Finanças

Trump Media perde US$ 406 mi e expõe risco do tesouro em Bitcoin

Prejuízo bilionário da Trump Media no primeiro trimestre veio de marcação a mercado de criptoativos. Caso ilustra os riscos da estratégia de tesouraria em Bitcoin.

Trump Media perde US$ 406 mi e expõe risco do tesouro em Bitcoin
Foto: Jonathan Borba / Unsplash

A Trump Media & Technology Group (TMTG), dona da rede social Truth Social, reportou prejuízo de US$ 406 milhões no primeiro trimestre de 2025. A maior parte da perda não veio da operação de mídia social, mas da desvalorização de criptoativos que a empresa mantém em seu balanço: Bitcoin e tokens CRO, da Cronos.

O número chama atenção não pela surpresa, mas pelo que revela sobre os riscos de uma tendência que ganhou tração nos últimos dois anos: empresas listadas em bolsa usando criptomoedas como estratégia de tesouraria. A TMTG seguiu um caminho popularizado pela Strategy (ex-MicroStrategy), mas com uma execução e um perfil de risco bastante diferentes.

O que aconteceu no balanço da Trump Media

A TMTG anunciou em 2025 a compra de Bitcoin e CRO como parte de uma estratégia de diversificação de caixa. A empresa já possuía dificuldades operacionais relevantes: a Truth Social gera receita modesta, e a maior parte do valor de mercado da companhia sempre esteve atrelada ao capital político da marca Trump.

No primeiro trimestre, a queda do Bitcoin de suas máximas combinada com a desvalorização mais acentuada do CRO resultou em perdas contábeis de centenas de milhões. Pelas regras contábeis atuais (ASU 2023-08 do FASB), empresas devem marcar criptoativos a valor justo a cada trimestre, reconhecendo ganhos e perdas diretamente no resultado.

Isso significa que a volatilidade do Bitcoin agora aparece diretamente no lucro ou prejuízo de qualquer empresa que o mantenha no balanço. Para a Strategy, com mais de 550 mil bitcoins acumulados, trimestres de alta geram lucros extraordinários. Trimestres de baixa, prejuízos igualmente expressivos.

A diferença entre Strategy e Trump Media

A comparação é inevitável, mas as diferenças são fundamentais. A Strategy, como acompanhamos no portal, construiu sua posição ao longo de anos com uma tese clara: Bitcoin como reserva de valor corporativa de longo prazo. Michael Saylor levantou capital via dívida conversível e ofertas de ações com mecanismos desenhados especificamente para essa estratégia.

A TMTG, por outro lado, diversificou seu caixa em dois ativos cripto distintos, incluindo o CRO, um token com perfil de risco muito diferente do Bitcoin. O CRO é o token nativo da Cronos, blockchain ligada à exchange Crypto.com, e historicamente apresenta volatilidade superior à do próprio Bitcoin.

Além disso, a operação principal da TMTG gera pouca receita. Quando a Strategy tem um trimestre ruim com Bitcoin, sua operação de software continua funcionando como âncora. A Trump Media não tem essa rede de segurança.

O playbook de tesouraria em Bitcoin funciona para qualquer empresa?

Essa é a pergunta central que o resultado da TMTG levanta. Nos últimos 18 meses, dezenas de empresas ao redor do mundo anunciaram compras de Bitcoin para o balanço. No Japão, a Metaplanet adotou a estratégia. No Brasil, a Méliuz se posicionou como a primeira empresa listada na B3 a manter Bitcoin em tesouraria.

O modelo funciona sob premissas específicas: a empresa precisa de capital suficiente para suportar a volatilidade sem comprometer operações, horizonte de longo prazo declarado e comunicação transparente com o mercado. Quando algum desses elementos falta, o resultado é ruído no balanço, confusão entre investidores e, potencialmente, destruição de valor.

A regra contábil do FASB, que entrou em vigor em 2024, tornou o impacto mais visível. Antes, empresas só reconheciam perdas por impairment, nunca ganhos não realizados. Agora, cada trimestre reflete fielmente a oscilação dos criptoativos. Isso é mais justo contabilmente, mas expõe empresas a uma montanha-russa nos resultados.

O que o investidor deve observar

Para quem investe em ações de empresas com Bitcoin no balanço, a lição da TMTG é direta: entenda a operação principal antes de olhar a posição cripto. Se a empresa não gera caixa suficiente para sustentar suas operações, a tesouraria em Bitcoin vira aposta alavancada, não estratégia de preservação de capital.

Também importa avaliar o mix de ativos. Bitcoin e Ethereum têm liquidez profunda e histórico de recuperação em ciclos anteriores. Tokens menores como CRO carregam riscos adicionais de liquidez, governança e concentração. A decisão da TMTG de manter CRO ao lado de Bitcoin sugere que a estratégia foi mais oportunista do que fundamentada.

A sofisticação crescente do mercado financeiro tradicional mostra que empresas sérias tratam criptoativos com a mesma disciplina aplicada a qualquer outro ativo de risco: dimensionamento de posição, política de hedge e governança clara. A TMTG, ao menos neste trimestre, parece não ter seguido esse roteiro.

O caso não invalida a tese de tesouraria em Bitcoin. Mas prova que execução importa tanto quanto a tese. E que, quando a maré baixa, fica claro quem estava nadando sem roupa.

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Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
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