Finanças

IPO da Compass pode movimentar R$ 5 bi e redesenhar a Cosan

Cosan acerta dívida com Bradesco e abre caminho para o IPO da Compass, distribuidora de gás que pode alcançar valor de mercado de R$ 25 bilhões.

IPO da Compass pode movimentar R$ 5 bi e redesenhar a Cosan
Foto: Joshua Brown / Unsplash

A Cosan finalmente destravou um dos movimentos corporativos mais aguardados do mercado brasileiro. Depois de meses negociando com credores, a companhia acertou os termos com o Bradesco e abriu caminho para listar a Compass, sua distribuidora de gás, na B3. A operação pode movimentar até R$ 5,1 bilhões e atribuir à empresa um valor de mercado de R$ 25 bilhões.

Para quem acompanha o grupo de Rubens Ometto, o IPO não é surpresa. A Cosan vinha sinalizando a intenção desde o ano passado. O que mudou foi a urgência: a holding acumula uma dívida líquida superior a R$ 20 bilhões, e a venda de participação na Compass é peça central da estratégia de desalavancagem.

Por que a Compass vale tanto

A Compass controla a Comgás, maior distribuidora de gás canalizado do país, com mais de 2,3 milhões de clientes no estado de São Paulo. A operação é um caso clássico de ativo regulado com fluxo de caixa previsível, o tipo de negócio que atrai fundos de infraestrutura e investidores de longo prazo.

Além da Comgás, a Compass opera terminais de regaseificação de GNL e projetos de biometano. É essa diversificação que justifica o valuation esticado. A empresa registrou receita líquida de R$ 18,7 bilhões no último exercício, com margem Ebitda acima de 20%.

O mercado de gás natural no Brasil passa por transformação regulatória desde o Novo Marco do Gás, sancionado em 2021. A abertura do setor criou oportunidades para distribuidoras independentes, mas também aumentou a competição. A Compass, por ter escala e contratos de longo prazo, sai na frente, como já discutimos em nossa cobertura de finanças e mercado de capitais.

O acerto com o Bradesco e a engenharia financeira

O acordo com o Bradesco resolve um dos principais entraves ao IPO. O banco era credor relevante da Cosan e havia restrições contratuais que impediam a listagem sem renegociação prévia. Os termos exatos não foram divulgados, mas fontes de mercado indicam que houve alongamento de prazos e conversão parcial de dívida em compromissos futuros.

A Cosan precisa do IPO não apenas para reduzir dívida, mas para simplificar sua estrutura societária. O grupo controla participações em Raízen, Rumo, Moove e Compass, uma complexidade que o mercado sempre penalizou com desconto de holding. A listagem da Compass é o primeiro passo para destravar valor, como analisamos em matérias anteriores sobre reestruturações corporativas na bolsa brasileira.

O timing também importa. A janela de IPOs no Brasil voltou a se abrir em 2025, após quase três anos de seca. Com a Selic em trajetória de queda e o Ibovespa acima dos 130 mil pontos, o apetite por novas listagens cresceu. A Compass não estará sozinha na fila: outras empresas de energia e infraestrutura também avaliam ofertas públicas.

O que muda para o investidor

Para quem já tem ações da Cosan (CSAN3), o IPO é potencialmente positivo. A listagem da Compass força o mercado a precificar o ativo separadamente, o que historicamente reduz o desconto de holding. A Cosan negocia hoje com desconto estimado de 25% a 30% em relação à soma das partes, segundo analistas do BTG Pactual.

Para quem avalia entrar no IPO, a conta é diferente. Um valuation de R$ 25 bilhões coloca a Compass a cerca de 8 vezes Ebitda, múltiplo alinhado com pares internacionais do setor de distribuição de gás. Não é barato, mas também não é esticado para um ativo com geração de caixa estável e contratos indexados à inflação.

O risco regulatório existe. A renovação da concessão da Comgás, prevista para a próxima década, é uma variável que o mercado ainda não precificou completamente. Mudanças no marco regulatório estadual ou federal podem afetar margens. Quem acompanha o setor de investimentos em infraestrutura sabe que esse tipo de risco é inerente ao modelo.

Contexto macro favorece, mas não garante

O cenário macroeconômico ajuda. Juros em queda aumentam o valor presente de fluxos de caixa futuros, beneficiando diretamente ativos regulados como a Compass. A demanda por gás natural também cresce, impulsionada pela transição energética e pela necessidade de térmicas como backup para a matriz renovável.

Ainda assim, o mercado de IPOs no Brasil tem histórico de frustrar expectativas. Das 73 empresas que abriram capital entre 2020 e 2021, mais da metade negocia abaixo do preço de oferta. A Compass chega com fundamentos mais sólidos que a maioria daquelas listagens, mas o investidor aprendeu a cobrar prêmio de risco.

A operação deve acontecer ainda neste semestre. Os bancos coordenadores já estão definidos e o roadshow deve começar nas próximas semanas. Para a Cosan, é mais do que um IPO. É a chance de provar que a complexidade do grupo gera valor, não destruição.

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Sobre o autor
Marina Alves
Jornalista especializada em financas e mercado de capitais. Cobre investimentos, economia brasileira e global, fintechs, fundos e tendencias do mercado financeiro para o portal BlockTrends.
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