Artigo

200 reais

A inflação voltou: e quem avisa é a nova cédula de R$200.


Por Felippe Hermes
Julho 29, 2020

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É oficial: seu dinheiro não vale mais nada. No ano em que o Real completa 26 anos, alcança também a terrível marca de uma inflação acumulada de 521% desde sua criação.

Exatos 9.525 dias se passaram entre a criação do Plano Real e o anúncio de uma cédula de R$200. O lobo-guará é o animal em extinção que estampará as notas que começam a circular já em agosto. No entanto, quem parece que nunca será extinto é o hercúleo inimigo da economia brasileira: o Dragão da Inflação.

Se nos anos que antecederam o Real a inflação explodiu, chegando ao recorde de mais de 100% ao ano por quinze anos consecutivos, nos anos que se seguiram a estabilidade mostrou seu valor, permitindo ao país buscar taxas de juros menores e se organizar de maneira racional.

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Ainda assim, o preço da inflação, o famoso imposto invisível, se tornou cada vez mais presente com o passar do tempo. A nota de R$100, até então a mais poderosa das cédulas, vale hoje meros R$15 de 1994, quando foi oficialmente lançada.

Parece coisa do passado, mas é fato que a perda de poder de compra ainda afeta os brasileiros, e agora, da maneira mais cruel possível: abaixo do radar. Desde o início do plano, a inflação soma 521%, e como antes, afeta essencialmente a camada mais pobre da população.

Ao longo das décadas que se seguiram ao plano, oscilamos entre momentos de arrocho, com juros chegando a 45% ao ano, e momentos de relaxamento desnecessário, como quando no governo Dilma a inflação alcançou 7,25% ao ano

Para piorar, passamos ainda por períodos onde a inflação foi deliberadamente maquiada, como o congelamento de preços de combustíveis que estima-se tenha causado prejuízos de R$180 bilhões a Petrobras

Como os jornalistas do Valor Econômico e autores do livro “Anatomia de um desastre” contam, a ideia de que a inflação ainda era preocupante foi deixada de lado em algumas ocasiões por razões eleitorais. 

Segundo relatos, em 2005 o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, teria chegado a pedir demissão, em função das pressões para que abrandasse a meta de inflação em favor de um maior crescimento.

De fato, a ideia de que crescimento ocorre com inflação predominou na história brasileira ao longo de décadas. Da esquerda a direita, governos de ambas as matrizes tiveram seus momentos de deixar de lado o valor do dinheiro que você carrega para focar em aumento dos gastos públicos, supostamente para financiar investimentos e fazer a economia girar. Tudo pelo seu bem, claro.

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Pode parecer estranho portanto que no momento atual, quando se alardeia novamente o fim da inflação (afinal, pessoas em casa sem conseguir trabalhar não tem muito como consumir, certo?), o CMN, Conselho Monetário Nacional, tenha tomado a decisão de criar uma nova cédula.

Nada disso porém é coincidência. A despeito de os índices de inflação demonstrarem preços sob controle, há uma forte inflação de ativos acontecendo neste momento no mundo. Por ativos, claro, não se deve pensar naquilo que você consome no dia a dia, mas em bens que podem lhe gerar renda, ou se valorizar com o tempo.

O motivo de tudo isso não chega a ser novo, afinal desde 2008 o FED, o banco central americano, vem abusando do chamado ‘privilégio exorbitante’, que garante aos Estados Unidos a capacidade de imprimir dinheiro sem grandes consequências inflacionárias. Tendo em vista que os Estados Unidos emitem a moeda padrão no mundo, eles conseguem trocar uma cédula de $100, que custa alguns centavos para imprimir, por até $100 em produtos equivalentes.

Tudo isso, claro, se espalha pelo resto do globo. Já que os bens disponíveis são escassos, se os americanos começam a exagerar na impressão de moeda, os produtores podem revidar elevando os preços de produtos (como ocorreu nos choques do petróleo nos anos 70).

Para o Brasil, tradicional produtor de commodities e um país que depende dos investidores estrangeiros para fechar as contas, a questão também é importante. Quando nossos juros ficam muito baixos, diante do risco que o país apresenta, o dólar sobe. Exatamente como está ocorrendo agora.

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Uma alta do dólar, em condições normais, significaria maior inflação. Se ela não está ocorrendo nos bens e serviços, é de se supor que para algum lugar esteja indo. O mais provável neste caso, são os nossos ativos, que se tornam mais baratos para os investidores estrangeiros.

Portanto, a decisão do Comissão Monetária Nacional (CMN) de criar uma nova cédula de R$200 é muito mais do que folclórica, escancara aquilo que por anos nos negamos a enxergar: a nossa moeda não é apenas um “papel colorido”, ela na verdade é bastante frágil e pouco pode nos separar de um tenebroso futuro monetário.

É, ainda que um ato simbólico, uma demonstração de que os desafios para o Brasil se firmar como um país minimamente organizado ainda são imensos. Dependeremos de um difícil consenso nacional, aquele que os norte-americanos aprenderam durante os anos ‘70 e ‘80, onde não há crescimento verdadeiro sem uma população com seu poder de compra intacto.

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