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4 razões que explicam a alta da bolsa em meio à Pandemia.


Por Felippe Hermes
Julho 29, 2020

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Bolsa de valores não é um indicador econômico. Na verdade, quão mais deslocadas da economia real, maiores as chances dos taxistas de Guarulhos terem as mesmas ações que você.

William Duer foi um dos pais fundadores do recém criado Estados Unidos da América, tendo sido juiz e representante no chamado congresso constitucional, que estabeleceu a mesma constituição que perdura até os dias atuais. 

Com origem em uma família rica e bem relacionada, Duer serviu como membro do conselho do Tesouro americano, então sob a gestão de Alexander Hamilton (hoje conhecido como o cara do musical mais famoso da Broadway, e aquele que estampa a nota de $10).

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Graças às suas conexões, Duer é o que podemos chamar de “o primeiro insider de Wall Street”. Utilizando-se de uma série de empréstimos, e conhecimento sobre as licenças bancárias que deram origem ao primeiro Banco dos Estados Unidos, Duer promoveu uma corrida especulativa que culminaria não apenas na sua prisão, mas na primeira crise americana, o pânico de 1792.

Por meio do crédito (Sim, sempre ele), Duer promoveu uma corrida especulativa em torno dos títulos da dívida pública, chegando a controlar cerca de $2,8 milhões em títulos, ou 1,4% do PIB do país na época (sim, há dados de 1792! Você pode conferir aqui).

O resultado foi uma corrida bancária seguida de uma desmoralização do mercado de títulos.

Para botar ordem na casa, um grupo de leiloeiros e comerciantes de títulos se reuniria, cerca de 1 mês após o estouro da bolha, no número 68 da Walloons Street (em referência a um grupo de 30 famílias da etnia belga Walloon que se estabeleceu na região).

Debaixo de uma árvore, os comerciantes assinaram um acordo, segundo o qual, taxas fixas seriam estabelecidas para negociação dos títulos, e qualquer um que desejasse negociar precisaria fazer isso através de um dos membros do “clube” recém formado. Deste grupo e da necessidade de controlar manipuladores e ladrões, nasceu a primeira bolsa de valores americana.

A rua dos Wallons, que posteriormente se tornaria a “Wall Street” (sim, não tem nada a ver com muro), passaria desde então a figurar entre os mais importantes centros financeiros mundiais, e a mais conhecida rua naquela que é até hoje a mais rica cidade fundada por brasileiros, Nova York.

Essa porém é a versão bonita da história. Você poderia, como comenta Bob Axelrod, dizer que os comerciantes e leiloeiros viram ali uma oportunidade de, por meio de um acordo mútuo, monopolizar o mercado e extrair os benefícios, cobrando taxas escorchantes daqueles “não membros”.

Fato é que desde os seus primórdios, não é raro associar a bolsa de valores a golpes, espertezas, ou algum tipo “clubinho” dos muitos ricos.

Nesta semana por exemplo, a Ong britânica Oxfam publicou um estudo para apontar que “Os bilionários ficaram $42 bilhões mais ricos durante a Pandemia“.

Duramente criticado pela escolha das datas (entre 18 de março, a mínima das bolsas, e 12 de julho), o relatório evita uma discussão mais do que necessária: afinal, porquê a bolsa está subindo em meio a uma crise?

Pode parecer estranho que enquanto a economia real tenha previsão de cair 6% este ano, a bolsa já esteja voltando aos níveis pré crise. Aqui separamos 4 razões para lhe ajudar a entender o que está rolando.

Os juros estão cada vez menores

Assim como a própria economia, a inflação nos últimos meses sofreu um grave choque, em função da queda de demanda abrupta, afinal, pessoas em casa, e muitas sem emprego, consomem menos.

Com a queda na inflação, o movimento de queda nos juros, que já era bastante acentuado, sofreu uma rápida aceleração. Chegamos neste ano a menor taxa de juros praticada em toda história brasileira, de 2,25%.

Veja bem, eu sei que você deve estar pensando que nada disso chegou ao consumidor, e é verdade, mas para os investidores, o baque no curto prazo foi alto. Se há meros 5 anos era possível encontrar juros na casa dos 14% simplesmente comprando um título no seu app do Tesouro Direto, hoje em dia, ter retornos razoáveis é uma tarefa muito mais difícil.

Não por coincidência bilhões fluíram da renda fixa para a bolsa. Apenas em março, o início da crise e período mais forte de queda nas bolsas, as pessoas físicas (nada de bancos ou fundos, CPFs mesmo), aportaram R$17,5 bilhões em compras.

Nos meses seguintes, o número de investidores continuou crescendo.  Apenas no primeiro semestre deste ano, 648 mil pessoas entraram na bolsa, um número expressivo considerando que em dezembro de 2019 eram 1,5 milhão.

Em dezembro de 2018 por exemplo, eram 700 mil os investidores na B3, a bolsa de valores brasileira.

Tamanha quantidade de novos investidores ajuda, em partes, a explicar a euforia com o mercado. A essa altura você já deve ter sacado que maior demanda influência na oferta, e que os preços tendem a subir conforme há mais interessados, certo?

A parte lógica disso tudo é que os bilionários, brasileiros ou não, tem suas empresas listadas na bolsa. Somando ambas as questões, é bastante fácil verificar que o aumento no patrimônio, na verdade, ocorreu em função de aumento da demanda por fatias dessas empresas, que pagam muito melhor do que títulos públicos.

Este é um processo natural em qualquer economia, mas a velocidade com que ocorre no Brasil poderia gerar discussões melhores do que simplesmente manchetes sobre o aumento de patrimônio destes bilionários.

Os investidores brasileiros estão preparados para um período de baixa, por exemplo? Isso só o tempo dirá.

A bolsa antecipa recuperação

Entender o que move a bolsa de valores não é uma tarefa fácil. Você pode apelar para os fundamentos das empresas, ou fazer uma análise gráfica, a depender do tempo em que esteja disposto a aguardar.

O fato é que a bolsa nada mais é do que um mecanismo que permite trabalhar o tempo.

Imagine por exemplo que você possua uma empresa que lucra R$1 mil por ano, e todos os anos aumenta seu lucro em 10%. 

Você poderia vender parte da sua empresa na bolsa e captar uma fatia (digamos 20%), do lucro da sua empresa nos próximos 15 anos. Com estes R$ 3 mil, você reinveste a grana, faz aquisições e melhora sua empresa, fazendo ela agora lucrar R$1,5 mil. Com este valor, e pelo seu histórico de eficiência, a bolsa passa a lhe pagar 20 vezes o lucro. 

Por outro lado, se você não conseguir entregar resultados satisfatórios, sua empresa passa a valer menos, talvez 7-8 vezes o lucro. Gerando assim decepção entre os investidores.

Companhias cujo histórico de entrega de resultados é consistente, tendem a ser apreciadas. Empresas em transformação e que entregam resultados 30-40% maiores a cada ano, podem ser negociadas a 100 vezes o lucro!

Em outras palavras, a bolsa premia sua capacidade de crescer e a boa gestão. Se o seu histórico é favorável, é provável que em um cenário como o atual, investidores irão recorrer a sua empresa como um “porto seguro”.

Ações como a WEG, que a 30 anos entregam resultados consistentes, tendem a se beneficiar por exemplo (note que a WEG vale hoje algo como 70 vezes seu lucro).

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O fato é que ninguém está disposto a esperar 70, ou 700 anos no caso da Tesla, para receber em lucros o mesmo valor que investiu na empresa, mas sim aposta que a empresa será capaz de entregar resultados e crescer de maneira acelerada, e paga um prêmio por isso.

E é exatamente por se preocupar com o lucro em um prazo tão longo, que a bolsa pode se dar ao luxo de superar o momento atual. Não importa tanto que em 2020 o lucro caia, desde que as empresas consigam compensar isso nos próximos anos.

O que nos leva a outra questão:

A Bolsa não é um espelho da economia real.

Há um fato contado em tom de brincadeira no mercado que resume bem o nosso cenário: o Brasil tem o mesmo número de empresas na bolsa que a Mongólia.

Temos pouco menos de 400 empresas listadas em bolsa. Trata-se de um número 10 vezes menor do que o da Índia, ou 15 vezes menor que o dos Estados Unidos.

Nosso volume negociado, apesar de estar na máxima este ano (o que ajuda a explicar a alta também), é relativamente baixo. 

A B3 negocia por dia $4.5 bilhões de dólares. A NYSE, por exemplo, negocia $169 bilhões, enquanto a NASDAQ, outra bolsa americana, negocia $102 bilhões.

Note que a economia americana é cerca de 10 vezes maior que a brasileira, mas suas duas maiores bolsas, além de 15 vezes mais empresas, negociam 60 vezes mais do que as brasileiras.

Isso, além de explicar o porquê inúmeras empresas brasileiras abrem capital por lá, dá uma dimensão do quão ligada a economia está a bolsa.

Enquanto a bolsa brasileira possui empresas cujo valor somado equivale a 50% da nossa economia, a bolsa de valores de Nova York, a NYSE, possui sozinha companhias que valem 150% da economia americana (e sim, eu sei que fluxo e estoque são diferentes).

Temos no Brasil poucos representantes de cada setor. Poucos bancos, poucas agroindústrias, poucas farmácias, empresas de tecnologia, construtoras etc.

Estas poucas representantes porém, tem acesso a um mercado em condições muito mais favoráveis do que a ampla maioria das empresas brasileiras.

Uma empresa cotada em bolsa consegue com facilidade captar alguns bilhões a juros menores do que a loja da esquina conseguiria em uma linha de crédito. 

Isso resume bem o porquê empresas como a Magazine Luiza possuem, segundo a própria fundadora, condições de permanecer até 1 ano e meio com lojas fechadas.

As empresas listadas em bolsa no país possuem vantagem em captar recursos em momentos como este, e por consequência, podem passar por crises de maneira mais tranquila do que a economia em si.

O seu dinheiro vale cada vez menos

A exemplo do que ocorreu em 2008, a crise atual gerou uma reação pesada por parte dos Bancos Centrais, que buscando dar “liquidez” ao mercado, se apressou em comprar títulos de empresas e a colocar recursos para que a economia continuasse rodando.

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Como você já deve ter sacado no ponto anterior, grandes empresas têm acesso mais rápido a estes recursos do que pequenas e médias.

Nos Estados Unidos por exemplo, o FED, o banco central de lá, colocou $3 trilhões no mercado, a bagatela de $50 mil por família. 

Os recursos ajudaram a manter os juros baixos e a garantir que empresas continuassem a captar grana para se manter durante o momento ruim.

No Brasil, onde o BC não chegou a imprimir dinheiro, R$1,2 trilhões foram liberados em crédito por meio da liberação de compulsórios (uma grana que os bancos são obrigados a deixar guardada no BC).

Com tamanha montanha de recursos, o crédito durante a crise continuou, mas não de maneira igualitária. 

Com capacidade de dar garantias aos bancos e uma relação já estabelecida, grandes empresas saíram na frente, com larga vantagem.

Entre 16 de março e 8 de maio, os bancos emprestaram R$291 bilhões ao setor privado, cerca de 75% dos quais para grandes empresas. E adivinhe só que tipo de empresas os bilionários possuem? Justamente, as “grandes empresas”.

Com tamanho volume de recursos disponíveis e uma demanda por produtos reprimidas, outro resultado foi a chamada “inflação de ativos”.

O preço dos ativos tende a subir, a despeito de os preços de bens e serviços na economia não acompanharem.

Na prática, isso significa que o mercado está tendo generosas altas graças a maior quantidade de recursos baratos disponíveis para os investidores. 

Como toda impressão de moeda em grande escala, o resultado é que o dinheiro tende a perder valor, uma vez que aquilo que ele pode comprar, como casas, empresas etc, passa a valer mais.

A maneira como isso ocorre nos Estados Unidos e no Brasil é distinta como você já deve ter sacado, mas os resultados são bem similares. 

Medidas de injeção de recursos no mercado tendem, facilmente, a chegar primeiro aos mais ricos e aos grandes investidores. 

A alta da bolsa não é portanto uma coincidência, e a valorização e resiliência do patrimônio de bilionários em meio a crise, acaba derivando disso. 

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