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Tim cook no lançamento do iphone

iPhone 12 custará R$14 mil no Brasil, graças ao dólar-Apple


Por Felippe Hermes
Outubro 22, 2020

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Poucas coisas são tão definidoras do Brasil quanto a noção de câmbio de equilíbrio. Segundo essa ideia, há uma taxa ideal, pela qual a indústria brasileira se torna competitiva.

Trata-se de algo relativamente insano, com ares pomposos de ciência econômica. Para entender o motivo, basta ler uma tradução literal da ideia: vamos fazer nossa moeda valer menos, para que fique mais barato para estrangeiros comprarem da gente.

Faz sentido? É evidente que não, por outra razão tão óbvia quanto: nossa dificuldade em produzir bens de maior valor agregado está ligada a problemas em nossa própria estrutura.

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Na teoria a ideia de câmbio de equilíbrio busca equalizar o quanto um país troca com o exterior, garantindo que consuma o mesmo que exporta. Na prática, estamos importando custos altos para exportar facilidade, o que como você já deve ter percebido, impede que a gente resolva os problemas reais, e invista em algo verdadeiramente produtivo.

A razão pela qual não produzimos iPhones, ou algo tão desenvolvido quanto não está em nossa taxa de câmbio, mas na nossa estrutura tributária, infraestrutura e capital humano.

Se você puxar na memória provavelmente se lembrará quando no ápice dos projetos mirabolantes tentamos instalar por aqui uma fábrica da Foxxcon, a empresa de Taiwan que fábrica os iPhones, ipads etc.

O anúncio chamou atenção, mas a desistência da empresa, que deveria em tese chamar muito mais, passou batido. A Foxxcon acabou desistindo do projeto graças a dificuldade em encontrar mão de obra. Faltavam engenheiros qualificados.

Durante um curto período, e longe dos $12 bilhões em investimentos produtivos, a empresa manteve uma pequena linha produzindo ipads no país. Dos 100 mil empregos aguardados, uma fração se concretizou.

Até 2017, quando a operação foi encerrada, a empresa produzia na base de incentivos fiscais. Ainda assim, não era o suficiente, de maneira que a produção foi encerrada por completo.

Como relata João Moreira Salles em um artigo escrito em 2010, o Brasil é um país que forma mais pessoas em Moda e Cinema do que em matemática ou física. 

Tal situação cria seus custos, mas ainda assim poderia ser superada, caso a demanda fosse estável e mostrasse as novas gerações os empregos possíveis nestas áreas.

Com um sistema tributário absurdamente insano porém, a produção industrial brasileira fica a míngua. Segundo a FIRJAN, o setor industrial brasileiro paga em média 42% de carga tributária, contra 23% do setor de serviços e 6% do agronegócio.

Nem se tivéssemos planejado conseguiríamos com tamanha habilidade tornar o Brasil uma enorme fazenda com pequenas cidades no meio.

O certo é que nossa indústria segue com pouca produtividade. Importa máquinas e equipamentos, ou tecnologia, é caro. Contratar pessoas? Mais caro ainda. Para cada R$1 em salários, temos R$1,03 em impostos e benefícios.

Em resumo, produzir no Brasil não é das tarefas mais fáceis, e não por coincidência, o apelo de um dólar valorizado causa tanta comoção em nossos empresários.

Os custos de se ter uma moeda fraca, que não são arcados por estes mesmos empresários, é o grande problema. 

O primeiro e mais óbvio deles, é que uma moeda fraca faz com que as pessoas tenham de trabalhar mais para consumir menos, afinal, uma taxa de câmbio depreciada impacta na inflação, pois inúmeros produtos, incluindo o trigo do pão que você consome, são cotados em dólar.

Mantemos as amarras e criamos espantalhos que impedem de resolvê-las. 

Mas essas são questões internas, e não respondem ao todo, se limitando abordar o porquê de não produzirmos internamente. E quanto aquilo que importamos? Porque é tão mais caro do que é no exterior?

O dólar-Apple

Foram os argentinos quem, com sua enorme dependência do dólar, cunharam o termo “dólar streaming”. Na prática, a taxa de câmbio que é estabelecida pelo governo ao se comprar serviços, como o Streaming da Netflix.

No Brasil, não chegamos ao ápice em que o câmbio varia de acordo com cada produto que se queira comprar (os argentinos no caso possuem 12 taxas de câmbio, incluindo dólar soja, petróleo etc). 

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Há uma enorme coincidência porém, que faz com que informalmente consideramos comum uma taxa de conversão distinta daquela anunciada nos jornais.

Em todo lançamento de Playstation, ou iPhone, ou qualquer eletrônico, a taxa de câmbio costuma ficar próxima a R$10 pra 1, muito longe do câmbio oficial. 

Um Playstion que custe $499, é vendido no Brasil por R$4.999,00. Neste caso ainda há um agravante. Por se tratar de jogo, o console paga até 70% de imposto, acima de bens de luxo ou armas de fogo.

Por que exatamente isso ocorre?

O ponto mais óbvio que se poderia apontar é lucro. As margens são altas! De fato, a Apple apresenta uma margem de lucro razoável por aparelho, ainda assim, o lucro no Brasil e no exterior não chega a variar.

Uma das questões centrais é a carga tributária. Por aqui, 39,8% do preço de um iPhone é imposto. Nos Estados Unidos a margem chega a 9%.

Uma diferença e tanto, mas que explica apenas parte do problema. 

Outra questão importante é a margem do revendedor. No Brasil, as margens chegam a ser o triplo dos Estados Unidos, atingindo até 10% do valor do aparelho para pagar o revendedor.

Como não opera 100% com lojas próprias, a Apple precisa pagar uma fatia aos lojistas. Algo comum, e que aumenta o preço.

Mas há um outro fator, pouco explorado.

A empresa se tornou a mais valiosa do planeta ao expandir radicalmente não apenas a venda de aparelhos, mas ao colocar e rentabilizar serviços em cima deles.

Isso funciona de tal maneira que Microsoft e Google pagam $8 bilhões anuais apenas para que  seus navegadores sejam o padrão no iPhone.

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Um cliente que use ios geram em média 3 vezes mais receita para o Google do que um cliente que use Android. 

A diferença de poder aquisitivo entre os usuários médios, explica essa questão. Um usuário de ios, da Apple, possui maior renda, e gasta mais em compras online.

Isso cria um ambiente no qual a Apple valoriza sua marca ao restringir de maneira deliberada o seu acesso. 

O status do iPhone, especialmente em países mais pobres, como o Brasil, é algo que tem valor para a empresa. Na prática, a escassez gera valor. 

Por último, mas não menos importante, o risco cambial é uma questão a se levar em conta. Por se tratar de uma moeda instável, a Apple estabelece um valor maior por aparelho, evitando assim que uma variação brusca de preços (como ocorreu este ano), possa prejudicar seu balanço.

A empresa acaba por se proteger do risco político de países como o Brasil, ao cobrar um pouco a mais. Exatamente como qualquer pessoa deveria fazer em seus investimentos. 

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