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GameStop oferece US$ 56 bi pela eBay e expõe o novo M&A cripto-adjacente

Oferta hostil da GameStop pela eBay sinaliza nova fase de aquisições por empresas que adotaram Bitcoin no balanço. Mercado reagiu com ceticismo, mas o movimento revela uma tendência.

GameStop oferece US$ 56 bi pela eBay e expõe o novo M&A cripto-adjacente
Foto: Ketut Subiyanto / Unsplash

A GameStop apresentou uma oferta de 56 bilhões de dólares para adquirir a eBay, numa das propostas de aquisição mais surpreendentes do ano. A oferta não agradou o conselho da eBay, que sinalizou rejeição. Mas o fato em si carrega uma mensagem que vai muito além de dois varejistas digitais disputando espaço.

A GameStop de 2026 é uma empresa radicalmente diferente daquela que protagonizou o short squeeze de 2021. Sob a liderança de Ryan Cohen, a companhia acumulou reservas significativas de caixa e, seguindo o playbook popularizado pela Strategy (antiga MicroStrategy), passou a alocar parte de seu balanço em Bitcoin. Agora, usa essa posição financeira para tentar aquisições de grande porte.

O playbook Strategy aplicado a M&A

A Strategy de Michael Saylor transformou o modelo de empresa pública com reservas em Bitcoin num fenômeno de mercado. A tese é simples: usar o balanço valorizado pela exposição ao Bitcoin como alavanca para operações que seriam impensáveis com a geração de caixa tradicional do negócio.

A GameStop parece estar testando uma extensão dessa tese. Em vez de apenas acumular Bitcoin, usar o poder financeiro que essa posição confere para crescer via aquisições. A oferta pela eBay é, nesse sentido, menos sobre comprar um marketplace e mais sobre provar que o modelo funciona como base para expansão corporativa.

Como reportou a editoria de Finanças da BlockTrends, o playbook Strategy tem sido replicado por dezenas de empresas ao redor do mundo. A diferença é que poucas tinham tentado usar essa posição como trampolim para M&A dessa magnitude.

Por que a eBay rejeitou a oferta

A eBay encerrou o último trimestre com receita anualizada de aproximadamente 10 bilhões de dólares e uma base de 132 milhões de compradores ativos. A empresa tem se posicionado como marketplace de nicho, focando em itens colecionáveis, peças automotivas e produtos recondicionados, segmentos com margens superiores ao e-commerce generalista.

O conselho da eBay considera que a oferta da GameStop subvaloriza o negócio. Analistas do Bank of America estimam o valor justo da eBay entre 65 e 70 bilhões de dólares, com base em múltiplos de empresas comparáveis. Além disso, há questões práticas: a GameStop não tem experiência operacional para integrar um marketplace desse porte.

Existe ainda uma camada reputacional. A associação com a GameStop, empresa que carrega o estigma de “meme stock”, não é exatamente o tipo de marca que o conselho da eBay quer para seus acionistas institucionais.

O que isso revela sobre o mercado de aquisições

O movimento da GameStop acontece num contexto mais amplo de aquecimento do mercado de M&A. Segundo dados da Bloomberg, o volume global de fusões e aquisições no primeiro trimestre de 2025 atingiu 1,2 trilhão de dólares, alta de 18% em relação ao mesmo período do ano anterior. A expectativa dos bancos de investimento é que 2025 supere 2024 como ano recorde.

Nesse ambiente, empresas com balanços inflados pela valorização do Bitcoin ou por posições de caixa agressivas se tornam compradores potenciais de ativos que antes estariam fora de alcance. O fenômeno não é exclusivo da GameStop. A cobertura cripto da BlockTrends acompanha como empresas listadas com exposição a Bitcoin têm recebido valuations premium do mercado, criando uma espécie de moeda de troca corporativa.

A lógica é circular, mas funciona enquanto o Bitcoin se valoriza: empresa compra Bitcoin, ações sobem, empresa emite mais ações para comprar mais Bitcoin ou fazer aquisições, o mercado precifica a exposição. O risco óbvio é a reversão do ciclo.

As implicações para o investidor

Para quem acompanha o mercado americano, a oferta da GameStop pela eBay é um termômetro de até onde o modelo Strategy pode ir. Se outras empresas com Bitcoin no balanço começarem a usar essa posição para aquisições hostis, o mercado de M&A ganha uma nova variável.

Há precedentes históricos de ciclos em que empresas com ativos supervalorizados usaram suas ações como moeda para aquisições agressivas. A bolha de telecomunicações no final dos anos 1990 seguiu um roteiro parecido, com resultados que os investidores da época prefeririam esquecer.

Isso não significa que o cenário atual seja uma bolha. O Bitcoin tem fundamentos diferentes de ações de telecom em 1999. Mas o mecanismo de alavancagem é semelhante, e os riscos de execução em aquisições desse porte são reais independentemente da moeda usada para financiá-las.

A oferta pela eBay provavelmente não vai se concretizar. Mas o sinal que ela envia ao mercado é concreto: o Bitcoin como ativo de reserva corporativa está deixando de ser uma tese de preservação de valor para se tornar uma tese de crescimento agressivo. E isso muda a conversa para investidores, reguladores e concorrentes.

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Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
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