou de ser narrativa cripto e virou estratégia de banco global. O Citi não está fazendo isso para agradar a comunidade Web3. Está fazendo porque vê uma oportunidade de receita em resolver um problema real do mercado de capitais.

E quando o maior custodiante do mundo decide tokenizar, o sinal é claro: o mercado privado está prestes a se tornar um pouco menos privado.

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Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
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