Banco Central muda regras e reclassifica stablecoins; impacto pode ser enorme
BC realoca stablecoins para a conta financeira, alinha metodologia ao FMI e expõe que elas já representam mais de 90% do volume capturado. Ajuste estatístico prepara terreno para fiscalização mais robusta a partir de 2026 e separa, enfim, cripto com passivo de ativos sem passivo como o Bitcoin.
Ao alinhar a metodologia ao FMI e mover stablecoins para a conta financeira, o BC cria base estatística para fiscalização mais fina num mercado que já representa mais de 90% do volume capturado
O Banco Central deu um passo silencioso, porém relevante, para afiar as lentes com que observa o mercado cripto no Brasil. A autoridade reclassificou as stablecoins nas estatísticas do setor externo, tirando-as da conta capital e movendo-as para a conta financeira, em linha com a metodologia do FMI. À primeira vista parece um mero ajuste contábil, mas não é: a mudança conversa diretamente com o novo arcabouço regulatório do setor, que trata essas operações como câmbio e exige um nível de granularidade impossível de alcançar sem arrumar a casa estatística antes.
Na prática, o movimento reconhece a natureza econômica das stablecoins: instrumentos com passivo do emissor, desenhados para espelhar moedas fiduciárias e funcionar como ponte para pagamentos e liquidações. Em outras palavras, deixam de dividir espaço com criptoativos sem passivo (como o Bitcoin) em uma rubrica ampla e passam a ser registradas onde se medem fluxos financeiros propriamente ditos. O efeito colateral é benéfico para quem regula e para quem opera: métricas mais limpas permitem calibrar melhor riscos, custos e, sobretudo, a supervisão.
A reclassificação em números
A revisão, que cobriu dados de janeiro de 2019 a setembro de 2025, expôs a dominância das stablecoins no uso monitorado pelo BC. Segundo a autoridade, elas já respondem por mais de 90% do volume de transações capturado. Em outubro, o saldo foi de entrada líquida de US$ 1,887 bilhão, somando US$ 12,917 bilhões em 12 meses. Enquanto isso, as transações com cripto sem passivo, caso do Bitcoin, permaneceram na conta capital e registraram saída líquida de US$ 26 milhões em outubro e de US$ 521 milhões no acumulado de janeiro a outubro.
Esses números ajudam a contar a história do uso econômico das moedas estáveis: servem de atalho para on/off-ramps, para proteção tática contra volatilidade cambial e para liquidação rápida entre plataformas, ainda que a fotografia do BC alcance apenas o que passa pelo mercado formal de câmbio em reais. Ao separar o que tem passivo do que não tem, a série fica menos “poluída” e mais útil para entender comportamento de fluxo, timing de entradas e saídas e o apetite do varejo e de empresas por instrumentos digitais dolarizados.
O que muda na prática
O ajuste só se tornou viável porque, desde agosto de 2024, as instituições que operam câmbio passaram a identificar qual criptoativo foi comprado ou vendido. Esse dado, antes ausente, permitiu classificar com precisão o que vai para a conta financeira (stablecoins) e o que permanece na conta capital (cripto sem passivo). Vale notar que, por ora, as estatísticas do BC espelham contratos de câmbio; operações feitas diretamente no exterior, sem intermediação em reais, não entram nessa base.
Com a regulamentação já em vigor, a fiscalização tende a ficar mais fina a partir de maio de 2026, quando as Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais terão de reportar um conjunto maior de informações. O enquadramento de stablecoins como operações de câmbio reforça controles tradicionais do mercado financeiro — identificação, trilha de auditoria e reconciliação — em um segmento que, pelos volumes, já deixou de ser nicho. Para quem opera, a mensagem é clara: o escrutínio vai subir, e os dados, finalmente, darão lastro à supervisão.
Por que isso importa para investidores e empresas
Para o investidor, a mudança não altera a mecânica de uso do dia a dia, mas redefine o mapa de riscos e de obrigações de reporte para intermediários. Para empresas, especialmente as que fazem gestão de caixa em dólar digital ou conciliam recebíveis internacionais via stablecoins, o novo enquadramento reduz incerteza regulatória e abre espaço para processos mais previsíveis, ainda que com maior fricção de compliance. No agregado, trata-se de um avanço: medir melhor para regular melhor.
Há, por trás disso, um ponto conceitual importante: stablecoins com passivo implicam risco de contraparte e de lastro, ao contrário de cripto sem passivo, cujo risco é essencialmente de mercado. Entender essa diferença é vital para decidir qual instrumento usar como hedge, meio de pagamento ou reserva tática de liquidez. Para quem deseja compreender melhor como stablecoins funcionam como proteção cambial, os modelos de lastro e os riscos de contraparte, o BlockTrends oferece o curso Aula 1 | Stablecoins: Qual é o Melhor Hedge?, que explora fundamentos, usos práticos e limites desses instrumentos.