Bradesco bate consenso e marca nono tri de alta no lucro
Bradesco reportou lucro de R$ 5,9 bi no primeiro trimestre, alta de 16% na base anual. ROE segue em trajetória ascendente, mas mercado monitora capital.
O Bradesco entregou mais um trimestre de recuperação. O banco reportou lucro líquido recorrente de R$ 5,9 bilhões no primeiro trimestre de 2026, uma alta de 16% em relação ao mesmo período do ano anterior. É o nono trimestre consecutivo de crescimento, uma sequência que começou a ser construída ainda em meados de 2024, quando o banco iniciou uma reestruturação profunda sob o comando de Marcelo Noronha.
O número veio acima do consenso de mercado, que projetava algo mais próximo de R$ 5,6 bilhões. A surpresa positiva reforça a tese de que o segundo maior banco privado do país conseguiu, de fato, virar a página dos trimestres fracos que marcaram 2022 e a primeira metade de 2023.
O que explica a sequência de resultados do Bradesco
A melhoria não veio de um único fator. A carteira de crédito expandida cresceu em ritmo saudável, com destaque para linhas de maior rentabilidade como consignado e crédito imobiliário. Ao mesmo tempo, o índice de inadimplência acima de 90 dias seguiu em trajetória de queda, refletindo uma originação de crédito mais criteriosa adotada nos últimos dois anos.
O spread bancário, diferença entre o custo de captação e a taxa cobrada nos empréstimos, também contribuiu. Com a Selic ainda em patamar elevado, o Bradesco conseguiu manter margens robustas, especialmente no segmento de varejo. A receita com serviços e seguros, historicamente um pilar do banco, voltou a ganhar tração. A operação de seguros, que inclui a Bradesco Seguros, segue sendo uma das maiores geradoras de valor do conglomerado.
O retorno sobre o patrimônio líquido, o ROE, continuou sua trajetória de recuperação. Embora o banco não tenha divulgado o número exato no release inicial, analistas estimam algo entre 15% e 16%, ainda abaixo dos patamares históricos de 18% a 20%, mas significativamente acima do vale de 11% registrado no pior momento da crise de crédito. Como discutimos em nossa cobertura de finanças, a recuperação dos grandes bancos tem sido um dos temas centrais do mercado brasileiro.
O ponto de atenção que o mercado monitora
Nem tudo é celebração. O índice de capital do Bradesco tem sido objeto de monitoramento mais atento pelos analistas. O crescimento da carteira de crédito consome capital regulatório, e o banco precisa equilibrar a expansão com a manutenção de buffers adequados acima dos mínimos exigidos pelo Banco Central.
Esse é um tema que não afeta só o Bradesco. Todo o sistema bancário brasileiro opera sob regras de Basileia III, que exigem índices mínimos de capital ponderado pelo risco. Quando um banco cresce rápido no crédito sem levantar capital novo, esse índice naturalmente se comprime. Por ora, o Bradesco opera com folga suficiente, mas o ritmo de expansão dos próximos trimestres será calibrado por essa variável.
Outro ponto relevante é a competição. O Nubank, que também divulga resultados em breve, vem ganhando participação no segmento de baixa renda, exatamente o nicho onde o Bradesco historicamente dominava. A resposta do banco tem sido acelerar a digitalização e investir em experiência do cliente, mas a guerra por market share nesse segmento está longe de ter um vencedor definido. A transformação digital nos grandes bancos segue como tema estrutural do setor.
Como o resultado se compara aos pares
A safra de resultados dos bancões do primeiro trimestre de 2026 tem sido, no geral, positiva. O Itaú segue como referência em rentabilidade, com ROE consistentemente acima de 20%. O Banco do Brasil também apresentou números sólidos, beneficiado pela carteira de agronegócio. O Santander Brasil, por sua vez, mostrou sinais de recuperação, embora em estágio menos avançado que o Bradesco.
O que diferencia o caso do Bradesco é a magnitude da virada. O banco saiu de um período em que o mercado questionava sua capacidade de competir no novo cenário bancário, com fintechs agressivas e um consumidor cada vez mais digital, para uma sequência que demonstra execução consistente.
Para o investidor, o cenário é de cautela otimista. As ações BBDC4 acumulam valorização expressiva nos últimos 12 meses, o que significa que parte da recuperação já está precificada. A questão agora é se o banco consegue sustentar o ritmo de melhoria e se aproximar do ROE de 18% que o mercado considera justo para o papel. Análises sobre o setor financeiro brasileiro sugerem que ainda há espaço, mas o caminho ficou mais estreito.
O que esperar dos próximos trimestres
A gestão sinalizou que pretende manter o foco em linhas de crédito com melhor relação risco-retorno. Isso significa crescimento moderado da carteira total, mas com mix mais rentável. A operação de seguros deve continuar como âncora de resultado, especialmente num ambiente de juros altos que favorece o resultado financeiro das reservas técnicas.
O consenso entre analistas aponta para um lucro recorrente entre R$ 24 bilhões e R$ 26 bilhões no acumulado de 2026, o que representaria o melhor resultado da história do banco. Se confirmado, seria a prova definitiva de que a reestruturação iniciada em 2024 deu certo. Resta saber se o mercado vai pagar por essa história com múltiplos mais generosos ou se o desconto em relação ao Itaú veio para ficar.